sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

As Aventuras de Akalesela (10). O Mistério do Prédio Enfeitiçado




«Nos ordálios, o adivinho mistura o veneno com água e obriga os presumíveis culpados a pegar numa colher de pó e a ingeri-lo com água. Devem tomá-lo em jejum. Passado pouco tempo, um dos acusados vomita com fortes convulsões; a sua inocência está provada. Outro morre. Embora a morte seja rápida, não deixa de ser horrorosa, porque chega entre convulsões e vómitos de sangue, com a boca cheia de espuma e os olhos injectados de sangue.
Kalunga (Deus) aparece em vários grupos etnolinguísticos angolanos, norte da Namíbia, fronteira de Angola (nordeste) com o Congo (Zaire) e em grupos junto ao lago Kivu e lago Tanganica. Kalunga, etimologicamente, significa «aquele que, por excelência, reúne». Em diversas línguas bantus, significa também o mar, o oceano, o infinito, a morte, o rei do mundo subterrâneo ou mar, o que atrai a chuva. Kalunga
Também é certo que, depois duma história de guerras, epidemias, fomes, escravidão e enfermidades endémicas, já se habituaram a morrer. A mortalidade é tão elevada e a morte tão imprevista que se lhes tornou familiar. «Esta familiaridade com a Morte é também uma herança africana».
Fatalismo irremediável, resignação, gozo pela passagem, diminuição do ser, mistério e absurdo, desgraça, impotência, transtorno social, consumação, nova realização individual e comunitária, revolta perante um violento desastre antinatural, segurança, receio? Nenhuma destas definições esgota o sentimento bantu ante a morte, mas parece que, no seu conjunto, a definem.»
In Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Ed. Paulinas

Ela narra-lhe as peripécias porque passou:
- Fui assaltada... se de dia é assim, significa que quase não se pode andar na rua.
- Minha águia, imagina à noite, os prédios parecem o cenário perfeito do filme, O Exorcista.
- Bom… já sabes que a avó me deu uma pedra-verde, uma esmeralda pura e rara que vale mais que um diamante. É um amuleto mágico. A avó ensinou-me como me transformar em águia para descobrir e apanhar as pedras de fogo que os feiticeiros maus guardam no cimo de altas montanhas e nos grandes precipícios. Ela aconselhou-me: «Minha neta não confies neles, são muito falsos. Foram enviados pelos feiticeiros do mal para acabar com a nossa raça. Essa luta já dura há milénios. Os feiticeiros do mal fingiram que apoiaram a nossa independência, mas não. Utilizaram frases muito bonitas para nos enganarem, e agora já têm o poder total. Temos uma grande luta pela frente, acabar com o feitiço deles, e regressar aos tempos em que andávamos em liberdade, com os seios nus, quase nuas ao luar sob o olhar das árvores e da água dos nossos rios.
Ela faz uma pausa, depois continua a narração:
- O prédio está cheio de pessoas transformadas em serpentes. A pedra-verde deixa ver isso. Ninguém conhece Ma Yuan. O nome que lhe dão é a Army. As serpentes do quinto esquerdo disseram que ela é muito perigosa. Leva os homens para a cama, domina-os e depois rouba-lhes as casas e os automóveis. Foi assim que conseguiu apanhar um armazém a um estrangeiro. Por enquanto ainda não está transformada.
Ele intervém:
- Os feitiços estão desenvolvidos de tal maneira que não se consegue distinguir quem dirige o país. Todos mandam: amante, deputado, embaixador, empresário nacional, empresário estrangeiro, comerciante nacional ou estrangeiro, ministro, general, comandante da polícia, segurança do estado, assessores, filhos e filhas, directores de empresas estatais, governadores, bispos e padres de seitas religiosas, partidos políticos que mendigam dinheiro, fundações derivadas do poder, organizações não governamentais…
Ela interrompe-o:
- Os EUA a Europa…
- E agora os chineses.
Ela vai mais longe:
- São os feiticeiros maus. Este sistema de governação é terrível, e não há nenhum partido político que nos socorra. Nem conseguem organizar uma manifestação.
- Só querem dinheiro, é o novo empresariado angolano.
Ela volta a falar do prédio:
- Num apartamento as moças imploraram-me: «há dois dias que não comemos. Moça, dá só algum dinheiro para comer, temos fome.» Depois falei com o português foi muito mal-educado. Recebeu-me a dizer, que vão para a puta que os pariu mais os vossos feitiços. Que está farto de aturar feiticeiras. O rosto dele já tem sinais de estar quase enfeitiçado.
Ele culpa a informação que não informa:
- Por não cumprirem os preceitos estabelecidos na lei, a rádio informa com verdade, o jornal dos anúncios e a TV do telejornal está a recomeçar, deviam ser encerrados por actos de vandalismo da informação.
- A avó disse-me, que a independência é para melhorar a vida das pessoas, não é para a piorar. Era melhor ficarmos como estávamos antes. Agora só nos resta esperar que a fome nos mate.
- Querida, quando os feiticeiros fiscais apreendem três travesseiros, dois cabides e um alguidar com bananas…
- No reino do bananal.
- Quando chegar o dia da justiça, os que nos roubam e enfeitiçam serão julgados.
Ela analisa o comportamento do rico:
- O rico zomba do pobre convencido que o dinheiro lhe dá inteligência. Sem se aperceber o rico é escravo da inteligência do pobre. Porque é este que realiza as obras que ele encomenda. O rico nunca se apercebe que o pobre acabará por tomar o poder. É esse o destino trágico dos ricos. Nascer, viver e morrer ingloriamente nas mãos dos esfomeados.
Ele dá mais pormenores:
- A riqueza do rico é inútil, porque a utiliza para si, e para fazer maldade aos outros. Defende a sua felicidade convencido de que os outros são inferiores, porque não conseguiram roubar como ele. Depois quem tentar imitá-lo não o deixará, porque se sente inseguro que outro qualquer obtenha o mesmo poder que ele.
Ela fortalece:
- O rico vai explorando o pobre. Descobre tardiamente que a sua casa foi incendiada porque a revolta chegou. Sem dúvida que o Iraque é-nos disto revelador. Os ricos enriquecem pelo prazer da maldade. Gostam de olhar do alto do seu pedestal e dizerem: «somos ricos!» Enquanto viver não haverá outro como eu.»
Ele alerta:
- O que vale é ilegalizar o que é legal. Num país sem lei para viver, só é possível através da ilegalidade. Quem quiser investir ou trabalhar com honestidade tem que fugir, para dar o lugar aos modernos samurais da espada mortífera. Intelectuais e honestos que restem não terão muito tempo de vida, porque as novas hordas bárbaras destroem tudo por onde passam. 
Ela está mais que convencida:
- Os feiticeiros estão a dominar o mundo. Transformaram a espécie humana numa civilização de serpentes. Tem pedras de fogo espalhadas por todo o lado. Funcionam como as células da Al-Qaeda, não se sabe quem é o chefe.
Ele protesta:
- E eu que acreditei em Deus e nas pessoas. Hoje verifico o quanto estava errado.
Ela começa a levantar-se devagar, sente-se apreensiva:
- Não sei por quanto tempo suportaremos este lar.
- Majestade agora sem penas, lar tem origem romana, nos deuses dos lares romanos. Um feitiço que continua.
Ela caminha lentamente para a cozinha e confessa-lhe: 
- Olha, no prédio já pagaram metade da dívida. Fizeram contribuição. A Ma Yuan faz a cobrança... vou arranjar qualquer coisa para comermos.
na cozinha quase lhe grita:
- O patrão do prédio faz parte de uma célula de feiticeiros!
Faltava descobrir os três elementos que completavam a célula. As suspeitas iam para as empresas de água, electricidade e fiscalização. E dirigiram-se a cada uma delas. Ela levava a pedra-verde. Foi quase impossível falar com os directores. Ora porque tinham milhões de documentos para assinarem, ora porque reuniam de minuto a minuto, ou que estavam cansados porque falavam muito. Mas Kakulu-Ka-Humbi sabia muito bem como os dominar. A indumentária era uma derrota para quem a olhasse. Apenas uma blusa preta transparente, onde os seios nus provocavam qualquer olhar mesmo que distraído. Uma saia branca também transparente que deixava para a posteridade a intimidade da lingerie. Quando lhe perguntavam quem deviam anunciar respondia:
- Huang He, da empresa de construção chinesa Zhengzhou.
E assim penetrou e foi recebida como uma rainha nos feudos mais fortificados e enfeitiçados.
E depois em casa os detectives balanceavam o trabalho. Ela desvenda-lhe os feiticeiros:
- São eles as serpentes que faltavam. Cada célula é composta por quatro. Neste caso a cobra-capelo dirige as águas, a naja, a electricidade, a mamba dirige o prédio, e o King cobra, o chefe da célula, a fiscalização. Para acabar com eles temos que descobrir onde está escondida a pedra de fogo.
Ele mostra-lhe um e-mail recém-chegado. Ela lê-o:
- Cuidado saborosa! Se não parares, vamos apanhar-te e depois sentirás as delícias do teu sessenta-e-nove. No fim serás engolida durante esse acto de prazer.
Ele reage:
- Não sou, nunca serei um vencido.
Ela não denota preocupação:
- São apenas ameaças para nos meterem medo. Acho que não nos devemos preocupar.

Imagem: João Stattmiller