quinta-feira, 19 de maio de 2016

Eu queria cantar para dentro de alguém. Rainer Maria Rilke (1875-1926)


Chegou sozinha. ELPAIS


PARA RECITAR ANTES
DE ADORMECER

Eu queria cantar para dentro de alguém,
sentar-me junto de alguém e estar aí.
Eu queria embalar-te e cantar-te mansamente
e acompanhar-te ao despertares e ao adormeceres.
Queria ser o único na casa
a saber: a noite estava fria.
E queria escutar dentro e fora
de ti, do mundo, da floresta.
Os relógios chamam-se anunciando as horas
e vê-se o fundo o tempo.
E em baixo ainda passa um estranho
e acirra um cão desconhecido.
Depois regressa o silêncio. Os meus olhos,
muito abertos, pousaram em ti;
e prendem-te docemente e libertam-te
quando algo se move na escuridão.

SOLIDÃO

A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.
Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:
então, a solidão vai com os rios…

Os poemas constam de O Livro
das Imagens, e transcrevi traduções
de Maria João Costa Pereira,
em publicação de Relógio d’Água
Editores, Lisboa, 2005.

Da Vikipédia:
Sua poesia provocava
a reflexão existencialista e instigava
os leitores a se defrontarem com
questões próprias do desencantamento
da primeira metade do século XX.
Sua obra foi influenciada pelo
Expressionismo e influenciou muitos
autores e intelectuais de diversas
partes do mundo.