sexta-feira, 14 de junho de 2013

O silêncio das folhas caídas, perdidas




Depois das folhas caídas, ressequidas, sem a vida verde, duas crianças, uma de três e outra de seis anos, a mais velha apanha uma folha grande, já com a cor da morte e alerta para o seu companheiro: «Olha, esta folha muito grande está bem grávida!»
E outra criança de treze meses acerca-se-lhes e agarra numa folha, mas eles não lhe consentem, forçam e a folha desfaz-se e o bebé grita com toda a sua potência pulmonar, exigindo os seus direitos de também brincar, mas eles não querem saber, afastam-na do seu convívio e o bebé volta a socorrer-se da sua arma estratégica, lançando mais potentes gritos, como um dragão desses que não expele fogo, mas gritos.
E as ruas tão pegajosas de assaltantes, qual de nós dirá que nunca foi assaltado? E caminhamos intranquilos porque não sabemos se hoje será outra vez a nossa vez. Caminhamos pesados no rumo dos desalmados, emboscados nas moto-rápidas, assaltados, frustrados. As ruas já não são nossas, são das marés de jovens desempregados. E nasce uma questão: que nos interessa lutarmos para conseguirmos alguma nobreza social, se a qualquer momento corremos o risco do assalto nas nossas residências, que nos tira a vida por algo de valor que transportamos. As ruas são os túmulos do nosso descontentamento. Se não dermos as passadas convenientes para retirarmos das ruas o flagelo dos jovens sem futuro, dificilmente sobreviveremos, porque esta maré nunca baixa, está sempre cheia, e transborda muito, imparável. O país e as nossas vidas estão em perigo.
E os mosquitos que nos assaltam com os seus berbequins, furam-nos a pele e deixam-nos à mercê do paludismo que é muito perigoso, e por isso mesmo confronta-nos na luta entre a vida e a morte. E o mosquito da dengue, Aedes aegypti, preto com riscas brancas nas patas, só ataca de dia enquanto o da malária ataca de dia e de noite, trabalha muito, incansável, não dorme. As crianças são as mais afectadas porque estão mais expostas, geralmente com apenas uma fralda como vestuário, pois o calor é intenso, e os hospitais e centros de saúde por mais esforços que façam não conseguem debelar a avalanche das vítimas deste imenso campo de batalha, pois são as condições do meio ambiente que nos perigam. Não consigo entender porque o Ministério da Saúde não pulveriza a cidade com o habitual, tornou-se anormal, insecticida circulante montado numa viatura.
E a anemia de células falciformes, uma doença hereditária que afecta a proteína hemoglobina também flagela, assalta. Oiço amiúde comentários de que a vizinha está com a filha no hospital, que uma amiga também está lá com o seu filho e que, morreu um jovem com apenas vinte e três anos por causa dessa doença.  
Lembro-me, quando li o livro, O Véu Pintado, de William Somerset Maugham, 1874-1965, que muita gente morria de cólera como enxames, salvo erro numa localidade chinesa, mas ninguém conseguia descobrir o porquê. Na zona cultivava-se muita alface e consumiam-na sem lavagem. Depois que se instruiu a população para antes do consumo a lavarem, a cólera diminuiu drasticamente.
Os jovens e zungeiras no fim do curso intensivo, recebem os diplomas de vendedores de ruas e nelas se azafamam. Contudo vivem no constante receio dos ataques dos seus implacáveis predadores, os fiscais e alguns polícias que sem dó nem piedade lhes voam, lhes caiem em cima com as suas garras e lhes arrastam os efémeros pertences, meras bugigangas, mas os empresários que fogem ao fisco, os fiscais não os afrontam.