terça-feira, 24 de maio de 2016

QUADRAS. ANTÓNIO ALEIXO (1899-1949)



A fartura ao pé da fome
Raramente se dá bem
Quase sempre quem tem, come
À custa de quem não tem

A fome, a dor, a tristeza
São – por nossa infelicidade
O preço por que a pobreza
Paga a sua honestidade

Há tantos burros mandando
Em homens de inteligência,
Que às vezes fico pensando
Que a burrice é uma ciência

Quem prende a água que corre
É por si próprio enganado
O ribeirinho não morre
Vai correr por outro lado

Sei que pareço um ladrão
Mas há muitos que eu conheço,
Que, não parecendo o que são,
São aquilo que eu pareço

Embora os meus olhos sejam
Os mais pequenos do mundo,
O que importa é que eles vejam
O que os homens são no fundo

Eu não tenho vistas largas,
Nem grande sabedoria,
Mas dão-me as horas amargas
Lições de filosofia

Uma mosca sem valor
Pousa co'a mesma alegria
Na careca de um doutor
Como em qualquer porcaria

Sou um dos membros malditos
Dessa falsa sociedade
Que, baseada nos mitos,
Pode roubar à vontade

Nós não devemos cantar
A um deus cheio de encantos
Que se deixa utilizar
P'ra bem duns e mal de tantos

Veste bem já reparaste
Mas ele próprio ignora
Que por dentro é um contraste
Com o que mostra por fora