segunda-feira, 17 de junho de 2013

O empresário luso-angolano (10)




Chamou uma jovem empregada que chegou com um enorme sorriso. Trajava uma mini-saia muito curta. Quando se baixava via-se nitidamente o traseiro que parecia não ter nada que o cobrisse. De igual modo usava um decote que ao inclinar-se nas mesas, que eram muito baixas, deixava quase a nu os seios. Vieira notou o meu olhar para esse manjar de carnes vivas, e explicou-me:
- As nossas empregadas vestem-se assim para atraírem os clientes. Além disso também têm que ter uma beleza natural. Mas o que é que tu queres?! Neste negócio é mesmo assim! Na realidade as jovens que seguem este tipo de actividade são consideradas prostitutas, mas eu acho o contrário. Elas foram admitidas depois de rigorosas investigações que fizemos sobre a sua vida. Posso assegurar-te que são exemplares, e não é pela indumentária que podemos julgar uma mulher. Nas praias com aquelas ultras minúsculas tangas que agora se usam…

(PSYCO. Estava Deus a criar o mundo... - Para este país eu deixo os terramotos, para este outro deixarei os vulcões, para aquele ali vou deixar os maremotos... E assim foi sucessivamente com todos os países, menos ANGOLA. Até que um anjo que estava ao seu lado perguntou: - Senhor, então e Angola? Não vai ter nada de mal? - Claro que vai! Espera até veres o PRESIDENTE que lá vou pôr!
In Angonotícias)

- São as reminiscências…
- Mas o que é que tu queres?! Olha, assim que obtiver o dinheiro necessário acabo com os serviços de segurança. Vou pôr tudo na rua. Não estou para aturar estes gajos. Vou ficar mais algum tempo com os serviços do banco, que me dão uma boa maquia. O Director diz que se vai embora definitivamente para Portugal.
- Vieira, para a colónia de férias…
- Ah, ah! Ele é que conseguiu através das suas influências todos os clientes com quem trabalhamos. Na realidade é mais um revolucionário de merda. Andou a fingir para angariar uma grande fortuna. Mas o que é que tu queres?! Aqui não existem revolucionários, só gatunos. O dinheiro para o povo é desviado, vai para contas bancárias deles no estrangeiro.
- Agora entendo porque é que o gatuno está sempre com medo de ser roubado.
Notei que Vieira perturbou-se com a minha afirmação, que de certo modo era enigmática. Durante alguns momentos os seus olhos ficaram estáticos. Aproveitei e perguntei-lhe:
- Já transferiste o meu dinheiro?
- Ainda bem que me lembraste. Na segunda-feira vou mandar o Heitor tratar disso sem falta. Podes estar tranquilo. Pode não haver dinheiro, mas para ti nunca faltará. Mas o que é que tu queres?! Porra! Vê só isto: O libanês, o indiano e outros gajos chegam aqui, facturam um milhão de dólares e vão-se embora. Não constroem nada, não deixam nada. Até fazem lavagem de dinheiro. Depois vem outros, que são seus amigos, e fazem a mesma coisa. E sempre assim sucessivamente. Nos últimos anos andei a dormir, agora acordei. Vou trabalhar no sistema de trading. As coisas chegam e são logo vendidas, é como eles fazem. Por exemplo, estou a vender uma resma de papel A4 a cinco dólares. Sabes o que é que um cliente me disse? Pois, disse-me para cobrar por cada resma oito dólares. Já viste o lucro sem nenhum esforço? A propósito, já te debruçaste sobre os documentos da contabilidade da nossa empresa de segurança?
- Já… faltam os pagamentos do aluguer do terreno. O lucro é muito elevado, não sei…
- Pagamentos do aluguer do terreno?! Vou mandar fazer saídas de caixa a fingir que pagámos. E quanto ao lucro muito elevado, vou inventar alguns documentos de despesas que vão dar prejuízo. Mas o que é que tu queres?! Isto aqui é assim.
- Vieira, e como ficam as contas em divisas?
- Omitimos… eles nunca vão saber... puta que os pariu.
- Vieira, devia ser exigido aquando da apresentação das contas anuais, extractos das contas bancárias em divisas.
- Eles que façam isso. Mas duvido que o consigam. Ninguém lhes vai ligar. Todos exportam os dólares que possuem.
- Mas o teu dinheiro, o dinheiro de todos está lá fora, e aqui dizem sempre que não têm!
- Precisamente! Mas não é isso o que os governantes dizem? Claro, o dinheiro está todo lá fora, nas suas contas particulares. Vê o que alguns generais fazem aí por toda a cidade. Ocupam todos os espaços possíveis e imaginários. Apoderam-se de terrenos, desalojam pessoas, constroem onde bem lhes apetece. Isto é deles, isto é África, isto é Angola. Para sobreviver a única saída é roubar. Aqui temos que ser abutres, senão não conseguimos sobreviver.
Senti que não estava preparado para este estado de coisas. Mais uma vez senti-me arrependido. Tinha uma boa carteira de clientes em Portugal que me permitia levar uma vida desafogada, a mim e à minha família. Senti desejo de dizer que queria voltar, para junto da minha família e dos meus amigos. Mas, já agora que me coloquei nesta aventura, ansiava conhecer mais, para depois narrar os acontecimentos. Afinal era uma boa experiência de vida. Conhecer como funciona este país à deriva. Vieira continua:
- Isto é deles.
- Acho que não. É de todos nós, dos que trabalham honestamente.
- Assim deveria ser mas não é. É a selva. À nossa frente leões, atrás crocodilos, à esquerda lobos, à direita serpentes venenosas. Os governos africanos não são corruptos. As companhias petrolíferas são… é que fomentam a corrupção dos governos. Vê o que aconteceu no Zaíre com Lumumba. Como era contra os interesses ocidentais foi assassinado. Depois colocaram um ditador, o Mobutu, e protegiam-no. Quando já não era necessário foi passar a reforma na França. Nkrumah tentou efectuar algo de diferente. Mas não conseguiu porque o Ocidente não deixou.
(E a lista continua. João de Matos foi chefe do Estado-Maior das Forças Armadas Angolanas e tem a empresa Genius, com interesses referenciados nas minas, electricidade e Bellas Shopping Center. José Pedro Morais (ex-ministro das Finanças), Kundi Paihama (ministro da Defesa) e Pedro Neto (Estado-maior da Força Aérea) partilham a Finangest, 'holding' com interesses nos transportes, construção e segurança. In Jornal de Negócios)
Vieira sabia despertar, cativar a atenção do interlocutor. Sabia fazer pausas intencionais. Quando eu tentava dizer uma palavra, não conseguia porque ele mostrava ser convincente. Assim deixava-o falar:
- Interessa manter as populações na miséria, no desemprego, para que os custos de produção baixem muito, e assim obterem-se grandes lucros. Num país asiático pagam-se noventa e sete dólares por mês, com dez horas de trabalho diário. A exploração do trabalho infantil é um facto. Por exemplo, as empresas de calçado desportivo têm lucros impressionantes com esta exploração. Uma delas ganhou sem impostos 1.123 biliões de dólares em 2003. David Beckham recebe em patrocínio 161 milhões ao longo da sua vida. A diferença de salários é abismal. Vamos supor que os salários seriam quase iguais às economias desenvolvidas. Seria a ruína do sistema financeiro internacional. Porque os custos subiriam e os lucros quase deixariam de existir. Por isso é necessário manter a todo o custo governos fiéis e corruptos, que obrigam as suas populações a ficarem na miséria. Uma dependência eterna. Um grandioso exército de escravos a mendigar qualquer coisa.
- Vieira, acho que as ideologias estragam tudo.
- De facto isso é verdade. Wole Soyinka já se referiu a isso, quando afirmou que o maior erro de África foi expulsar os brancos. Mas Ladislau Dowbor exemplifica muito bem como surge a dependência, a manutenção da miséria e da fome permanentes.
«John Perkins faz parte de uma geração de autores que denunciam o funcionamento do sistema neo-liberal, mas que não vêm da esquerda: são pessoas cuja revolta surge justamente do facto de entenderem profundamente como o sistema funciona. E entendem profundamente porque a ele pertencem, ou pertenceram.
Perkins trabalhava na MAINE, uma empresa de intermediação de contratos internacionais, negociadora do financiamento de grandes obras, e executora de infra-estruturas energéticas, com o perfil da ENRON, da BECHTEL e outras semelhantes. Como economista-chefe da empresa, era encarregado de traçar as grandes linhas de investimentos, e de negociar a triangulação entre governos de países do Terceiro Mundo, empreiteiras, e o sistema financeiro norte-americano. A lógica básica é simples: ele era encarregado de inflar artificialmente as perspectivas de crescimento do PIB do país visitado, (como Angola) e de assegurar o financiamento de grandes obras de infra-estruturas pelo Banco Mundial ou outra instituição, com a condição das infra-estruturas serem executadas por grandes firmas americanas. Assim o dinheiro não sai dos Estados Unidos, vai directamente para uma das empresas executoras. (Como a China faz com Angola)
Imagem: canalmoz