terça-feira, 4 de junho de 2013

O Empresário luso-angolano (09)




Vieira pretendia que a Cidadela fosse o seu estado-maior. E por isso juntou todos os serviços administrativos, incluindo a central rádio de apoio aos serviços de segurança. As instalações eram espaçosas. No rés-do-chão ficava a padaria, e contíguo ficava o armazém de géneros que sustentava as refeições de todo o pessoal, incluindo as nossas. Havia uma escada que dava acesso à parte superior, onde se situava o escritório central.
Experimentei conectar-me à Internet e funcionou. Também existiam telefone e fax. Um gerador instalado no exterior supria as falhas constantes de luz. Porque a energia eléctrica parecia, ou era de fingimento. Seguranças alternavam-se e velavam dia e noite pelas instalações. À noite a iluminação era deficiente porque as lâmpadas eram insuficientes. Nas secretárias usava-se um candeeiro eléctrico. Tinha uma pequena suite que servia para dormir, com casa de banho. Quatro aparelhos de ar condicionado mantinham o ambiente agradável. Vieira diz-me que tem uma novidade:
- Já temos boate. Logo à noite dá um bom jogo de futebol. Instalei uma parabólica com ecrã gigante. Assim já te podes divertir acompanhado das tuas mulheres.
Entra um idoso com ar de mistério impressionante. Vai cumprimentando os presentes, mas a sua voz não se houve. Aproxima-se de nós lenta e silenciosamente, como se evitasse o barulho dos seus passos. Vieira chama-me a atenção:
- Apresento-te o Jacinto, mais conhecido por Hitler. Repara no bigode dele. É exactamente uma cópia do Hitler… é ou não é?!
Não prestei atenção ao insulto, embora me desse vontade de rir. Deu-me uma boa noite com uma voz quase imperceptível. Vieira interroga-o:
- Na boate não falta nada? Temos tudo garantido para o sucesso?
- Tudo não. Parece-me que o gerador não aguenta com a carga. O disjuntor dispara.
- O electricista não resolveu, porquê?
- Bem… resolveu não é bem assim… o senhor não lhe paga.
- Mas o que é que tu queres?! Ele deixa os trabalhos inacabados e…
- … Acho que não é outra vez bem assim. Há dois meses que não recebe nada.
- Amanhã vou-te dar o dinheiro, e quando ele acabar os trabalhos ponho-o a andar.
- Muito bem, seja feita a vossa vontade.
- Jacinto, quando o contabilista precisar de transporte manda o motorista. Dá-lhe o número do teu telemóvel.
Retira uma folha do seu bloco de notas, escreve o número e entrega-mo. Jacinto afasta-se silenciosamente. Nota-se o cansaço da idade. Parece arrastar as pernas. Chega à porta de saída, fecha-a e desaparece.
Retive a sua imagem. Tem cerca de sessenta anos. Cabelo e barba cor de prata. Olhos pequenos e profundos. Estatura baixa. Um pouco gordo. Apesar da idade nota-se que está bem conservado. Vieira começa a falar-me sobre ele:
- Tenho pena dele, já está velho. Em Portugal vivia muito mal, por isso trouxe-o para aqui. Actualmente está com a responsabilidade dos transportes e da alimentação, e supervisor dos seguranças. É um indivíduo culto, mas tem um senão, nunca mexeu num computador, nem quer ouvir falar disso. Não tem aqui ninguém da sua família. Consegui-lhe um apartamento na Maianga. Está a viver com uma mestiça que tem trinta anos. Desde que está com ele, já engravidou duas vezes. As crianças não são filhos dele, mas trata-as como se fossem suas. Depois fala com ele para fazer um inventário de tudo o que se encontra na boate, senão vai ser uma roubalheira. Já falei com ele para mandar o motorista apanhar-te às vinte horas. Encontramo-nos na boate.
O motorista acaba de chegar. Entro na viatura e noto que está acompanhado de uma senhora. Ele fala muito alto. Diz-me que a mulher é sua esposa. Quer impressioná-la e diz-me:
- Quero ver como vai o seu trabalho. Amanhã entregue-me um relatório sem falta.
O carro passa num buraco e ouve-se o barulho de garrafas vazias a baterem umas nas outras. O homem grita por tudo e por nada. A sua condução é perigosa. Temo pela minha vida. Baixo-me e começo a contar. São oito garrafas de cerveja que andam de um lado para o outro a passear. Algumas chocam com os seus pés e incomodam o acesso aos comandos. O homem não se preocupa. Está bêbado. Será um milagre se conseguirmos chegar ao destino. Num cruzamento surge um carro com polícias. O motorista despreza-os. O condutor do carro da polícia faz-lhe sinal de luzes. Lembro-lhe:
- Então você não sabe que eles têm direito a prioridade?!
O motorista pára de repente. Os polícias avançam. O motorista pergunta-me:
- Ah! Eles têm direito a prioridade?!

(Muleke Rio de Janeiro. Á falta de noticias assume-se que devem ter assinado algum contrato de venda de petroleo a uns 100 ou 120 dls por barril e agora esse contrato vai ser revisto. Agora os Chineses que já podem comprar o ouro negro a 20 ou 30 dols/bl não querem assumir o contrato e compromisso assinado. Já fizeram isso com a Malasia com Oleo de Palma á pouco tempo, soja do brasil e com outros. Os acordos dos Chineses só são válidos para eles, enquanto forem lucrativos. Assim, mais um país africano fica empenhado e sem saber como sair do buraco em que se meteu. Nem os chinas nem o governo angolano sabiam que haviam tanto petroleo barato no brasil e venezuela... estavam mal informados e as coisas acontecem. In Angonotícias)

A pista de dança funcionava na cave da boate, e a parte de cima dedicava-se a convívio. Em frente à porta de acesso do lado da rua, disfarçava-se um segurança acompanhado de um cão corpulento. Quando a pista de dança não funcionava o ambiente era calmo. Quando aberta o barulho era insuportável. Pessoalmente, devido a este inconveniente sempre evitei frequentar boates. Nunca consegui entender como as pessoas suportam tanto barulho. Abordo o Jacinto:
- O Dr… disse que tem que se fazer um inventário de tudo o que aqui existe.
- Amanhã mando tratar disso.
Vieira acaba de chegar e anuncia a sua presença aos berros:
- O Benfica é o melhor do mundo. Mas o que é que tu queres?! Tem andado com azar. Todos os clientes que provarem que são do Benfica têm direito a um desconto especial. Os do Sporting e do Porto pagam uma taxa de entrada para suportar o custo dos adeptos do Benfica.
Dirige-se ao balcão. Chama o Jacinto e a responsável dos serviços de atendimento aos clientes:
- Os gastos que o contabilista aqui fizer ponham tudo na minha conta.
Depois disparata para o Jacinto, exige-lhe:
- Quero o inventário… ninguém sai daqui enquanto não estiver pronto!
Jacinto observa-lhe:
- Já falei com o contabilista acerca disso.
Vieira aponta para uma mesa num canto que está sempre reservada para ele, e convida-me a sentar. Mostra-se preocupado, com ar implorativo:
- Na noite passada assaltaram um estabelecimento de venda de vestuário de um dos nossos clientes. Não houve arrombamento. O nosso segurança está envolvido nisso porque desapareceu. Não se sabe onde está. Roubaram muito vestuário… lingerie e relógios das melhores marcas. Exigem a indemnização... é pá, estou fodido!
- E o que é que queres que eu faça?
- Tens que ir lá e controlar o inventário deles. Para sabermos exactamente o que roubaram. A quantia não é nada pequena… são milhares de dólares.
O ambiente agita-se por causa da parabólica. As imagens na TV desaparecem e aparecem. Um cliente amigo do copo provoca:
- Não pagaram o aluguer da parabólica?!
Vieira agita-se, muda de posição e grita-lhe:
- Tens que me dizer qual das parabólicas: se é a tua ou a minha!
Depois calmamente pergunta-me.
 - E como vai a aventura dos Caminhos de Luanda?
- Vai a conta gotas. Vieira, para fazer o trabalho da loja de vestuários não poderei dedicar muito tempo nos Caminhos de Luanda.
- Não te preocupes. Vou falar com o Director. O que é que queres beber?
- Acho que não é necessário responder.
- Já sei, vinho Dão!