sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Os jovens auscultam o Governo




As damas pareciam a forte correnteza de um rio agitado pela enchente de chuvas intensas, e ele não lhes resistia - muito pelo contrário - prestativo, solidário se oferecia. Como contrapartida casas de chapas lhes oferecia. E elas amontoavam-se, amantizavam-se, e ele rejubilava, com e nelas se encantava. Sim, conquistar, macho nelas a marchar.
Não, não era ele que as procurava. Ganhava a vida honestamente. De manhã bem cedo de Viana lá vai, e chegado a Luanda, lá está a chefe à sua espera com a panela grande da sopa que todas as manhãs vende bem quentinha, apetitosa para os seus clientes habituais. Uma hora e meia depois já a panela vazou e ele volta a carregar com a cozinha ambulante. Lava-a, arruma-a e carrega-a para o terceiro andar do prédio da mana chefe. Depois apressa-se, mais clientes lhe esperam para carregar água, caixas de cerveja, de vinho, limpar as escadas dos prédios, fazer mais outros serviços, tudo o que lhe aparecer.
Depois de um monte de kumbu diário, pelas dezasseis horas apanha o táxi candongueiro e retorna para Viana. Lá lhe esperam as namoradas, e logo chegado perguntam-lhe muito animadas, muito libidinosas: «Querido, conseguiste, trazes dinheiro?» E ele todo inchado como se fosse o proprietário delas, responde muito feliz, como habitante do Valhala: «Sim, está aqui! Hoje vamos beber outra vez, minhas queridas, podem beber à vontade porque é a nossa felicidade!» E elas sempre dengosas meneiam as ancas, o corpo todo como serpentes e encostam-se-lhe, beijam-no, acariciam-lhe o sexo, e ele louco quase berra de prazer: «Vamos beber! Vamos beber! Até amanhecer!»
E elas assim que lhe acabavam com o dinheiro debandavam para outras paragens, melhor, para outro otário, pois nesta cidade é o que mais não falta. Era assim todas as noites, que o dinheiro lhe fugia como magia. Mas ele no trabalho nunca bebia. E lá voltava, no dia seguinte votava na patroa carregando o negócio da sopa de todas as manhãs que andava bem rápido. Depois até ia no São Paulo carregar garrafa de gás para uma cliente. A vizinhança costumava comentar uma coisa muito engraçada, a de uma criança de um ano de idade, que quando o via vibrava, gritava: «Bing! Bing!» E assim com o nome que o bebé inventou a bwala chamava-o, Bing para aqui, Bing para ali. O Bing tinha uma coisa que odiava, kilapi não aceitava, porque as damas que o esperavam no fim do dia garantiam, lhe bazavam se kitari ele não lhes oferecia.
Claro que muita boa gente costumava não lhe pagar os serviços, como o do serviço mensal da limpeza das escadas de dois prédios, que acabado o mês ele ia receber o salário e algumas vezes lhe diziam que não tinham dinheiro para lhe pagar. Então ele fazia greve e as escadas dos prédios amontoavam-se de lixo, até que os residentes se rendiam e lhe pagavam, pois está muito difícil encontrar alguém para o substituir. E manifestava-se na rua para quem o quisesse ouvir, que este ou aquele cliente não lhe pagava. Acontecia que reclamando de vez em quando o pagamento pelos serviços prestados, alguns clientes pagavam-lhe com uma brutal surra. E o Bing aparecia com a cara inchada e olhos cor violeta, a coxear, a implorar: «Preciso de dinheiro para comprar medicamentos.» Mas ninguém lhe ligava, a não ser a mana do negócio da sopa, que solícita se prestava a dar-lhe o dinheiro para se curar, pois sem ele o negócio não andava. Uma vez, o Bing lutou num fim-de-semana lá em Viana. Estava sobrecarregado, pelos vapores vinícolas embriagado, e na segunda-feira apresentou-se com uma ferida na cabeça, quase com dez centímetros de comprimento e cinco milímetros de largura, isto segundo diagnóstico da medicina popular da vizinhança. Ele exigiu aquela do vamos se associar no valor de dez mil kwanzas. Desta vez lixou-se porque nem a mana da sopa lhe ajudou, lhe abandonou. Mas mesmo assim safou-se e lá continuou na azáfama habitual.
Encheu-se de contentamento e esperança depois dos inúmeros artifícios que usou para conseguir dinheiro e comprar chapas, cimento e tijolos da rua. Antes, com alvíssaras do cabritismo conseguiu legalizar um terreno. Construiu o seu casebre e abancou.
Quinze dias depois uma delegação de fiscais marcam-lhe a casota. Abordou-os circunstancialmente adivinhando que obteria resposta.
- Quem lhes mandou fazer isto?
- Os manos!
Ordens dos manos imobiliários. – Pensou.
E vieram… e tudo lhe confiscaram. Apenas lhe deixaram a raiva da impotência, do desespero, do ser alimento dos países ricos. Ainda lhes gritou:
- Ainda não descortinámos que as promessas de ficar, habitar, confiscar as residências, os prédios dos colonos, não é isso que nos tira da miséria. Qualquer escravo acredita em qualquer pregador da liberdade das centenas, que depois serão milhares, das igrejas evangelizadoras, pois onde há maná, há religião.
Não desistiu, voltou a construir casebre noutro local mais pacífico, mais simpático. Senão… vou viver então aonde!? Conseguiu kilápi… nos bancos? Não! Na sua família, nos amigos não porque há muito que desapareceram, que deixaram de comunicar. A propósito: ele acredita que as pessoas já não sabem o que é isso, pois presentemente a comunicação é estabelecida nos inúmeros assaltos que nos assomam das janelas dos milhares de olhares, como se vivêssemos, protagonizássemos um filme de ficção científica. 
Estava bwé a curtir na choupana com a música muito barulhenta a incomodar os vizinhos quando aparece a corte marcial. Sem improviso arremedaram-lhe:
- Chegámos!
O camartelo apresentava-se tão gasto pelo uso, mostrando que nenhuma cabana lhe resistia. Ainda gritou para os direitos humanos da ONU, mas sem resultados porque quem é que acredita que eles lhe prestem atenção? Teimou, reforçou, avançou para a terceira maresia. Construiu outra vez e já lá residia. Com reforço de kilápi a palhota não estava vazia. Pressentiu ao longe os cascos de viaturas aproximarem-se, viu e ouviu eles novamente, os manos parte-casas. Nem lhes perguntou mais… também eles se anteciparam e recitaram o verbo.
- Chegámos… outra vez!
Soltou o verbo para o betão dos condomínios e torres sem arborização da economia informal, anti-ambiental. Economia do desenvolvimento sustentável das mulheres da rua, que agem por percepção extra-sensorial, transformam-se em leoas para lutarem, usarem o instinto de conservação, enquanto os leões à noite dormem. Elas tudo fazem para abastecerem as suas proles que as aguardam ansiosas nas suas tocas. Os especuladores imobiliários destroem povos, países, derrubam o planeta Terra, a civilização. Se não admirarem a Natureza, nunca se conhecerão. Há dois Deus: o da Natureza e o dos seres humanos. Deixou o seu lamento aos especuladores imobiliários:
- Tudo o que constroem, e não percebem, ou fingem não perceber que tudo o que estes seres humanos agora edificam, a Natureza arrasa.
E nós juventude já não sabemos, desconhecemos, queremos um Governo e não uma junta militar.
É isso mesmo: quando uma minoria vive principescamente com o maná das regalias inimagináveis, rodeada de milhões de desempregados, espoliados na sua terra que já não lhes pertence. Então os meus ilustres senhores – gente gira – protegem-se, vivem no terror de serem assaltados a qualquer momento. 
É impossível viver permanentemente na desonestidade e na hipocrisia.
As coisas estão muito fáceis de ver, ou não? O Governo português escancarou as suas portas à corrupção angolana, e em troca os portugueses invadem Angola, pisam terra, felizes no regresso triunfal na sua outra vez colónia, isto pelos vistos faz parte dos acordos gerais de cooperação.
O Governo chinês colocou à disposição de Angola – com a reverendíssima desculpa de que ninguém lhes queria emprestar dinheiro – fundos monetários sem fim, tendo como exigência a entrega total de Angola aos chineses. Nota-se claramente porque eles estão protegidos pela guarda presidencial. Além de que o Governo angolano obtêm apoio incondicional destes dois países na repressão violenta à oposição. E assim nos vamos afundando, porque até as zungueiras são consideradas opositoras. Senão, como é que se explica a feroz perseguição que lhes é movida? Quer dizer que Angola já é uma república sino-portuguesa. E claro que esta república constituiu-se tendo como alicerce principal a manutenção – carta-branca – da escravidão dos mwangolés. E isso dos campeonatos mundiais disto e daquilo - como agora o do hóquei em patins e afins, é também uma imposição da república sino-portuguesa – a construção de estádios para garantir o emprego dos parasitas dessa república e das suas empresas.
Auscultar, ouvir os jovens, mas não lhes prometer nada, é assim como uma espécie das negociações do conflito sírio.