quarta-feira, 20 de março de 2013

02 a 11 de Março de 2013. DIÁRIO DA CIDADE DOS LEILÕES DE ESCRAVOS




02 de Março
Uma zungueira confessa-se num templo leninista: Fui às compras na cidade próxima mas não tive sucesso. As mulheres fugiam muito preocupadas e perguntei-lhes: «Fogem porquê?» E elas responderam-me: «Estávamos muito bem, de repente sentimos chicotadas nas costas» «Sabem quem foi?» «É um jacaré, um espírito. Toda a gente está a fugir com medo. Ninguém consegue escapar-lhe!»
A NET continua a funcionar como um louco.
Atropelamento e fuga. Pelas 04.00 horas da manhã um jovem trabalhador de uma empresa que asfalta a rua próxima da ANGOP, está concentrado no seu trabalho. A área está vedada ao trânsito, de repente surge um veículo que conseguiu furar a protecção, e em marcha acelerada não vê o jovem trabalhador que é atropelado e lançado contra um carro estacionado, onde se lhe estatela debaixo. O condutor homicida põe-se em fuga. Os companheiros acorrem em seu socorro. Alguém grita: «Persigam-no! apanhem-no! prendam-no!» e mais uma voz se ouve: «Ele precisa de socorro urgente, alguém que o leve já para o hospital.» Mas ninguém corresponde ao apelo. Uma mais-velha lamenta, lembra a vida alcoólica, o refúgio dos escravos: «Ele vinha bêbado, cansado das catorzinhas!» E por falta de socorro, chegou tardiamente, carregaram com o jovem já no estado de não mais regresso à vida. Como é tão fácil morrer nesta cidade dos escravos, perante o jorrar da vida ininterrupta do petróleo.
03 de Março
O marido apanhou a sua esposa com outro. Depois ela fugiu para o mato, escondeu-se, e ele de noite procurou-a, viu um tronco, pensou que era ela, deu-lhe um pontapé e partiu a perna. Depois foi no quimbanda e transformou-se em mulher. Passados anos foi outra vez no quimbanda para desfazer o feitiço, e voltar a ser homem mas, o quimbanda tinha falecido.
04 de Março
Mês mulher, qual mulher?! Para já temos dois tipos de mulheres: as do petróleo e as escravas do petróleo. As do petróleo seguem faustosas, nele concubinas, e as escravas continuam escorraçadas, deportadas do Mayombe/Cacuaco, Tchavola, e do campo das escravas deste Tarrafal que se chama Angola. Dia da mulher, que mulher?! Quem não tem acesso ao petróleo, nunca será mulher.
Espoliaram-nos a energia eléctrica às 20.45. Tivemos sorte, devolveram-na às 22.24 horas.
05 de Março
Andam a asfaltar ruas e passam-lhes com o cilindro por cima, mas os prédios tremem como num tremor de terra, em risco de desabarem. Então não há outra solução? Ou a coisa é mesmo intencional para destruir, para mais centralidades petrolíferas instituir, MAIS UM CRIME IMPUNE!
06 de Março
Nesta cidade de Luanda dos escravos, como é impressionante o descalabro de uma sociedade. Porque se ouve o constante, a quase ininterrupta estridência das sirenes de qualquer coisa. Até parece, creio que sim, um estado de emergência, um desfile de modas de sirenes desafinadas, superiormente autorizadas pelo mergulho do petróleo corrupto. Tudo o que é destruidor vale a pena consumir.
Apagaram-nos a luz às 05.00 horas e acenderam-na às 23.50 horas.
Angola é um estado de facto e de jure feiticeiro. As suas populações aderem em massa aos quimbandas tradicionais, modernos de ocasião, e é claro, aos puros charlatães. E como estão isentos da distribuição dos lucros do petróleo, mas onde é que isto foi decretado?, atiram-se para o feitiço, tipo salteador da arca encontrada. Todos querem ficar ricos de um momento para o outro sem esforço. Aliás, a governação consegui-o facilmente sem mexer um dedo. Qualquer feitiço serve. O engraçado, ou será desgraçado da questão, é que estão a enriquecer. Só o que se passa por aí nos bairros… é com cada cena. É feitiço de porta em porta. Quem der um sambapito a uma criança e ela adoecer, o amigo das crianças está mal, vão-lhe atacar porque foi ele que enfeitiçou a criança, e se escapar da fogueira está com muita sorte. Também, o perguntar se uma criança doente está melhor, que fique de bico calado, é a mesma cena, vai para o fogo purificador dos feiticeiros. Gerou-se um ambiente de pavor, mortal.
A mulata bebe gasosa, e putos acabados de sair de mais uma partida de futebolismo gritam: «Vamos correr com os estrangeiros!» A mulata aterroriza-se, foge.
Lá se foi outra vez, sempre outra vez, a luz às 06.00 horas.
É para venderem mais uns geradores. As empresas dos geradores pressionaram os órgãos de decisão da energia eléctrica, para que provocassem mais um dos milhões de apagões, para que haja vendas de geradores, senão está-se mal. É que essas empresas telefonaram, correio electrónico não dá porque nunca respondem, ao senhor dos escravos, assegurando-lhe que correm o risco de falência devido ao normal funcionamento da energia eléctrica. E obrigam-nos a consumir a poluição cancerosa, enviando mais crianças e idosos para as morgues. Em Angola crianças não têm direitos, excepto o da escravidão e do morticínio.
A Rádio Ecclesia noticia que no complexo agrário da Cela, no Kwanza-Sul, estão armazenados um milhão e quinhentos mil ovos a apodrecerem, porque não têm escoamento para o mercado. Ninguém os quer comprar porque é muito mais fácil importar.
Mais um pobre, miserável país africano renasce, acrescento eu.
E de muitos burros se fazem muitos doutores, e quantos mais se farão, nascerão?
Os apagões na Luanda dos escravos.
Os escravos não sabem, não conseguem fazer nada, seja o que for. E como raramente dizem nada, isto é uma fazenda de escravos, os chineses carregaram com tudo para a China, que mais pode ser? Pobres diabos, pobres incompetentes, o cúmulo da ignorância, do analfabetismo total e completo. Qual é a utilidade do partido dos escravos? Uma inutilidade! Tem que chamar, contratar estrangeiros para erguer qualquer obra. Os tipos estão apostados em arrasar isto tudo, incluindo as nossas vidas, porque a única coisa que sabem mandar fazer, é perseguir e roubar mulheres nas ruas que vendem o que lhes resta da miséria. Batem-lhes selvaticamente e abatem-nas amiúde como cavalos nos matadouros. E no fim cantam vitória, porque mais uma batalha foi ganha, conforme as instruções dos entes superiores da revolução leninista sem fim. Se a única preocupação é desviar os contentores dos dinheiros do petróleo para as suas contas pessoais, eles querem lá saber se há energia eléctrica ou água. Eles têm tudo à disposição, bilionários podres de ricos, que mais lhes interessa? Verem o povo na mais extrema miséria a lutar entre si por uma côdea de pão. E não é assim que fazem os senhores dos escravos? E como já estamos no limite da saturação, tudo é possível acontecer. Quanta mais repressão, mais ódios e vinganças nascerão. E quem não se compadece do sofrimento do próximo, a população, não merece a mínima consideração, mas desprezo e hostilização. Neste reino de quarenta nos, decididamente Angola está bem encaminhada, outro país africano, outro Idi Amin Dada (1920-2003).