quinta-feira, 7 de maio de 2015

Os náufragos do petróleo



E no petróleo desta devastada cidade
Não é possível viver com tanta maldade
Quadrilhas de crianças na mendicidade
Assaltam-nos, exigem-nos caridade

Mas este petróleo está com muita vaidade
No degredo do orçamento da probidade
Onde já ninguém sabe o que é a verdade
Este petróleo é a desgraça desta cidade

Não podemos honrar compromissos
Porque o petróleo faz disso omissos
E nós de cabeças baixas, submissos
Como os blocos de gelo estaladiços

E pelas manhãs na selva ao despertar
Não sabemos se conseguimos levantar
E os exércitos da repressão enfrentar
E se mais outro dia o luto nos levar

Porque será que só o petróleo jorra
E tudo o mais é desgraça que nos torra
E no naufrágio petrolífero tão abrasador
São as violentas leis do nosso violador

As marchas da morte invadem as ruas
As populações perderam tudo, nuas
Por aqui não há nada que se aproveite
E isso constitui o nosso maior deleite

E deste petróleo nasce a pobreza
Nos barris dos petrodólares a beleza
A infelicidade instalou-se é de saudar
Espoliaram-nos o direito de sonhar

Nesta terra em ninguém se pode confiar
Os nossos olhos não se cansam de chorar
Viver sem solidariedade e educação
É a vitória da imprensa da intoxicação

Quando nos bate à porta a falsidade
Vinda da fortaleza da cumplicidade
Como a constituição incumprida
Pelos náufragos do petróleo, pútrida

Perante a lei somos todos iguais
Mas no petróleo muito desiguais
Na pobreza do petróleo mortais
E na riqueza restam os imortais

E nesta barcaça do petróleo desolada
Da massa cinzenta contaminada
Eis os náufragos da terra calcinada
Da crónica da miséria anunciada