domingo, 9 de junho de 2013

30 de Maio A 02 de Junho de 2013. Diário da cidade dos leilões de escravos




30 de Maio
Essa feitiçaria de chama sem luz lá se foi outra vez, para onde ninguém sabe, eram 22.06 horas e veio-nos às 22.39 horas.
E a tragédia nacional adensa-se, mais um país que não demorará muito a entrar nos escombros da história. Sem energia eléctrica a aposta na miséria assegura-se violenta, tenebrosa, tumultuosa.
E por cá, manos e manas, o nosso Governo sempre atento, já descobriu como resolver o problema da delinquência juvenil. Afinal é muito fácil, é só desempregar os jovens.
“ E quando me tocam na família, viro bicho-do-mato.”
A herança de um regime irresponsável: o pai carregava água para o quarto andar do prédio, o filho também e o neto já aprende os caminhos da escravidão.
No prédio ao lado houve-se o habitual barulho do partir paredes. Onde a idiotice do petróleo manda, as paredes nunca se erguem porque onde há desordem, há sempre falsas paredes.
Quem oprime, coloniza, nos apelida de ofensivo, e nomeia chauvinista ao colonizado, pois é uma palavra inventada para reprimir os espoliados, os escravos. É preciso denunciar isto: então os estrangeiros espoliam as terras, os empregos, impõem-nos culturas sociais de escravidão, etc., aos mwangolés e ainda com escárnio lhes dizem que são preguiçosos?! E porque é que as igrejas não denunciam isto? Porque também estão coniventes, recebem os elevados dízimos dos opressores. E que não, que os estrangeiros não têm culpa nenhuma disto. Pois, no Julgamento de Nuremberga, logo depois do término da Segunda Guerra Mundial, os nazis também diziam o mesmo. Que apenas cumpriam ordens do chefe, Hitler.
Das 04.00 às 06.00 ficámos outra vez sem luz, ou energia eléctrica, apagão, enfim, qualquer serve.
31 de Maio
Outra vez de castigo, roubaram-nos a luz às 08.57 e ligaram-na às 09.42 horas. Depois às 16.03 outra vez, até às 16.37 horas.
Outra acabada de chegar: o português foi de férias para Portugal e não assinou a documentação que permite aos trabalhadores receberem os seus vencimentos através do banco. Só regressará lá para o meio do mês. Irresponsabilidade ou malvadez? Parece mentira mas é pura verdade. Mas o que é que estes tipos estão aqui a fazer? P*** que o pariu.
Aos vários novos amigos que continuam a pedir-me amizade, recordo-lhes que o Facebook ordenou-me numa execução extra-judicial, catorze dias de prisão, de preso incomunicável, na prisão solitária, como se eu fosse um perigoso criminoso.
01 de Junho
Quem submete pessoas à escravatura, arrisca-se a qualquer momento a uma revolta dos escravos, e em consequência à perda da sua vida.
Pelo menos lembrem-se de Agostinho Neto. Isto não lhes é suficiente? Se não for, então preferem, querem mesmo a hecatombe? Digo-lhes, garanto-lhes que isto não dá mais para aguentar. Já ultrapassámos o limite da miséria, e isto é muito perigoso.
“Uma das consequências da falta de liberdade é o subdesenvolvimento económico, científico, técnico e cultural. Os países explorados tornaram-se economicamente débeis e em muitos casos, lançados numa situação caótica que os obriga a retomar ou a continuar a sua dependência dos outros países mais desenvolvidos. Libertar é transformar pela violência uma ordem social estabelecida por minorias. E por isso mesmo libertar uma sociedade, é fazer a revolução. É preciso libertar o Homem não só do esclavagismo colonial, mas ainda de qualquer forma de dominação social no interior de cada país. Nenhuma classe deve poder explorar outra.” In Agostinho Neto. 20 De Janeiro de 1978. Discurso na Universidade de Ibadan, Nigéria.
Em guerra de elefantes quem paga é o capim, diz-se. No nosso descaso, os elefantes são os escravos e o capim os seus senhores.
Hoje parece que não teremos almoço, não sabemos o que comeremos porque não temos nada para comer. Mas vejo muita riqueza e muita, muita pobreza. Tenho dinheiro para receber de três trabalhos mas até agora nenhum caiu. No resto da família também ainda ninguém recebeu, dependem dos portugueses. Pois, é chauvinismo.
02 de Junho
Que bela receita sim senhor: qualquer problema que haja é a Polícia que resolve. Criticar pela falta de água, energia eléctrica, desemprego, Angola entregue ao desbarato a estrangeiros, já está total e completa em poder deles, miséria, escravidão, futuro negro, hediondo, não é o Governo que resolve, é a Polícia.
E as coisas por aqui, as diferenças políticas, resolvem-se do modo mais fácil, carregar no gatilho, a coisa que qualquer um sabe fazer, a coisa mais fácil que existe no mundo… resolver tudo a tiro.
E a Constituição, a democracia e as liberdades nela consagradas, esfumaram-se, é que nem rastos lhe sobram. Porque em Angola matam-se pessoas com extraordinária facilidade. De facto o que impera, o que ordena é a democracia da monstruosidade.
Baseado num facto verídico.
Os mais velhos e mais velhas daquele tempo da Ilha da Cazanga, em Luanda, acreditados e sacramentados pelos mais puros e nobres juramentos do que está devotado nos seguidores de nosso Senhor Jesus Cristo, que ele virá e nos libertará de tudo o que é maldade, e que só os puros de coração no mundo reinarão, e quem nisso não acreditar será para julgar e condenar na fogueira do Inferno. Estas almas foram evangelizadas de acordo com os mais nobres desejos religiosos da Santa Mãe Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, a Igreja Católica, e eles não devem odiar, mesmo na fome e na tremenda miséria que nos assolam, não ousam insultar o santo nome de Jesus Cristo, e em Deus nem pensar, perfeitos escravos para sempre obedientes, nunca transgridem, porque: «Deus vai-me castigar e jamais me receberá no céu, que Deus me perdoe, não posso pecar.» E assim se construíram, destruíram civilizações, se evangelizaram povos na escravidão do Senhor, Dele não, de muitos senhores terrenos que favorecidos por isso se mantêm no poder, porque entre religião e política não existe nenhuma diferença, porque quando chega a hora da verdade todos dizem que obedeciam sob a vontade de Deus, e daqui as diatribes que os povos conhecem… chicote e torturas de alicate.
É neste ambiente democrático que um pequeno grupo de ferrenhos idosos cristãos da Igreja vaticana católica, os imaculados, decidem quebrar os laços que os uniam ao Todo-poderoso e nisto quebram os votos do silêncio e passam ao barulho da revolta: Um mais-velho fala como se fitasse uma cruz no céu: «Está tudo em poder dos estrangeiros.» Outro mais-velho corrobora-o: «Sim, até as fábricas, abocanharam tudo, é tudo deles.» Ainda outro mais-velho, cansado de tanta escravidão e de cruzes sem céu, reforça: «Daqui a pouco nem nos podemos mexer, pois se até os passeios das ruas também já são deles.» E ainda outro mais-velho, como a espada do Senhor nunca mais vem para fazer justiça, faz os sinos dobrarem: «Temos que acabar com isto, quando muitos corpos de estrangeiros aparecerem por aí espalhados nas ruas, então será feita justiça e a escravidão acabará e Angola voltará a ser nossa.» Uma mais-velha, fanática das coisas do Senhor, nunca permitiu nem aceitou que se desejasse mal ao próximo, fosse ele quem fosse, fala, prevê o que irá acontecer: «Sim, é verdade, os estrangeiros dominam-nos, daqui a pouco até para irmos cagar temos que lhes pedir autorização, temos que revoltar-nos, acabar com isto, muitos de nós morrerão, mas temos que correr com os estrangeiros da nossa terra, ANGOLA É NOSSA! Esses que estão aí no poder serão todos queimados. Tenho pena dos meus netos que sofrerão, morrerão, mas temos que libertar a nossa terra dos estrangeiros. Sim, é verdade, está tudo em poder deles, a nossa vida está outra vez escrava. Mas porque é que eles fogem dos países deles e nos vem para aqui escravizar? Em todo o lado só se vêem estrangeiros, e os angolanos estão aonde meu Deus? Já acabaram com eles? Angola é nossa, não, já não é não, está na hora de lutar e a revolta começar! Aqui fica mais este alerta, que claro não será tido em conta… até à desgraça final.
E a nossa jovem do carro vermelho, outra vez mais vinte mil kwanzas para uma nova pintura, tudo maravilhoso, o carro dela todo bonito, estacionou-o, de manhã ao ir para o trabalho lá está outra vez… a pintura estragada, depravada, as mesas letras pintadas: «PUTA.» Ela jurou que vai arranjar uma pistola para matar o gajo.
Amanhã mais um dia de miséria nos espera. Os senhores dos chicotes estão por todo o lado, no rapto para as empresas (?) dos chineses que necessitam de mão-de-obra escrava.