domingo, 22 de novembro de 2015

O Cavaleiro Luaty e Mana Laurinda na Demanda da Santa Corrupção (05


Et campos ubi Tróia fuit. E os campos onde foi Tróia: Hemistíquio de Virgílio (Eneida, III, 12), quando alude ao momento em que Eneias e os seus companheiros se dispõem a abandonar Tróia incendiada e alongam tristemente o olhar para as suas ruínas fumegantes
Claro que numa democracia de barras de ferro o diálogo político é efervescido na torrente do ferro, da chacina do bater no ferro quente e forjar, o ser humano aniquilar. É o retorno da civilização da Idade do Ferro onde os animálculos estrebucham na inquietude da certeza da queda do seu poleiro.
E um mandatário do comité de especialidade da barbaridade das barras de ferro, traiçoeiro como as silenciosas serpentes venenosas perigosas, postou-se nas costas do nosso herói e desferiu-lhe violentíssima cacetada com uma barra de ferro na cabeça. O nosso herói pensou que a sua vida ao fim chegou. Sentiu que a cabeça lhe ia desaparecer, estava prostrado como que desmaiado. Sentia dor intensa acompanhada de um zumbido como se disparassem tiros no seu cérebro. Assim ficou sem saber o tempo que passou. O sangue que escorria secou parecendo uma peça de caça algures abandonada à sorte dos mabecos numa chana. O cavaleiro Luaty conseguiu adormecer, mas pouco depois despertou com o frio de um pano que lhe deslizava pelas partes feridas. Moveu-se um pouco para o lado, conseguiu levantar a cabeça e viu um guarda que lhe limpava os ferimentos. Parecia um guarda caridoso, pois a equipa de mabecos humanos tinha-o abandonado à sua sorte, isto é, à sua morte, para depois comunicarem que o nosso herói caiu acidentalmente, e feriu-se com gravidade e não conseguiu escapar dos ferimentos. O guarda colocou-lhe um penso na cabeça, antes teve o cuidado de lhe rapar o cabelo para evitar infecção, e terminou com uma fita adesiva para segurar o penso. Mas Luaty não sabia se escaparia, pois a espécie humana que o capturou era dessa semelhante aos tubarões mako, muito agressivos que tudo atacam e matam sem justificação, apenas pelo prazer de destruir o que é vivo.
E como uma república das bananas onde os comités de especialidade são um bananal, apresentou-se na masmorra um enviado especial do comité de especialidade dos bajuladores, que logo se sentou. Eles fingiam andar muito cansados como se trabalhassem muito, mas na realidade sentiam-se sempre muito cansados de não fazerem nada. É verdade amigo leitor, não fazer a ponta de um corno também cansa pra caraças. O bajulador sentou-se próximo do cavaleiro, enquanto um guarda bem armado em pose de estado islâmico como se o cavaleiro fosse degolado a qualquer momento. Luaty parecia o Cristo com uma coroa de espinhos de barras de ferro na cabeça, à espera do golpe fatal dos seus algozes. E o interrogatório fez-se presente:
- Ó revolucionário de merda, armado em libertador do que já está libertado. Mas o que é que tu e os teus amigos querem fazer o que ao longo de quarenta anos já está feito?! Senão vê: as vias primárias, secundárias e terciárias funcionam a cem por cento. Já não há picadas, isso das estradas estarem esburacadas é invenção da oposição que só pensa no poder. A nossa população vive feliz com o apoio e carinho que o nosso governo lhe dispensa, lhe oferece. Posso garantir-te que nenhum ouro povo no mundo tem tanta qualidade de vida como o povo angolano. Pontes para ligação das aldeias, vilas e cidades não faltam. Os serviços de saúde estão com muitos hospitais espalhados por todo o país, de lés-a-lés como soe dizer-se. Bem apetrechados com equipamentos, medicamentos, técnicos hospitalares, enfermagem e médicos que garantem o normal funcionamento e o carinhoso atendimento aos pacientes. Já quase não é necessário evacuar pacientes para o exterior. Isto é um grande benefício do nosso sábio, o Grande Inquisidor. Quer dizer, vocês querem destruir as conquistas do nosso Grande Inquisidor que não se poupa a esforços de noite e de dia… ele quase não dorme para garantir o bem-estar do seu povo. Este povo que ele imensamente ama. Vejam o milagre da água para todos que nunca mais faltou, está abundante como nunca esteve no tempo colonial. Até dá para as crianças nos chafarizes brincarem, esbanjarem e tomarem banho. Conseguimos a nossa promessa da água para todos. Outro feito notável da nossa sábia governação superiormente dirigida pelo nosso inigualável timoneiro que já granjeou a admiração de todo o mundo, como o exemplo da boa governação a seguir, é a energia eléctrica, que tal como a água também jorra nos condutores eléctricos desta vasta planície que é Angola. Que seria do nosso são e extraordinário desenvolvimento económico e social sem esse prodígio que diga-se em abono da verdade também suplantou o tempo colonial, pois os colonialistas não tinham tudo electrificado e nós temos. Nas ruas nem há necessidade dos postes de iluminação pública porque a luz dos anúncios luminosos dos estabelecimentos comerciais garantem iluminação em pleno. É por isso que os assaltos diminuíram, quase já não os há, devido à intensa claridade nocturna. Quer dizer: fizemos da noite dia, e a bandidagem recolhe-se nas suas tocas com receio de assaltarem os transeuntes. O grande princípio que encetámos logo que tomámos posse como partido do trabalho dirigente e motor da nossa sociedade foi a agricultura. Nunca nos deixámos levar pela miragem do petróleo, pois só quem dele depende acaba num tsunami político e económico, esvai-se como o corpo sem sangue. Com a agricultura em pleno funcionamento logo deixámos de importar quase tudo, só algumas coisitas. Criámos o tal pleno emprego. Criámos imensos e poderosos motores económicos, os modelos que nos permitem a estruturação, a criação do bem-estar e a nossa balança de pagamentos é saudavelmente positiva. Quer dizer, saldamos as nossas contas com o exterior e ainda nos sobra muito dinheiro. As nossas reservas monetárias são astronómicas. Temos um imenso acervo de biliões de dólares que nos permitem muitos anos a viver sem sobressaltos, se a conjuntura internacional não nos for favorável. Isso é que se chama governar.
Conseguimos instituir a democracia como sistema de governação. As manifestações pacíficas sucedem-se praticamente todos os dias sem incidentes. Os jovens usam e abusam desse instrumento democrático para chamarem a atenção, lembrarem os erros da nossa governação que logo são corrigidos. Não há, nem nunca houve intolerância política, pois as opiniões contrárias e as acerbas críticas são bem-vindas como um salutar incentivo de governação, pois sem isso não há democracia. As eleições são cumpridas sem necessidade de observadores internacionais, pois a honestidade do escrutínio eleitoral está mais que confiável e nenhum partido apresentou qualquer reclamação sobre a idoneidade eleitoral, que diga-se de passagem é escrupulosamente isenta de má fé.
O bajulador fez uma pausa, a boca estava seca, salivou-a e apalermado como um vigarista apanhado com a boca na botija quando pretende fazer o conto do vigário.
- Qual é o partido político e país que financiam as vossas actividades?
O cavaleiro Luaty não se impressionou com a pergunta. Aliás durante o discurso do bajulador ria, ria muito como se alguém lhe contasse as melhores anedotas do mundo, e como tal ripostou-lhe:
- Oh! Mas vocês são assim tão burros?! Então não sabem que o partido político da Coreia do Norte é que nos apoia e como país também o faz. Outro país é a China. A partir de agora não comunicaremos quando sairemos às ruas e fá-lo-emos a qualquer momento enquanto não libertarem todos os presos políticos. Notem que a miséria e a fome a que nos obrigam são agora transgressões administrativas. Vocês querem que a democracia, o poder do povo, vá para as ruas, porque já não têm soluções. Estão encurralados pelo tempo e pela história, não sabem o que fazer… também nunca souberam e não é agora que o saberão. Teimosos como burros deixam-se levar na avalanche das manifestações que se aglutinam porque uma nação não é pertença de algumas pessoas, ainda mais quando vocês dizem que é democrática. Vocês estão loucos e a vossa loucura os tombará e jamais se levantarão. Vocês não gostam de mudar porque querem acabar como as outras ditaduras.

Imagem: Setenta anos da Coreia Do Norte. ELPAIS