sexta-feira, 21 de junho de 2013

03 A 10 de Junho de 2013. Diário da cidade dos leilões de escravos





03 de Junho
Hoje entregaram-me um panfleto técnico numa folha formato A4 e outro panfleto em formato A5 com quatro páginas, para aderir – aderir não, que fique bem claro, é imposição sem alternativa – ao sistema pré-pago da energia eléctrica da EDEL.
Sinto o mesmo, arrepio-me quando penso num neto de quatorze meses. Isto já não tem cura, são milhares e milhares de jovens desempregados, e ainda continuam a partir casas para negociatas - forças policiais a baterem nas mulheres com crianças, incluindo estas crianças que também levam pancada, claro - portanto mais desempregados, mais miseráveis... isto virou um campo de concentração onde os prisioneiros matam para sobreviverem, matam os inocentes porque os culpados ainda não começaram a apanhar, mas também lhes vai atingir, nestas coisas ninguém escapa. Isto está terra de ninguém. E não sei como é que os estrangeiros sobreviverão. ESTE PAÍS ESTÁ DIRIGIDO POR UMA TRÓICA?!
04 de Junho
A partir de hoje - e não sei por mais quantos dias - fiquei sem Internet porque não há dinheiro. Quem não pertence ao círculo dos intelectuais do petróleo, não tem direito a salário. Não sei se hoje instalarão o contador pré-pago da energia eléctrica. Vai ser porreiro vai, vamos ficar também sem energia eléctrica. Até parece que Angola está na bancarrota, hum, não me admiro nada, uma vez que o dinheiro das receitas petrolíferas cai todo num círculo muito restrito de pessoas.
10.32 horas. Hoje a manhã está nublada e húmida, palustre, ontem à mesma hora estava um bom sol que nos atraía para o seu aconchegante leito. Fui espairecer a mente na varanda, a observar o trânsito na rua. Não havia vento, senti o cheiro intenso do fumo dos escapes dos carros, que coisa mais horrível não se poder respirar, está tudo envenenado. Fugi para dentro, assustado. E lembrei-me que se acontecer mais um apagão - a qualquer momento é o prato do dia – com os geradores ligados é, pode-se dizer, morte certa.
O cliente vai sentado, sereno no táxi Hiace. O cobrador – não se sabe o que aconteceu – insulta-o sem parar, chato, não larga o outro, o motorista coadjuva-o, e assim prosseguem, mas o cliente nem uma nem duas, sempre num silêncio impressionante, até ao momento em que o cliente chega ao seu destino, no São Paulo, levanta-se, aproxima-se da porta de saída e o cobrador e o motorista continuam como cães de caça que não largam a presa. E calmamente o cliente mete a mão num bolso do casaco, retira uma pistola e enfia o cano na boca do cobrador, dizendo-lhe: «Cala essa boca, senão?!» O motorista passa à defesa: «Tem toda a razão, esses miúdos insultam à toa, são muito mal-educados.»
Aida sobre a invasão portuguesa e a situação económica de Portugal que outra vez está na bancarrota. É hilariante a afirmação dos portugueses que dizem que vêm para Angola para ajudarem os angolanos. Bom, o marido conseguiu um contrato de trabalho, a esposa ao abrigo do contrato vem também para Angola. Lá também estava desempregada, era funcionária da administração civil, e em Angola tenta a todo o custo um lugar na função pública, quer dizer, alguém angolano ficará desempregado. Depois vêm os filhos, mais familiares, amigos. Se multiplicarmos isto por cem ou duzentos mil, facilmente veremos que Luanda e Angola ficarão em poder dos portugueses – e dos chineses, os portugueses tomam conta de tudo o que é emprego, em especial nas áreas de serviços, mas já estão em todas, e lá está outra vez Angola colonizada, o que neste momento já é bastante periclitante – é que qualquer profissão lhes serve para emigrarem para Angola, e os angolanos passam para a criminalidade. Aliás, convém ressaltar, que a criminalidade e a violência em Angola estão ligadas à espoliação dos empregos, vale lembrar: desempregar por todos os meios possíveis os angolanos para empregar estrangeiros. E todos os dias oiço o mesmo refrão: «Na empresa tal já chegaram mais portugueses.» O que significa mais assaltos e mais “tiroteios”.
05 de Junho
Comentário de um mwangolé: Se ao menos os portugueses viessem para aqui para trabalhar, mas não, eles só vêm para aqui fazer confusão.
06 de Junho
08.30 horas. O ambiente está muito tenso. Ouve-se algazarra na rua, foco o meu radar nessa direcção e vejo pessoas amontoadas como estátuas. Olho e vejo um jovem aí de uns vinte anos a gritar: «José Eduardo dos Santos vais cair!» «José Eduardo dos Santos vais cair!» De repente o jovem muda de direcção e investe contra dois chineses que andam a montar os contadores da energia eléctrica, o pré-pago - até para isto, um trabalho tão simples, tão infantil, são necessários chineses, porque os angolanos são preguiçosos, não gostam de trabalhar – e tenta socar um deles, mas os chineses fogem. Ninguém se meteu, ninguém acudiu os chineses.
Amor de Fátima no Facebook: Tanta coisa má a acontecer pela nossa cidade...pelo país, que as vezes só dá para respirar fundo e esperar pelo Socorro Divino. Olhem, mas no meio desses kizangos todos aconteceu uma cena incrivel na cidade do Kilamba. Predio D24 uma criança deixada sozinha em casa, aparentemente de castigo, por ter feito qualquer coisa que não se sabe o quê, foi resgatada pela equipa de bombeiros, as 13 horas de ontem, que chegou depois do alerta da vizinhança que se compadeceu com os gritos da menina, que aparentava ter 5 anitos. A menina tirada da varanda de casa, desceu a escada abraçada a um dos bombeiros, enquanto a vizinha aplaudia o sucesso da missão.
12.39 Horas. Acabo de receber a informação, ainda não confirmada, de que a Polícia faz um controlo cerrado aos taxistas dos Hiace. Manda-os parar e obriga os passageiros a saírem para identificação. Dizem que anda na caça dos bandidos que mataram os três polícias.
07 de Junho
Uma amiga da minha esposa acaba de nos contar o seguinte: uma prima dela que trabalha num hotel da Ilha de Luanda invadido por portugueses, quando elas, as negras mwangolés servem às mesas, os portugueses ofendem-nas assim: «Vocês é que ficam a servir às mesas?! metem nojo!» Evidentemente que se trata do tal estratagema para que as escravas mwangolés abandonem o trabalho e eles, os tugas, mandem vir as suas esposas para ocuparem os postos de trabalho. Hum! Hum! Isto está “porero”! Pois, é chauvinismo, é história inventada, como se fosse possível inventar coisas destas de tão aberrantes que são.
“Eu até acredito, no Lubango, um português apalpou a bunda de uma empregada de mesa, ela reagiu e muito bem, deu-lhe um estalo... o patrão chamou-a e despediu-a, isto aconteceu a 2 anos atrás, eu assisti.” In Ermelinda Freitas. Facebook
08 de Junho
Alerta sobre a grande invasão portuguesa, especialmente depois do discurso do nosso outro guia imortal. Os portugueses invadem-nos assustadoramente, ficaremos sem nada, apenas como escravos debaixo dos seus chicotes.
Situação extremamente gravíssima. Na tal empresa de informática que tenho falado – e depois dos pronunciamentos do nosso benfeitor – acabo de receber a informação de que mais portugueses chegaram nessa empresa. Já lá estavam dois ou três e chegaram também mais dois ou três. A empresa não tem capacidade para absorver mais trabalhadores, então, o que há a fazer? Despedir os mwangolés, é claro. De notar, é muito caricato, que eles não fazem nada, porque não há nada para fazer. Apenas ficam sentados a darem ordens, sem noção do que fazem, apresentam-se como técnicos mas na realidade não o são - são isso sim -espantalhos que alimentam a grande hecatombe que se aproxima, uma grande desgraça.
09 de Junho
Porque é que estão sempre a partir paredes?
10 de Junho
Resposta da Lwena a uma vizinha que trabalha nos petróleos: «Os sacos do lixo custam mil kwanzas e estão perfumados?! Eu?! Isso é só para os ricos!