domingo, 1 de novembro de 2015

O Cavaleiro Luaty e Mana Laurinda na Demanda da Santa Corrupção (03)



Gutta cavat lapidem. A gota acaba por furar a pedra.

O cavaleiro Luaty estava como Cristo nos demoníacos braços do comité de especialidade da aniquilação dos presos políticos. Estava nos interrogatórios preliminares, os seus algozes esforçavam-se por lhe arrancarem uma falsa confissão a troco de uma montanha de dólares, um bruto carro, um bruto imóvel e brutas brasileiras importadas para lhe darem gozo sexual. Mas o cavaleiro resistia-lhes e os seus algozes também. E prosseguiam com o teatro próprio de um regime ultra autoritário:
- Então Luaty, não confessas quem te patrocinou para o golpe de estado e assassinato do nosso Grande Inquisidor?
O cavaleiro não queria acreditar no que ouvia. Como era possível tal acusação pois se nem uma arma tinha em seu poder, apenas um livro com o título, Como Exorcizar um Ditador. E Luaty respondeu-lhes:
- Sim, confesso que tenho um patrocinador… a minha mente ansiosa pela liberdade que depois da independência nos prometeram, e que afinal nos conduziram para o hediondo e fantasmagórico espectro colonial do qual lutamos outra vez para os destruir de uma vez por todas.
- Mas, temos provas mais que suficientes para acreditamos que te vendeste aos nossos inimigos, àqueles que querem a todo o custo desestabilizar o nosso governo democraticamente eleito – essa das eleições fraudulentas é de pobres diabos frustrados, pois a santíssima oposição declarou-as como justas, isto é, nada mais tendo a exigir ou reclamar - e vender o nosso povo e a nossa soberania às potências ocidentais e ao seu líder, os Estados Unidos da América. Não é senhor cavaleiro Luaty?
- Pois… como posso vender um regime dos mais corruptos do mundo se ele já se vendeu e nos vendeu. Onde há epidémica corrupção, há aos presos políticos feroz, mortal perseguição. Já agora, quantos milhões de dólares receberam do Grande Inquisidor por essa invenção do golpe de estado e do assassinato do vosso Inquisidor. É que alguém das vossas forças armadas me disse que precisam urgentemente de criar um conflito bélico, uma outra guerra para abastecerem os bolsos de dinheiro, pois estão a ficar vazios. E que se não conseguirem mais uma guerra, inventam outra à pressão, de qualquer maneira. Têm que criar uma outra guerra por todos os meios possíveis, mesmo com falsas informações ao vosso Grande Inquisidor. Aliás, esse vosso Grande Inquisidor só vive de mentiras e invenções e de falsos golpes de estado ao longo de quarenta anos de um partido que antes era do trabalho e que agora é o partido do pleno desemprego. O mais importante é sugar dinheiro mesmo que para isso tenham que eliminar quem quer que seja. Estamos como nos anos sessenta… nos anos de 1975. Viver em ruínas não é possível.
- Ó camarada Luaty.
- Camarada?! Foda-se, vão para o caralho, vão para a puta que os pariu!
- Mano Luaty.
- Eu, vosso mano? Porra! Vocês estão malucos, só pode. Mano de corruptos e de facínoras, nunca, JAMAIS! Onde houver injustiça tem que haver alguém que faça justiça.
O cavaleiro Luaty lembrou-se das imensas riquezas de Angola concentradas numa família e mais alguns seus servidores. Na realidade um vasto séquito de parasitas e de bajuladores que tudo faziam – melhor, nada, absolutamente nada faziam – para saquearem tudo o que fosse Angola. Na verdade Angola tornou-se num imenso e poderoso império empresarial, assim o nome real deveria ser, República dos Donos de Angola, Sarl. Viviam à farta, todos eram milionários, e costumavam ameaçar que quem se lhes interpusesse no caminho, a sua vida seria de imediato ceifada e que os defensores dos direitos humanos internacionais calariam a boca com apenas um milhão de dólares. Era por isso que os opositores políticos desapareciam e depois apareciam mortos algures, e que as suas mortes se deviam à actuação de bandidos, conforme comunicados das autoridades judiciais. E quem tentasse investigar a verdade seguiria, acabaria no mesmo caminho.
Claro que o nosso cavaleiro não sabia onde se encontrava. E claro que os governos ditatoriais fazem tudo por tudo para esconderem os seus pretensos inimigos em prisões ditas de alta segurança, tal como fizeram por exemplo, com Nelson Mandela, e apregoarem a todos os ventos que a justiça democrática funciona e que os mais elementares direitos dos presos políticos são respeitados, sempre sublinhando que os direitos de qualquer preso são respeitados conforme está pregado na Constituição.
E os inquisidores voltaram à carga municiados de falsas ideias, de falsos argumentos:
- Camarada mano Luaty, então não sabes, claro que desconheces que a República de Angola é um Estado de facto e de jure, e que como tal tem o direito de se defender?
- Condói-me ver que como sempre estão muito mal informados. Apontem-me apenas um caso de alguém da oposição que apresentou queixa na vossa justiça e o caso foi julgado a seu contento, sabendo de antemão que os pressupostos legais estavam claramente identificados e a seu favor, a causa seria ganha facilmente. Mais, sem educação e justiça vejam no que dá. A África contribui apenas com um por cento para a comunidade científica mundial… numa palavra, a África - e muito menos Angola – não têm cérebros, ou melhor tem-nos em grande quantidade, mas como está infestada de ditaduras, vive num marasmo intelectual aterrador. E ainda mais, isto já deixou de ser República de Angola, é república do Uganda. Idi Amin presente! Porque quem não é do petróleo é contra ele, quem não concordar com o Grande Inquisidor é contra ele. É repressão contra toda a população. Angola, onde até os bispos são corruptos. Os bispos de Angola não semeiam a palavra de Deus, semeiam corrupção, convulsão, e nisto são hábeis milenares. E mais, mais ainda, quando os portugueses e chineses dominarem o tecido empresarial – pouco lhes falta – então assim é que vai ficar bom. Cantinas e negociatas similares, tudo em poder dos asiáticos.
No local onde se encontrava – onde seria?, ninguém sabia – ouviam-se os choros de uma criança que pareciam não ter fim. O cavaleiro Luaty pensou que, será que prenderam uma mãe com a sua criança e que estando ela numa sessão de tortura, a criança abandonada chorava, pressentindo o sofrimento da sua mãe. Sim, numa ditadura totalmente insensível tudo é possível. Luaty arrepiou-se ao pensar que como é possível, regimes totalmente corruptos funcionarem e serem aceites pela comunidade internacional. Alguma coisa – muita coisa - não está bem, e que esta civilização necessita de facto de uma grande revolução, e isto quer se queira quer senão é inevitável, tal como as ondas do mar que incessantemente batem nas rochas até as desfazerem, numa revolução permanente de acordo com as leis da natureza. Porque tal como disse Lavoisier (1743-1794), na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.
Chegou um corpulento inquisidor mascarado, acercou-se do cavaleiro e sem aviso desferiu-lhe uma bruta chapada na cara. O nosso cavaleiro sentiu que ia desmaiar devido à potência de tal choque. Mas como um herói aguentou estóico e ainda com a face como que a se desfazer disse a sua inabalável verdade:
- Os corruptos perseguem os honestos, e como se não lhes bastasse ainda os prendem. Saibam que a indisciplina, a ignorância, a incompetência e a irresponsabilidade conduzem à miséria e à fome. E também saibam que difícil não é viver. Difícil é viver sob o governo de aldrabões que nos fazem a vida difícil, impossível. E que enquanto vós distribuís as vossas riquezas entre vós, nós distribuímos a miséria e a fome entre nós. Nos tempos que correm isso já não é admissível, assim brevemente tombareis sob o aguçado aríete do descontentamento geral, impossível de suportar. Pois, onde há milhões de esfomeados há o pleno estatuto dos desordenados.

Imagem: Setenta anos da Coreia Do Norte. ELPAIS