quinta-feira, 6 de junho de 2013

O Cavaleiro Mwangolé e Lady Marli na Demanda do Santo Graal (39)




É, realmente, um grande aborrecimento o facto da sabedoria só poder ser adquirida através de trabalho árduo. William Sommerset Maugham (1874-1965)

Baladas de Lady Marli
Parece, hoje, ontem, mas oito anos já se esgotaram
Quando as folha das árvores caem, as árvores morrem uma vez por ano e ressuscitam o seu intenso verde da vida, e as flores são pintadas, imortalizadas nos quadros de mortais pintores, mas nas suas obras imortais. Nós não, como não temos folhas para caírem e depois se renovarem, morremos, caímos e nunca mais nos levantamos, em qualquer cova nos abandonamos.
E Ulisses na eternidade do mar, navega sem Penélope encontrar. O som de um alaúde ouve-se ao longe, parece o mar acalmar, e de Penélope sempre se enamorar.
Na terra deitado, tumulado, dos humanos afastado, já não recordado, de tanto sofrimento, torturado.
Tantos sonhos que tive em vão, queria realizá-los mas enviavam-me para o paredão, sempre no receio do: me fuzilarão?
Vejo uma bela paisagem, o mar carregado de luz iluminando a praia, e nela uma voz melodiosa nas areias guardada, quinhentos, seiscentos, setecentos anos depois. E a voz canta, transplanta as danças e os cantares da Idade Média. É verdade sim, qualquer um de nós é uma máquina do tempo. E de repente um cortejo musical fez-se presente, e a beleza da Idade Média renasceu, comovente. Sim, os sons mais maravilhosos são desse tempo, tanta beleza à espera da descoberta. O Santo Graal é a música da Idade Média.
E mais ao longe em terra, vejo um campo carregado, cercado de jasmins, o jasmim-dos-poetas atrai, sem ele não existiriam poetas. Um riacho faz-se presente, não se deixa ausente, o verde comanda a vida, e nós não somos verdes por isso perdemo-la. E onde não há verde, há norte.
Tudo nasce e morre, nós também, mas enquanto vivos devemos mostrar o caminho da eternidade, da solenidade do amor. Mas há sempre os que se consideram imortais, esses são a desgraça das nossas vidas.
Viver é uma efémera dança, a qual desejamos que nunca mais acabe. Viver é resistir, nos laços do amor sucumbir.

Cinco anos que o tempo já levou
Depois da morte fica o sonho que nos deixaste, que nós nos esforçamos por te vangloriar, nas nossas obras poéticas e em prosa te eternizar, para que já não estando tu viva, a tua alma se delicie com as maravilhosas obras dos teus filhos. Um filho que se preze fará tudo para merecer a sua mãe, e dizer-lhe no seu íntimo: «Mãe, não foi em vão que iniciei a minha vida na tua barriga, tão carregada, de amor tão avantajada».
Os seres humanos vivem gelados e não conseguem nenhum degelo. Vivem apenas uns ténues momentos de amor e logo depois regressam de imediato ao que mais bem sabem fazer, a selvajaria. Esses para quem o amor é apenas um acto carnal, um desejo sexual, não são humanos, nasceram para odiar o amor.
Vejo um castelo, e nele uma donzela de beleza celestial, pura como a virgindade dos tempos, que lá reside há muitos milhares de anos, sim, ela é imortal, porque nunca foi tocada pelo amor, aguarda-o, que um príncipe, já tantos, tantos, e tantos se apaixonaram, fingiram que a amaram, e ela vive nas alturas das ameias acasteladas. Claro que toda a gente jura que esse castelo está amaldiçoado. E eis que o Cavaleiro Mwangolé sem muito esforço rompe as protecções do castelo e enlaça a sua donzela que há muitos milénios o espera. E a princesa, sim era uma princesa, rapidamente, finalmente compreendeu que o seu amor chegou, a libertou, e a imortalidade dela findou, pois o amor é muito exigente, e quem o quiser amar, às suas regras tem que se escravizar. E ao se libertar, Lady Marli - sim era ela – dos milénios da amargura da eternidade do desamor, sentiu-se intolerantemente feliz, não sabiam? O amor é o sentimento mais intolerante que existe - a sua tortura terminou, pois o amor lhe chegou e viveria a quantidade de anos que o amor lhe achasse necessário, mas depois tudo abarcaria, a morte levaria. O amor é a coisa mais maravilhosa que existe, pois só ele nos permite atiçar a chama da sua fogueira e sem querer-mos, sem sabermos, inexplicavelmente dizer: amo-te!  

E Marli embevecida trovou para o seu cavaleiro e para o mundo inteiro:

Sempre mais perto do teu alaúde
está o desespero do nosso amor
Eternamente será o mais difícil
Cavalgar é necessário
num grande esforço
seguir e do castelo te libertar
E seguir-te, caminhar, te amar
te esverdear

E arrebatar os jasmins que no caminho
me enamorar
e por eles te pelejar
E na minha espada os embainhar
E esporear a minha montada
e do castelo te libertar
me assenhorear

Este mundo é um castelo sempre
fechado
Onde dois seres lutam por vê-lo
libertado
Só o amor nos concede a vitória da
vida
Ó glória!
Nunca o amor foi, jamais será
derrotado
É isso que para sempre está
pintado
no Taj Mahal
eternizado

O meu nome ninguém sabe
nem eu
O meu nome é, nunca saberei!
Olho para o meu relógio
perdido no tempo
E os ponteiros movem-se sempre
na mesma direcção
Qual, nunca saberei
E isso que importa?
Porque nos movemos todos
Nos ponteiros dos relógios
das ditaduras
E o meu futuro é a lei da violência
Da bala, do tiro, debalde
Quando olho pela minha janela
(já não vejo o sol, espoliaram-mo)
Afinal a democracia é isso?
Sem direito a casa, a nadar apenas
no luar
Quando ele se vê, nada mais tenho
Para mitigar
Sempre com a fome a me
rodear
Atacarem-nos como terroristas?
E dizem que os outros terroristas
nos atacam?
Com tantos terroristas que nos governam?
Sim! Este mundo é do terrorismo global
É nacional

Só mesmo um governo que não sabe o que é o amor
Aposta na mendicidade das ruas
Sim! Democracia é isso!
Eleitores que votaram na estabilidade, na mudança
Perderam a uma vida melhor, a esperança
Afinal é muito, muito pior
Já sei qual é o meu nome
PEDINTE!

Olho para a parede, sim, sou mais um emparedado
Da democracia, destabilizado
Olho, olho, torno a olhar
Mas, só vejo paredes para me
aprisionar
E forças de segurança bem armadas
Para lutarem contra quem?
Contra os pedintes!
E os terroristas avançam, implacáveis
Pragas de formigas, gafanhotos, piranhas

E a aposta destes governos é acabar com o amor
Substitui-lo pelo terror
a corrupção fortalece a agonia
da democracia
e onde não há amor
há terrorismo, terror