quarta-feira, 5 de novembro de 2014

04-10Out14. República das torturas, das milícias e das demolições





Diário da cidade dos leilões de escravos

04 de Outubro
“Só queimamos carros de luxo.”
Só pode ser isso: O saque é de tal grandeza que até o limão desapareceu. Como habitualmente ninguém vêm a púbico explicar o porquê do fenómeno, só podem ser os chineses que o carregam para a China. Ou os portugueses que o sabotam para o exportarem para aqui, a exemplo do mais vulgar colonialismo. Não me admira nada que um destes dias carreguem com o Presidente para a China e no seu lugar deixem um chinês, ou um português. Pouco falta, não é?
05 de Outubro
Os povos dizem que há mais locais em Luanda onde queimaram mais viaturas.
Dois portugueses compraram cada um o seu extintor de incêndios e entregaram-nos aos seguranças com a recomendação: «Se eles incendiarem os nossos carros vão logo a correr apagar o fogo com estes extintores.»
Quando as riquezas de um país estão subjugadas por um escasso grupo de indivíduos nacionais e estrangeiros, que para se manterem no poder proíbem a divulgação dos macabros acontecimentos do dia-a-dia. E usam repressão violenta – até lhe chamam direito costumeiro – contra quem se lhes oponha ou denuncie as suas actividades ilícitas em todos os domínios, esse país vive permanentemente em tumultos, é muito desagradável para investimentos porque vive na revolta latente.
06 de Outubro
Pelos vistos a coisa é assim: prontos, já tenho dupla nacionalidade, em breve desembarco em Angola, a minha terra inesquecível, a coisa que mais adoro. Ah! E esse povo tão maravilhoso, tão fácil de dominar, de escravizar, enviamos-lhe uns contentores com comida para se calarem… que povo mais burro, e lá já digo: Esta Luanda é toda minha!
Política e religião são corrupção.
De um mwangolé: as ruas estão cheias de impulso. Impulso, é o nome popular que se dá aos saquinhos plásticos de uísque. É também popularmente conhecido por: Bebeu, tossiu, morreu.
Um segurança compadeceu-se de um amigo que não via há muitos anos, porque o amigo pediu-lhe para que ele lhe conseguisse um emprego como segurança na empresa. O segurança assim fez. Pouco depois o amigo e outros comparsas assaltaram a empresa e limparam-na. Vieram os polícias e perguntaram-lhe pelo amigo que misteriosamente desapareceu. Afinal o amigo era um grande bandido e o segurança não sabia. Foi preso e julgado sumariamente com a exigência de que pague cinquenta mil dólares como indemnização pelas coisas roubadas. Como ele não tem dinheiro, sentenciaram-no outra vez sumariamente à prisão perpétua. E lá está a apodrecer na prisão. 
Se isto não é incitamento à revolta e já uma república de ciganos, então o que é? O português desembarcou pela primeira vez em Luanda e foi para a empresa. Poucos dias depois despediu o chefe do laboratório, um competentíssimo mwangolé que mais tarde o tuga confessou que o despediu apenas porque não gostava da cara dele. Ora, isto é puro racismo! Depois, claro, como mandam as regras da malvadez dos FDP no país sem lei, mandou vir um português amigo ou familiar para o substituir que mal chegado proibiu os técnicos mwangolés de trabalharem, enviou-os tipo para as galés, só exercendo a actividade de carregadores como nos belos tempos coloniais. E uma portuguesa também chegou, talvez esposa de um deles, que não faz nada mas também é chefe. O propósito é bem claro: obrigá-los a fugirem da empresa para que venham mais portugueses e assim sucessivamente em todas as empresas até os tugas finalmente neocolonizarem esta merda. Mas, há sempre um mas, não é? Quando o pessoal do MAPESS aparece eles fogem, escondem-se porque… estão ilegais. Então isto é ou não incitação à revolta de consequências catastróficas! Muito brevemente estaremos escravizados por uma república de ciganos.
Os tugas são muito bafejados pela sorte, pois mal pisam Luanda logo descobrem minas de ouro, de diamantes e novos poços de petróleo. São os únicos, fantásticos!
07 de Outubro
Vivemos numa avalanche de dissabores, e quanto mais nos prometem, mais ela se fortalece.
Vivam os quarenta anos dos balanços sucessivos.
Da maneira que as coisas estão, é perfeitamente natural que nos próximos dias nos deparemos com um anúncio assim: grupo angolano fortemente implantado no mercado nacional, pretende recrutar: Presidente da República. Perfil do candidato: OBRIGATÓRIO – Nacionalidade Portuguesa.
Desabafo de um mwangolé: os portugueses andam em carros de luxo e nós a trabalharmos para eles.
08 de Outubro
Mais uma da implantação da escravatura em Angola. Nas empresas de segurança, quando um segurança falta um dia descontam-lhe três mil kwanzas. Noutras empresas na falta de um dia de trabalho são descontados ONZE MIL kwanzas. Há mais: e basta uma falta para lhe congelarem o salário.
09 de Outubro
Estão a nos brincar. Obrigatório: nacionalidade portuguesa. Do correspondente José Manuel, da Rádio Ecclesia em Benguela. No Cubal, província de Benguela, os camponeses foram espoliados – esta é definitivamente a república das espoliações - das suas terras para nelas construírem projectos internacionais agro-industriais. Houve revolta, violência, presume-se com tiroteio. Os camponeses lamentam-se que só lhes resta esperar pela morte.
10 de Outubro
Já se vê com muita facilidade que os chineses e os portugueses pretendem a todo o custo a nossa escravidão. Já dão os últimos passos para a sua concretização. Dentro de poucos dias será a sua legalização e a nossa ilegalização. É que os tipos aniquilam-nos com uma facilidade extraordinária.
Não esquecer que em Angola, construir uma fábrica de cerveja é um negócio da China porque a água é de borla, e como cerveja é quase só água.
E a grande invasão de Angola continua célere. E nós vamos para o desterro?
Depois de catorze dias sem falhas na energia eléctrica – uma incrível proeza, pois é muito raro acontecer em Luanda – hoje cegaram-nos com um corte das 21.54 até às 22.29 horas. Mais uma vez o gerador do banco millennium Angola na rua rei Katyavala, despejou fumo de tal ordem que pelas janelas não se via nada, fumo muito denso. Eles sabem que assim matam pessoas, a missão deles é exterminar-nos, e - desculpem-me – não vejo nenhuma diferença entre as mortes do Estado islâmico, EI, e as deste banco feitas pelos portugueses da Teixeira Duarte, que prestam manutenção. Muito mal vai a engenharia portuguesa, ou melhor, falsos engenheiros que nem trabalhar sabem, pois quem faz merda desta, não é, não pode ser engenheiro, e ganha os tais milhares de dólares e outras riquezas, que são a nossa pobreza. Morrer pelo fumo ou pelo EI, qual é pois a diferença? Nenhuma, pois ambos são actos terroristas. Luanda está terrivelmente uma cidade sem lei, governada pelo terror e quando isso acontece nunca se sabe quem será a próxima vitima. Os criminosos que aqui impõem a sua lei da morte também violentamente morrerão.
Uma vizinha das redondezas tem por hábito caçar criança na rua. Assim que vê uma, carrega-a e leva-a para casa não se preocupando em saber quem é o pai, a mãe ou outros familiares. Nesse modo de vida apanhou uma menina na rua e carregou-a para casa para lhe fazer de escrava, – o infeliz disso é que este costume está muito viciado nesta sociedade, que só tem isso de nome, pois de sociedade já não tem nada – e assim a pobre menina já com os seus sete, oito anos lá trabalhava, tomando conta de um filho doente da raptora que não conseguia fazer as suas necessidades, e a menina tinha que o limpar dos dejectos, e se não o fizesse apanhava pancada. Mas um dia conseguiu fugir. O seu pai apareceu a pedir contas à malvada senhora raptora. Ela refugiou-se alegando que a criança estava abandonada e que apenas a recolheu em casa. Mas o pai – um paz de alma - ameaçou-a para que nunca mais fizesse isso, e que se tivesse conhecimento de que a raptora voltasse ao mesmo ignóbil caminho a denunciaria e acabaria com a sua vida para sempre. Os vizinhos testemunham que ela anda muito sossegada, com medo, e quando vê alguma criança na rua, olha-a com vontade de a raptar, mas parece que não tem coragem.

Imagem: autor desconhecido