quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

DIÁRIO DA CIDADE DOS LEILÕES DE ESCRAVOS. 30 de Dezembro a 09 de Janeiro de 2013




30 de Dezembro
Mais um avião lotado de chineses chega ao aeroporto de Luanda. São entre duzentos a trezentos passageiros chineses. Não se compreende o porquê desta avalancha chinesa, desta invasão. Isto não cheira nada bem, até porque se fala já em um milhão de chineses em Angola. Tanta gente para quê? Para a desestabilizar, escravizar apoiados na nossa desventura proverbial de governação? Estas coisas nunca acabam bem, refiro-me a estrangeiros ocuparem um país. Angola continua a ser uma incógnita do futuro.
Houve-se terrível barulho. É o habitual carro das maratonas que desencaminha a juventude para o desastre alcoólico, para a desgraça de Luanda. Mas não, é pá!, oh! Esta não! É o carro da igreja universal a publicitar nas ruas para irem na Cidadela. Mais parece um novo partido político, tipo, JES-MPLA-IURD. E o carro torna a reaparecer mais duas ou três vezes, sempre numa descomunal poluição sonora e religiosa. Creio que Luanda também já é um gravíssimo caso de epidemia religiosa. E o Poder acoberta pois os dízimos são demais, bilionários e sempre se pesca algo muito substancial nestas pontes de rios de águas revoltas, pois onde há religião há comércio. Esta religião é um grande supermercado.
01 de Janeiro
Noite de ano novo? Por favor deixem-me dormir porque amanhã tenho que trabalhar.
E depois na Cidadela a tragédia aconteceu, pois onde há muito dinheiro, corrupção e desta religião, não há salvação. Foram muitos mortos, dezasseis, e muitos, muitos feridos. E o silêncio à volta disto mantêm-se porque Deus é muito discreto, nunca pune os causadores das mortes em seu nome. Há homens que inventam cada coisa. São os escravocratas ainda na proa do navio negreiro Ngola.
Pensamento: A quem crê no Senhor, tudo é dado. Menos inteligência. Autor desconhecido.
02 de Janeiro
A gatinha recém-nascida estava num passeio de uma rua refugiada na base de uma árvore. Não entendia o que se passava, qual era a acusação do mal que fez, porque crianças decidiram lapidá-la. Atiravam-lhes pedras decididos a acabarem com a sua curta vida, conforme os ensinamentos dos gloriosos libertadores revolucionários do homem novo.
Foi salva nos derradeiros momentos, pois a morte já se adivinhava porque a criançada (?) reforçou-se de munições e de mais tropas.
Chegada em casa e logo baptizada Pipoca, foi sanada de algumas escoriações, alimentada a biberão com leite, e colocada numa casinha apropriada para gatos, uma caixa de papelão com dois bocados de tecido. Depois de devidamente recuperada dos cuidados intensivos já queria estudar, andar pela casa, conhecer o mundo que a cercava e miava de contentamento.
Depois foi transportada para o quintal de uma tia, e lá naturalmente se desenvolvia.
Cerca de dois meses depois recebemos a notícia que outro grupo de criançada (?) lapidou-a. Deixaram-na a sangrar da boca, não resistiu à lapidação da morte.
Creio que uma sociedade onde as crianças matam animais indefesos sem dó nem piedade por pura diversão, não acalenta futuro, é por isso que matar seres humanos em Luanda é a coisa mais natural do mundo.
03 de Janeiro
Angola tem um cancro, e esse cancro é a igreja universal.
Claro, tinha que ser. A igreja (?) universal está na Rádio Queiroz, a Rádio da Igreja Metodista de Angola, a fazer lavagem da sua imagem. Atinge os píncaros do absurdo, então não é que a universal agora está a fazer-se de vítima? Que os culpados são os que faleceram, que há uma corrente contra que quer o julgamento popular, mas o Governo não deixa porque lhes apoia, etc. E que a partir de agora os bispos da universal vão mobilizar a Rádio Queiroz para bater o recorde de audiências.
04 de Janeiro
Afinal trançar o cabelo também faz feitiço? A jovem quando olhou para o espelho para ver o trabalho das suas tranças, e viu três pessoas que lhe estavam a trançar, mas era só uma, fugiu, e denunciou a trançadora de feiticeira.
Ouve-se bwé de tiroteio, o que será? Uma ida rápida à varanda esclareceu a dúvida. É fogo-de-artifício, de noite? A uma hora incómoda, vinte e duas horas. Será que os nossos únicos bilionários festejam mais umas transferências de milhões/biliões de dólares nas suas contas petrolíferas?
De um prédio caiu um meteorito, aí com cerca de meio metro e tal de comprimento e espessura escassa. Veio do quinto andar ou do terraço, por sorte não matou ninguém. É a segunda vez que acontece, a última foi quase há uns seis meses. É no prédio ao lado da Igreja Adventista do Sétimo Dia, na rua rei Katyavala, em Luanda, claro.
05 de Janeiro
Conforme anunciado por José Severino da AIA - Associação Industrial de Angola, na Rádio Ecclesia, afinal os chineses já foram expulsos do Congo-Brazaville, porque a pilhagem dos recursos marinhos era demais.
Lá se foi sempre outra vez a luz. A coisa é assim: no tempo do frio os cabos eléctricos congelam, e no tempo do calor derretem.
A energia eléctrica retornou às 22.04 horas.
Os fogos de artifício continuam.
06 de Janeiro
20.48 horas, a luz foi restabelecida. Por quanto tempo?
21.04 horas, outra vez, outro apagão. Quase quarenta anos nisto, até já ultrapassaram o recorde da incompetência.
22.27 a energia eléctrica regressou. Por quanto mais tempo?
03.10 horas. Acordo com o barulho da chuva que cai com muita intensidade, tipo dilúvio. O caudal foi poucas vezes interrompido até por volta das sete horas da manhã.
Há vários anos que quando chove em Luanda, o edifício sede da EDEL fica alagado, privando de energia eléctrica vários bairros que ficam às escuras. Porque será que até agora não se conseguiu resolver a situação? Negociata com os estragos?
06.00 horas. A luz apagou-se de novo. Houve inundação nos postos de transformação?
Os três gigantescos geradores do prédio do ex/ministro das Finanças, José Pedro de Morais, arrancam e inundam-nos de intenso barulho, e de fumo mortal. Aqui nesta cidade os escravos são para abater, para justificar a invasão de estrangeiros.
No noticiário das 12.30 horas da Rádio Ecclesia, saiu a informação de que o apagão deveu-se a um problema na linha de alta tensão entre Catete e a estação da Maianga. A EDEL diz que já está no terreno a trabalhar para repor a energia eléctrica.
Se a destruição do que resta de Luanda é um facto consumado, e já antes anunciado - previsível, pelos estudos de engenharia publicitados - pelas chuvas intensas, porque é que os biliões de dólares não tomam as medidas de precaução adequadas, atempadas? E porque se escondem teimosamente todos os desastres que atacam, destroem a cidade e a sua população?
07 de Janeiro
Luanda. SOS UNICEF. MORTE no banco millennium Angola. A um metro DO GERADOR e no prédio vivem crianças. Crime petrolífero, os seus pequeninos pulmões não suportam o veneno que vinte e quatro sobre vinte e quatro horas respiram. Este banco abriu agência na rua rei Katyavala, frente à ANGOP, espoliou o terreno, instalou super gerador nas traseiras do prédio e deixa-o ligado mesmo com a energia eléctrica da rede normal, o barulho e o fumo tóxico matam. A nossa fonte disse que têm que fechar as janelas, senão morre-se.
Escutei lamentações de residentes que pescavam no Mussulu, que desde que a família real privatizou o Mussulu, a miséria tomou-lhes conta. É que antes da privatização pescavam-se bons cachuchos e roncadores. Agora nada, só miséria, e que eles fazem de Angola a partilha dos escravos.
20.17 horas, a luz lá se foi, outra vez.
21.40 horas, a luz voltou, a energia eléctrica ou chamem-lhe lá como quiserem.
08 Janeiro
O banco millennium Angola mantém o seu gerador da morte em pleno funcionamento, dia e noite.
09 de Janeiro
O banco millennium Angola insiste na sua marca registada. Matar crianças, matar-nos,  para que Angola não tenha futuro, pois o neocolonialismo é-lhe indispensável.
Mas, se ainda há bem pouco tempo a amante petrolífera colocou mosaicos novos no seu apartamento recém-adquirido com os fundos petrolíferos, agora mandou parti-los e substitui-los por outros, último modelo? Ai este dinheiro do petróleo tão desprezivelmente abocanhado que só nos traz a certeza da escravidão da noite dos tempos.