domingo, 27 de janeiro de 2013

As Aventuras de Akalesela (08). O Mistério do Prédio Enfeitiçado



  
“C. Estermann assegura que o chefe de Evale tinha poderes mágicos para atrair a chuva. Mas só os conseguia se sacrificava uma jovem mãe cujo filho era entregue a outra mulher. Juntamente com a vítima, sacrificavam também uma vaca negra, antes do sacrifício, o leite da mulher e o da vaca eram aspergidos várias vezes por terra, como prenúncio da chuva. A mulher era assassinada com um golpe de lança e, com o seu sangue, aspergiam as árvores da chuva. O seu cadáver ficava insepulto e ninguém podia chorar a sua morte nem guardar luto.
São prodigiosos tanto o conhecimento que os adivinhos e curandeiros guardam sobre os venenos tão variados, como a prática pericial consumada que adquiriram para dosificá-los. «Conhecem com certeza diversos venenos pouco conhecidos fora do mundo especial dos toxicólogos competentes, e talvez tenham encontrado outros que a ciência nem sequer suspeita que existam. Entre os venenos, alguns produzem efeitos imediatos; outros ficam sem acção visível durante meses; outros ainda, causam sintomas idênticos a doenças bem conhecidas». «Observe-se que há 570 plantas africanas conhecidas pela ciência ocidental como venenosas de um modo ou outro. Sem dúvida os curandeiros e adivinhos conhecem muitas mais.”
In Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Ed. Paulinas

Ela levanta-se:
- Aguarda um momento, vou à cozinha.
Voltou e afirma triunfal:
- Aqui tens o teu afrodisíaco. A Kakulu disse-me que gostas muito de gambas com quiabos, coentros… e o molho está aqui.
Ele agradece-lhe e retoma a conversa:
- Se a raça humana acabar Deus sobreviverá?
Ela afirma de modo evasivo:
- É uma coisa bela esta civilização que nos deixa felizes, e em nome dela destruir tudo o que vive. Não, não são somente os animais, peixes e plantas. São as pessoas… os seres humanos que estão a ser exterminados. E nós aceitamos isso com uma naturalidade invulgar. Estamos a ser consumidos num suicídio colectivo. O cristianismo tal como profetizou quer o apocalipse. O que está escrito tem que ser cumprido. Não podemos aceitar isto. Que a Igreja sucumba mas que não nos arraste. Já não acredito no cristianismo, isto é, nas pessoas que o representam.
- Então em quem acreditas?
- Na verdade em tudo o que é verde. Refiro-me às árvores, às plantas… estão sempre vivas, a ondular com o vento. Isso é o verdadeiro Deus. O resto é coisas que alguns seres humanos inventaram para fazerem negócios. Isto deve acabar, tem que acabar.
Ele humoriza:
- Os dólares são verdes, enfeitiçam os nossos governantes.
- Um dia destes vamos vê-los a serem arrestados em qualquer país. Acho que não deviam viajar.
Mas ele insiste:                                            
- Dizem que essa cor verde lhes dá sabedoria.
Ela recorre à história:
- O filósofo Bias, um dos sete sábios da Grécia, quando Priene estava ameaçada pelos exércitos de Ciro, e a população fugia com tudo o que pudesse levar. Como ele não se preocupava, perguntaram-lhe porquê. Ele respondeu que levava todos os bens consigo. Os bens eram a sua sabedoria.
Mas ele reage, lembra-lhe os perigos da riqueza:
- A riqueza é sempre ilícita e perigosa porque quem tem, quer sempre ter mais. Só têm um pensamento… dinheiro. E isso dá-lhes poder. Então, tornam-se desumanos, avarentos, e para atingirem os seus objectivos corrompem aqueles que se vendem facilmente. A vida que levam é diferente das outras pessoas. Porque estão possessos, permanentemente ávidos e demoníacos. E quanto mais enriquecem, mais a miséria aumenta. Este é o maior mal do mundo. É a civilização da democracia.
- Prefiro Barrabás a Jesus. – Disse ela convicta.
Encontravam-se desinibidos devido ao efeito do afrodisíaco e da bebida. Olhavam-se com paixão. Em silêncio, ela retirou-se e entrou no quarto. Alguns minutos depois reapareceu. Caminhava lentamente como se desfilasse numa passarela num convite mudo a apresentar, para comprarem a sua moda. A luz fluorescente chamava a atenção para o azul-escuro do seu baby-doll. A cor do batom nos lábios condizia com o vestuário. Ele fascina-se:
- Se todos os feitiços fossem assim nunca deixaria que terminassem.
Ela pega nos telemóveis e desliga-os. Diz ofegante:
- Assim não seremos incomodados, vamos acamar-nos.
- E se a Kakulu-Ka-Humbi liga?
- Não te preocupes, deve estar no poleiro da águia.
Ele confirmou que ela era uma obra-prima do prazer. Continuavam deitados a sorrirem e a acariciarem-se enlevados de farto prazer. Ele de repente levanta-se e augura:
- Que horas são?!
- São duas da manhã.
- Ma Yuan tenho que ir.
- Já… tão febrilmente cedo?
Vestiu-se rapidamente e já estava na porta de saída. Ela antes de lha abrir beijou-o e murmurou-lhe:
- Quero ser tua sócia… detective para os casos amorosos.
Ele não lhe prestou atenção. Já no jipe e antes de o pôr em movimento ligou o telemóvel e pressentiu que Kakulu-Ka-Humbi lhe tinha ligado. Enquanto conduzia, sentia-se muito preocupado com a recepção dela quando chegasse a casa.
Accionou o comando da porta da garagem, ela não se moveu. Saiu do jipe e foi para a porta de entrada. Estava lá um anúncio.

PROCURA-SE!
Jovem solitária e muito sensual procura jovem honesto para noites inesquecíveis. Guarda-se sigilo.

Experimentou abrir a porta, mas não conseguiu. Resignou-se e pensou em dormir o resto da noite no jipe. Quando se preparava para isso lembrou-se que geralmente as mulheres costumam esquecer-se sempre de um pormenor. E é sempre bom ter um homem ao seu lado para colmatar esses lapsos. Com um sorriso triunfal foi para a pequena janela que servia para arejar o ginásio. Estava fechada apenas com um ligeiro trinco interno. O gradeamento estava aberto por esquecimento. O porta-bagagens do jipe tinha um saco de lona com diversos utensílios. Retirou um arame de aço, dobrou-o a custo na ponta deixando-lhe um intervalo e enfiou-o pela borda da janela até conseguir encostá-lo no trinco. Puxou e a janela abriu-se. Penetrou com dificuldade… e já estava em casa.  Movendo-se quase como um gato abriu a arca congeladora e retirou um bocado de gelo que achou suficiente. Tirou do refrigerador um bocado de manteiga que colocou num plástico. Silenciosamente dirigiu-se para o quarto dela e deixou o gelo e a manteiga na cama junto às suas nádegas.

Ele acordou assustado com o grito dela. Dava-lhe vontade de ecoar risadas fortes mas conteve-se. Recostou-se e voltou a adormecer feliz.
A meio da manhã ele assistia a um filme na parabólica. Ela entra muda e com ar muito sério. Ele calmamente saúda-a:
- Querida, espero sinceramente que tenha dormido bem.
Ela lançou-lhe um olhar de ódio. Ripostou com dureza:
- Mukaji é muenió? (Tua mulher é essa mesmo?)
- Só gosto de uma mulher.
- Akaji. (Mulheres, amantes, esposas, amigas?)
Ele tentou cativá-la:
- Querida, acho que está uma bela manhã para trovar.
Ela foi para a cozinha e ouviu-se o som de pratos e panelas que pareciam voar.
Ele sabia muito bem que quando uma mulher está com ciúmes não adianta falar-lhe. É que as coisas complicam-se. Por isso escudou-se no mutismo. Ela seguiu-lhe o exemplo e não se falaram mais. À noite, enquanto ele jantava, ela aproveitou-se do interlúdio e embrenhou-se no quarto dele.
Levava um frasco com perfume ao qual juntou água com jindungo préviamente moído e coado. Aspergiu o lençol e por baixo do travesseiro da cama dele com quantidade quanto baste.  Disfarçou colocando outro lençol por cima.
Enquanto aguardava que o sono chegasse, ocupou-se a arrumar as suas roupas. O sono veio e deitou-se. Minutos depois foi a vez dele que retirou o lençol e sentiu cheiro forte não habitual a perfume. Disse para si:
- Aqui está a prova de que ela gosta muito de mim. Também gosto muito de ti querida.
Deitou-se satisfeito convencido de que tudo tinha voltado ao normal.
De manhã ela encontra-o na sala enxovalhado no sofá. Não dorme. Pelo aspecto vê-se que a noite não lhe correu nada bem. Os olhos estão vermelhos. Nota-se rubor em algumas partes do corpo. De vez em quando afasta a roupa dos órgãos genitais porque ainda sente ardor. Ela cumprimenta-o com o ar mais cínico possível:
- Querido, estou convicta que a noite foi muito agitada para si.
Ele quase não sentia forças para falar. Fixou o olhar triste no tecto. Ela fez-lhe um pedido veemente:
- Querido, sinto-me muito desconfortada, porque não me canta uma trova?

Imagem: o feitiço da bebida, “caçada” no Facebook