quarta-feira, 6 de julho de 2016

O SUBMARINO ANGOLA (07)



República das torturas, das milícias e das demolições

Diário da cidade dos leilões de escravos

No Submarino Angola decorria o congresso do partido da partitura. Claro que não faltava nada porque o OGP, Orçamento Geral do Partido, assim o exigia e os recursos da nação estavam apenas distribuídos para os membros do partido. Bebia-se caviar com lagosta, champanhe e ostras vindos da França por via aérea no avião particular do politburo. Entretanto a população perdeu o direito de assim se chamar, cedendo-o para os estrangeiros que passaram a ganhar esse estatuto, inclusive foram agraciados por decreto que tinham direito a bilhete de identidade e logo o de cidadãos angolanos. Algum estrangeiro se lembrou do velho epíteto colonial dos pés descalços e rapidamente todos como que formando um partido nele votaram na exclusão da população muangolé, apelidando-a formalmente de pés descalços, e como tal sem direitos, tinham como deveres servir os senhores estrangeiros e os do Submarino Angola. Claro, ficaram sem terras, sem nacionalidade, sem trabalho, sem escola e hospitais – eram de fingir – sem independência, e muito mais grave, abismal, sem direito a Constituição, sem direitos democráticos, – também eram de fingir – com direito a casas partidas e sumariamente desalojados sem indemnizações. Totalmente, radicalmente sem direitos, as mamãs e as suas filhas tinham o direito de se prostituírem, e sem empregos quem tentasse vender alguma coisa nas ruas era sumariamente despojado dos seus bens, e também sumariamente “executado”, enviado para o conglomerado da cidade lata a que chamavam zangos com direito a numeração, zango 1, até zango 4, não se sabendo se mais virão, dependendo da rapina chinesa sob o disfarce do apoio financeiro. Com direito à miséria e à sua companheira inseparável, a fome, os pés descalços lutavam para sobreviver ressuscitando o velho esquema colonial dos assaltos. De tal modo que um português aconselhou outro que queria vir para o Submarino Angola que podia vir, que este país e o seu povo de pés descalços são maravilhosos, que não podia transferir euros, mas mesmo só com kwanzas, a moeda local, a coisa prometia, maravilhava, e depois, quem sabe, daqui a alguns anos a situação voltaria à normalidade e naturalmente se poderiam saquear os dólares e os euros outra vez à vontade, mas o pior, ressaltava o português, eram os assaltos. Por exemplo, um vizinho desceu do terceiro andar do prédio onde habita, foi ao minimercado quase pegado ao prédio e quando de lá saiu com dois sacos de compras, foi surpreendido por uma criança de dez anos a meter-lhe a mão no bolso das calças para lhe apanhar dinheiro. Claro, que quanto mais tempo passar mais as coisas vão piorar, e os estrangeiros não conseguirão escapar da onda do exército dos famintos que com muito empenho ajudaram a criar. Viver com famintos por todo o lado é um exercício de alto risco. Creio que me é um pouco difícil ver tantos portugueses a arriscarem aqui as suas vidas sem necessidade, mas eles é que sabem, mas é muito triste morrer assim por causa do vir na aventura do partir sem regressar.   
No Submarino bebia-se e comia-se até cair, faziam-se muitos brindes pelo encarceramento dos presos políticos, “uma das maiores vitórias de Deus” como disse um padre militante do partido Submarino Angola. Um deputado bem jiboiado prestou atenção a um vulto na janela do Submarino que fazia uma espécie de acrobacias submarinas e se aproximava da janela. Parecia um desses peixes abissais com lanterna para atrair as suas presas. O deputado olhou-o com muita atenção e não queria acreditar no que estava escrito na lanterna em letras bem grandes, LIBERTEM OS PRESOS POLÍTICOS. O deputado sentou-se, levou as mãos à cabeça, depois nas faces deixando-as escorregar e depois pousando-as nos olhos convencido que afinal isso de beber à toa não dá, e pensou que encher-se de álcool só trás coisas assim, visões. Porra, estamos bem lixados, até os peixes são revolucionários. E mais pensou que o melhor era não dizer nada a ninguém, senão teria problemas e ainda seria, coisa muito natural, afastado da vida política, e depois que faria sem o seu partido dos presos políticos? Nada, absolutamente nada, nadaria no mar da miséria. Por isso o melhor é ficar de bico calado e apoiar tudo o que estiver errado, como a intolerância política, a exclusão social, o abandono das populações, e levantar sempre a mão no ar, votar em tudo, muito em especial na corrupção, que sem ela não é possível viver.
É com profundo pesar que declaro que a oposição em Angola chama-se Rafael Marques de Morais.
“O sonho comanda a vida”, em Angola há muito que não sonhamos porque se vive de constantes pesadelos.
Ó corruptos, o exército de famintos saúda-vos!
Aqui não dá para confiarmos, só dá para desconfiarmos.
Enquanto continuarmos sob os falsos pilares democráticos, que já ruíram, é que nem o pó se vê, a direcção dos discursos retrógrados dos comissários políticos do povo, não será possível – nunca foi e nunca o será – qualquer diversificação da economia da corrupção, isto é, serão construídos mais gulagui (“sistema penal institucional da antiga União Soviética, composto por uma rede de campos de concentração”) seremos, somos, mais uma pátria de presos políticos, pois onde os há, isso significa miséria, fome, e o falso deus da Igreja que a apoia (a pátria) é a origem desta suprema merda.
Falsas ilusões, falsas expectativas, falsos sonhos, falsos governos, conduzem a pesadelos.
A Neusa tem vinte e nove anos, foi despedida porque faltava muito. Fez da sua casa um salão de cabeleireira. Mas como a crise da corrupção aprofunda a miséria e a fome, o futuro desta Angola será uma república de cadáveres. A Neusa está sentada à espera dos clientes que não aparecem. E ela cabisbaixa diz que “não sei o que hoje vou dar às crianças para almoçarem.”
E os portugueses estão outra vez em Angola para definitivamente a evangelizar.
E depois da independência Angola perdeu-se e nunca mais se encontrou. Alguém sabe onde ela está?
Um segurança disse para o colega que ia a casa e que não demoraria. Chegou e matou a mulher grávida, cortou-a aos bocados, meteu-os na arca congeladora e voltou nas calmas para o serviço, como se nada tivesse acontecido.
E depois de uma vida inteira a trabalhar, e no fim ficar sem nada, isto também é terrorismo.
Os partidos políticos da oposição não conseguem enfrentar o bicho-papão. E de repente senti tudo a desaparecer e por incrível que pareça divisei a inutilidade dos partidos políticos no Submarino Angola. Sim, sem liderança não têm nenhuma serventia. Estão, pode-se dizer, insuportáveis, o Submarino Angola também os levará para o fundo. No Submarino Angola a desgraça é o que mais grassa. A corrupção é o pai da nação. Todos lutam em vão contra o mauzão.
E no Submarino o seu controlo já se dificultava porque o lastro da corrupção o manobrava, e o seu capitão muito o descontrolava. Pouco irá faltar para o Submarino se afundar.
Como se pode dizer que estamos em paz, como se pode dizer não incitar à violência, se ela já nos domina, está presente em todos os domínios. O fundo está próximo.