terça-feira, 7 de maio de 2013

O empresário luso-angolano (05)




Quase tão estúpidas como as declarações de banqueiros, empresários, políticos e responsáveis pelo sistema financeiro, que durante meses e meses disseram que a crise tinha acabado, são as declarações de todos os que olham para esta crise como o fim do liberalismo, do capitalismo, da economia de mercado e não sei mais quantos conceitos que são coisas diferentes. Esta crise é obviamente surpreendente e, mais importante, preocupante. E decorre de erros básicos e gravíssimos: risco excessivo, usura, ganância, desregulação, facilitismo, crença no progresso eterno. Custa admitir que instituições centenárias tenham cometido erros tão primários na concessão de crédito e que os governos e entidades de supervisão não tenham percebido o que se estava a passar nas suas barbas. É neste campo que se devem tirar quase todas as ilações. Um pequeno exemplo: é absurdo que só agora se questione o ‘short selling’. Essa prática nunca devia ter existido. Qualquer pessoa sabe que vender uma coisa que não se tem é muito perigoso… e quando isso dá muito dinheiro ainda é mais perigoso porque a tentação de eternizar a prática é “justificada”. In Ricardo Costa, Director geral adjunto da SIC no Diário Económico

Acompanhei o Vieira até um restaurante, onde já lá se encontrava o Director que se deliciava com uma boa dose de gambas grelhadas. Sentámo-nos. Vieira com o rosto muito sério sonda-me:
- Vou-te fazer uma surpresa.
Chama o empregado. Este aproxima-se e Vieira encosta os lábios no seu ouvido. Disse-lhe qualquer coisa que não consegui ouvir. Depois volta-se para mim:
- Quando precisarmos de dinheiro basta falarmos com o Director, ele vai ao banco, pede dinheiro sem assinar nenhum documento. O banco é como se fosse dele.
O Director esforçou-se e saiu-lhe um leve sorriso de raposa que se apagou quando enfiou uma gamba na boca. Vieira vira o disco.
- É necessário que saibas que temos uma empresa de prestação de serviços de contabilidade, gestão, consultoria… essa tralha toda, entendes?!
- Claro.
- Amanhã apresentar-te-ei aos serviços de contabilidade, se é que aquilo se pode chamar de contabilidade, dos Caminhos de Luanda. Não comentes com ninguém que o Director é meu sócio. E arranca com aquela merda de qualquer maneira.
- O Director é teu sócio? Mas isso mais tarde não vos trará problemas?
- Esta merda está toda assim… o que é que tu queres?! Qualquer director de uma empresa estatal tem empresas criadas com o nome da esposa, filha ou filho, etc. Porque é que nós não podemos fazer o mesmo? São todos uma cambada de burros, é o que são. Só para te lembrar que não estamos na Europa, estamos na África… aqui não há regras. É o cada um que se safe. Vou-te lembrar as tuas condições monetárias. O teu vencimento será de cinco mil dólares mensais, mais dez mil kwanzas para as despesas locais. Foi isso que acertámos em Lisboa, certo?
- Sim… Vieira necessito de enviar um e-mail para a minha esposa, a informar-lhe que cheguei bem, e que tudo corre normalmente.
- Escreve o texto e entrega-o ao Director.
O empregado chega. Poisa dois pratos na mesa. Um com gambas grelhadas, e outro com… caracoletas. Vieira ri com satisfação:
- Pensas que é só em Portugal que isto existe? O que é que queres beber?
- Dão Meia Encosta.
- Ah..! Já me esquecia… és um apreciador ferrenho dos vinhos do Dão. Tens muito bom gosto, eu também aprecio.
- Vieira, os vinhos do Dão são recomendados na convalescença de doentes.
- Evidentemente que sei. Um puro néctar desses… podes acreditar que até recupera um coração.
Depois de quase uma garrafa despejada, Vieira confidencia-me:
- Vou-te explicar como é que esta merda funciona. Tenho duas empresas em Portugal, outras duas na Namíbia. Aqui tenho seis e ainda vou constituir mais. Quando alguém necessita de importar alguma coisa da Namíbia ou de Portugal, utilizo uma das empresas em Angola. A maioria delas são o que se pode chamar de empresas fantasmas. Depois sobrefacturo as coisas que aqui chegam. Invento despesas numa das outras empresas para manter um lucro fictício… invento documentos para fugir ao fisco. Como são burros nunca detectam nada. As contas bancárias em divisas não aparecem na contabilidade. Eles não sabem de nada. Estás a ver os lucros que geramos? É como se fosse uma mina de diamantes.
- Claro, claro, mas…
- Os directores das estatais quando precisam de efectuar compras para a sua empresa aumentam substancialmente o seu preço, que é creditado numa conta no exterior. Como é que pensas que eles compram as casas em Portugal? Estão sempre a falar mal dos portugueses, mas é só para disfarçar, para angolano ver. Quando a vida lhes correr mal em Angola fogem para Portugal, e lá passarão a reforma. É tão simples como isso. Olha aqui! Exclama enquanto ao mesmo tempo retira um documento da sua pasta.
07.09.2008 - 23h19 - Pedro227, Amadora. Público última hora
Luís de Almada, o senhor que tem tido comentários relativamente à Geórgia dignos de uma pessoa esclarecida e culturalmente a um nível superior, acredita sinceramente que estas eleições angolanas foram livres, justas e democráticas? Não há democracia nenhuma em que algum partido ganhe com um avanço de mais de 70% sobre o segundo e é óbvio que nas presidenciais do próximo ano se irão repetir estes resultados. Estas eleições foram uma farsa mas os observadores europeus vão validar os resultados porque o Sr. Eduardo dos Santos, apesar de tudo, não incomoda os europeus como acontece com o Sr.Mugabe. No entanto, Angola deu um passo em frente: passou de um regime de ditadura para uma 'democracia formal' - as pessoas podem votar mas 'não conta para nada' porque ganham sempre os mesmos. Este regime vigorava no Iraque até à intervenção americana e vigora actualmente em Moçambique e no Zimbabué. Tenhamos esperança... um dia a verdadeira democracia há-de chegar a Angola. Infelizmente, talvez nenhum de nós ainda esteja cá para ver....
De repente lembrei-me da conversa que mantive com Malcolm X. Como é possível acabar com a criminalidade num país assim? Pelo contrário, ela subirá de tal modo que será impossível estancá-la. Vieira chama-me a atenção:
- Bom vinho… vou mandar vir mais duas garrafas… ainda bebes mais?
Assenti com um leve agitar de cabeça. Vieira agita-se, desperta-me a atenção para alguém que se aproxima. Com olhos gulosos, cheios de desejo sensual, desgarra-se.
- Porra! Mas que negra tão bonita. Não me importava nada de passar toda a noite com ela na cama.
Ela acompanha-se de um jovem. Dirigem-se para a nossa mesa, parecem conhecidos. Vieira cumprimenta-os. Depois convida-os para se sentarem, crava os olhos nela e interpela-a:
- Ó Princesa das mil e uma noites, revela-me o teu segredo de uma só noite.
- Não sei... só o senhor é que pode saber.
Vieira insiste:
- Durante mil e uma noites?!
- Ai é?! Naturalmente… nunca ouvi falar disso.
Acercaram-se mais alguns jovens que agitaram as mãos na direcção da nossa mesa. Os nossos convidados desculparam-se, saíram e juntaram-se aos recém chegados. Nota-se que Vieira está com uma grande vontade de galhofar, não se contém.
- São muito bonitas, mas basta abrirem a boca estragam tudo. Seria melhor que ficassem sempre caladas. Bom… por hoje chega. Vou-te levar a casa. Depois vou-te arranjar um carro para uso pessoal. Se amanhã não aparecer irá o motorista buscar-te. Fica pronto às nove da manhã.
Veio o motorista. Os Caminhos de Luanda ficavam próximo do Porto de Luanda. Ainda mantinha a estrutura colonial que necessitava urgentemente de beneficiação. Por todo o local notava-se a improvisação. Vieira aguarda-me à entrada dos serviços administrativos. Está acompanhado de um casal. Vieira dá-lhes uma lição de economia elementar. Acaba de falar sobre o desenvolvimento económico da Alemanha, graças à organização dos seus caminhos-de-ferro. O homem ausenta-se, talvez feliz pela minha chegada. Talvez cansado de escutar o Vieira, que me apresenta à senhora:
- Este é o técnico de contas que vai recuperar a vossa contabilidade. Agora entendam-se... desejo-vos bom trabalho.
A senhora era a chefe do departamento financeiro. Levou-me até ao seu gabinete. Convidou-me a sentar. Rondava os quarenta anos e parecia simpática. Ainda se notava que quando jovem devia ser muito bonita, porque conseguia conservar parte substancial dessa beleza. Vestia uma saia um tanto ousada e muito justa. Quando se sentava cruzava as pernas e mostrava umas coxas bem torneadas, sensuais. Tudo no seu gabinete era improvisado. Não tinha computador, apenas uma vulgar calculadora. Começa, improvisa, introduz.
- O maior problema aqui é a luz. Está constantemente a falhar, e quando vem é muito fraca.
- Não conseguem resolver isso?
- Resolver?! Como?! Os cabos da rua precisam de ser substituídos.
- Então vai ser difícil trabalhar… como é que faremos?
O seu rosto desalenta-se, esforça-se e responde.
- É pá… não sei!
- Já falou com o Director?
- Ele sabe disso há muito tempo. Não liga… tenho tantos assuntos para resolver, ele nunca aparece. De vez em quando vou a casa dele, mas nem mesmo assim.
De repente sorriu. Pareceu-me que queria dar uma sonora gargalhada mas conteve-se:
- A melhor maneira de o apanhar é no restaurante. Passa lá a maior parte do tempo.