sexta-feira, 6 de maio de 2016

DIÁRIO DE UM FAMINTO (10)




Divisa do MPLA: Colocar as pessoas erradas nos locais errados.
Angola reforçou a cooperação com a China, a Coreia do Norte e Cuba.
Eu respeito a Constituição mas ela não me respeita, despreza-me.
Tudo a subir, como se a população forçada se atirasse do alto de uma montanha acossada por feras humanas fardadas e por armas acossadas, fuziladas. Ontem foi o pão, hoje o autocarro. O pão passou de quarenta para cinquenta kwanzas. O autocarro de trinta e cinco para cinquenta kwanzas. Os preços de tudo sobem anarquicamente como se Angola fosse governada por um zé-ninguém. O homem que costuma carregar água em recipientes de 20 litros ameaçou que iria cobrar duzentos kwanzas por cada. A recolha do lixo vai subir de quinhentos até dez mil kwanzas para a população e até cento e cinquenta mil para as empresas. Claro que é uma medida comunista – mais uma – porque quem faz muito lixo e quem quase não o faz paga a mesma coisa, comunismo é mesmo assim, nele não existem pessoas, apenas objectos, morte indiscriminada. Numa população desempregada, de impostos da impostura sobrecarregada, não têm dinheiro para comer, como irão sobreviver. Neste exército de famintos a fome não pára de crescer. Se os empregos são só para estrangeiros, então eles e os seus amigos corruptos que paguem a factura.
Pois é, o super general que governa Luanda até agora não falou nada – e não falará – sobre como acabar com a corrupção e com os corruptos na província de Luanda. Pois é, vai continuar tudo na mesma, pois é, não é?!
Isto está de tal maneira que nem se consegue respirar fundo.

Se isto não consegues ver, sentir, então és mais uma vítima da conspiração do poder dos corruptos.
Não ouves o som das gotas de água da chuva a caírem nas folhas das plantas que antes estavam verdes sujas e que agora estão verdes da cor da natureza.
O choro da tenra criança aterrorizada à procura da sua mãe que a abandonou.
Um gato a saltar para um rato dando-lhe o golpe final sem misericórdia.
Um corrupto com a roupa inchada de dinheiro.
População a morrer de fome enquanto o seu governo aposta que no próximo ano haverá muita comida porque há muitos projectos de agricultura. Só que há quarenta anos que esse governo repete sempre as mesmas palavras. E não haverá agricultura nenhuma, haverá sim mais fome.
Uma criança de três anos a perguntar se uma rolha de cortiça com um rosto humano desenhado, morde.
Hospitais sem médicos e sem medicamentos inundados de doentes e sem nada, absolutamente nada, nem uma folha de papel para registar as suas mortes.
Corruptos intensamente a falarem, a apelaram ao patriotismo, quando na verdade forjam células terroristas como colmeias, perante a passividade e apoio descarado da comunidade internacional.
Um governante a jurar que vai acabar com o desemprego quando gasta milhões de dólares em mobiliários de ouro para equipar o seu palácio.
Mães indigentes abandonadas pelo partido em que votaram e que pelo erro cometido são presas e acusadas de distúrbios na via pública.
A gaivota no clarear da manhã a passear na margem muito calma da baía estudando os alvos de minúsculos peixes para o seu café da manhã, e que ao ver alguns seres humanos dos pesadelos alcoólicos das noites da vida da desolação, sem esperança, alçam voo aterrorizadas por mais um encontro do máximo grau do terrorismo humano, onde nenhuma espécie animal lhes escapa, anunciando o apocalipse de todas as espécies, incluindo a humana.
Até hoje ainda não consegui entender o porquê da apetência humana em matar. É que matam tudo, nada do que é vivo lhes escapa incluindo – a coisa mais atroz – o seu semelhante.
A criança horrorizada perante a morte, sem entender o que fez, o porquê do castigo, indefesa, antes de ser degolada por um estado islâmico.
A papoila também horrorizada antes de ser transformada em ópio.
Tarzan na sua eterna luta na selva africana contra os brancos caçadores de animais e escravos negros para exibição nos circos da civilização ocidental.
Um regime democrata que publicita aos quatro cantos do mundo que é o garante da democracia e dos direitos humanos, mas que as suas prisões estão lotadas de presos políticos e que garantem que vão construir mais prisões, sob a alegação que as actuais são insuficientes para milhares, milhões de presos políticos.
Os pais na desesperada procura da criança raptada pela selva humana.
Um par enamorado nas ruínas de uma cabana abandonada no alto de uma montanha contemplando o que resta da civilização humana.
Recém-casados que antes juraram amor eterno mas que agora descobriram que se esqueceram do amor, e que vão terminar a sua relação porque do amor não têm noção.
Sacerdotes em oração permanente para que a corrupção seja a sua embarcação na ilha da perdição, e que Deus seja a sua salvação.
As grandes amizades da infância que mais tarde nos brindam com o inexplicável desprezo.
No mar, bem cedo num dia de nevoeiro a enfrentar o frio com uma cana de pesca à espera de um peixe.
A ver os anos passarem rapidamente, - um mistério, o porquê dos anos começarem e acabarem tão rápidos – e o corpo a envelhecer, irremediavelmente a despedir-se da vida.
E que antes de partir a sentir imensas saudades do verde da vegetação como se fossemos plantas.
E do não mais ouvir pela manhã o piar, o despertar do cancioneiro dos pardais antes de devorarem as plantas, o hino da natureza.
O não ouvir mais o bater das ondas do mar antes de dormir, como se a cama estivesse na praia.
O não ouvir mais o som da chuva.
Apelar aos amigos perante o aceno da fome, e descobrir que afinal isso é uma quimera.
O não poder mais brincar com os netos e netas, e ensinar-lhes alegremente as suas constantes dúvidas, e evitar-lhes as armadilhas das teias da vida.
Lutar para escapar das constantes vigarices dos homens maus.
Ver depois de uma vida inteira a família destruir tudo o que se edificou com muito sacrifício.
E numa desdita verificar com imensa surpresa e desilusão, que apeles que mais apoiámos, são os que mais nos desprezam.
A criança abandonada pela mãe na esperança de que alguém a leve, e lhe dê comida e um lar acolhedor.
Um governo que jura respeitar a democracia mas que se inunda de presos políticos.
Entretanto, bajulando os pintos vão piando, e sem asas inúteis voos vão alçando.