quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O empresário luso-angolano (17)




- E o Jacinto?
- Porra! O gajo queria vender a boate, e ficar com o dinheiro. Disse-me que tinha o armazém cheio de comida, mas era mentira. Ficou com o dinheiro. Mandei-o embora.
- Vieira, o Chileno não apareceu mais.
- Vendeu o computador dele, e com o dinheiro, comprou um bilhete de passagem e voou para o Chile.
- E os cubanos?
- Esses são muito vivos. Queriam muito dinheiro, não aceitei.
- Vieira sabes que o Director parece que já foi…
- Já tem o dinheiro que queria, agora… só resto eu.
- Vi na documentação vultuosos pagamentos duvidosos.
- É para veres como somos parvos.  Aqui quem for honesto está fodido.
- O novo director quer a contabilidade em dia.
- Sem o Director… agora estamos fritos. Faz o que puderes.
- Vais vender a boate?
- Vou. Simulei que estava a reabilitá-la. Ao vendê-la fico com um bom lucro.  Compradores não faltam.
 Também vou vender as instalações de uma pequena empresa que fingi estar em funcionamento.  Também me vai dar um bom lucro.
- Isso é especulação imobiliária.
- Mas o que é que tu queres? Estavas à espera de quê?!
Vieira foi para a Namíbia. Antes disse-me que demoraria quinze dias. Para prosseguir o meu trabalho teria o apoio do Heitor. Que alguns clientes viriam porque estavam interessados nos nossos serviços. A alimentação ser-me-ia enviada regularmente, para que o meu trabalho fosse mais produtivo. Passou um mês. A alimentação era enviada irregularmente, isso ocasionava que almoçasse fora de horas, e algumas vezes faltava.
Aparecia um cliente e eu não sabia como fazer.  Simplesmente interrompia a refeição, o que não é nada saudável.

(Neste momento o mundo continua teimosamente, criminosamente nas mãos da grande conspiração dos especuladores mundiais. Nada há a fazer,
a não ser aguardar pela próxima catástrofe mundial.)

Dificilmente conseguia desenvolver as minhas actividades, porque o transporte escasseava. Depois fiquei sem energia eléctrica. A Cidadela enviou uma circular a informar que, para o restabelecimento da energia teriam que ser pagos quatro mil dólares. O gerador passou a funcionar somente para a padaria. Quando esta terminava o trabalho, não havia luz. Quando decorriam jogos de futebol ou outros acontecimentos desportivos, não se conseguia trabalhar devido ao barulho que os adeptos faziam.
Quando saía e depois voltava era impedido de entrar, porque não tinha passe. A estação das chuvas chegou, e com ela as inundações. A corrente de água era tão intensa que fazia com que o acesso não fosse possível. Como se não bastasse ficámos sem comunicações. Resumi tudo isto a Heitor que me esclareceu:
- Os carros estão todos avariados. O gerador, o Vieira disse para o ligar só para a padaria. Os telefones foram desligados por falta de pagamento.
- Necessito de dinheiro para as despesas correntes. O Vieira não falou nada disso?
- Não, não me falou nada
- Mas, ele disse-me que teria um fundo de maneio. Como é que vou conseguir trabalhar?
- Não sei!
Vi que estava a perder tempo, mesmo assim insisti, repeti:
- Sabe que os telefones foram desligados por falta de pagamento?
- Sim, sei. O Vieira disse-me para não gastar nenhum dinheiro. Para aguardar até que ele chegue.
- Heitor, como sabe, até agora não consegui falar com ele. Trabalhar nestas condições não é possível. Diga-lhe que vou sair daqui. Vou voltar para o apartamento.
- Sim, ele também me disse que vai sair daqui.
- Sabe o que é que eu penso disto tudo?
- Não.
- Resume-se apenas a duas palavras vulgares. Sabotagem e irresponsabilidade.
Regressei ao apartamento. A despensa estava vazia. Liguei para Heitor que me tranquiliza:
- Já vou tratar disso.
A comida que me enviou, era apenas umas latas de salsichas, queijo e presunto. O pão ficou esquecido. Liguei-lhe:
- Heitor, obrigado pelo que me enviou… falta o pão.
- Não temos carro.
- Não se esqueça que estou sem dinheiro.
- Está bem, já lhe vou enviar alguma coisa.
- Está bem.
Depois enviou-me carne, mas não me enviou óleo para fritar. De bebidas parece-me que não tinha direito, a não ser água. A luz e o telefone foram-se por falta de pagamento. Também era difícil manter a luz, porque o cabo de alimentação estava muito sobrecarregado, devido a que existiam algumas pequenas empresas que tinham máquinas de fazer gelados, sumos, e o aumento constante de aparelhos de ar condicionado muito potentes, que faziam com que o cabo queimasse constantemente.
A empresa de electricidade já tinha dito que cada um devia contribuir com a necessária quantia para a sua reparação. Mas ninguém queria pagar. Além disso também não pagavam os consumos. Os cortes eram constantes. Manter os produtos congelados era muito arriscado. Não sabia como conseguiria trabalhar. Heitor entregou-me uma quantia irrisória que mal dava para sobreviver. Iria ficar sem telemóvel. Apenas lhe perguntei:
- Heitor quando é que o Vieira chega?
- Deve estar aí a chegar. Lá em baixo também não temos luz, nem telefones. O Vieira disse para não pagar nada, até que ele chegue.
- Como é que eu vou fazer? Não tenho dinheiro.
- É como já lhe disse, espere por ele.
Três meses depois Vieira chega. Todos esperamos pelo essencial, o dinheiro, que Heitor investe nas obras de dois apartamentos e um grande armazém, que depois Vieira revenderá. Assim que me vê dá-me uma novidade:
- A minha esposa veio comigo, depois vais conhecê-la.
- Quero ir para Portugal.
- Porquê
- Não estou a gostar nada disto, ou me pagas ou…
- Tem calma… já cheguei. Vou tratar disso tudo, fica calmo.
- A minha calma já foi mais que suficiente.
- Mas o que é que tu queres? Na Namíbia vão fazer a mesma coisa que o Zimbabué fez. A lei de terras, a reforma agrária. Vão entregar as fazendas aos negros. Os brancos estão a vender o que podem, estão a fugir. Esta gente gosta muito de morrer à fome. Ao menos que fizessem isso gradualmente. Que preparassem as pessoas para assumirem as suas responsabilidades, mas não. O que pretendem é o voto eleitoral. Ficar com o que era dos brancos, mas ninguém trabalha. Ficam a olhar, não sabem o que fazer. Depois de tudo ficar em ruínas, pedem aos brancos para lhes enviarem comida. É este o futuro da África.
- Acho que já estamos todos cansados dessa música. Se eles assim preferem, que assim seja. Mas apenas exijo que não faltes com os teus compromissos.
- Tudo bem, terás o teu dinheiro. Logo, vamos jantar na minha casa. Já informei a Ava.

CAPÍTULO V
AVA

- Ava, é o nosso contabilista - Anunciou Vieira.
- Boa noite dona Ava.
- Deixa-te disso, trata-me por Ava.
Estava com um vestido de noite, branco, transparente. Notavam-se claramente os contornos dos seios e o ventre saliente. O cabelo caía-lhe nas costas. Alta e magra parecia ter trinta e cinco anos. O corpo estava bem conservado. No fim da perna esquerda uma argola de marfim. Pensei que as mulheres gostam de exibir os seus dotes físicos. Estávamos a meio da refeição, Ava pergunta-me:
- Estás a gostar?