domingo, 2 de novembro de 2014

Um só petróleo e uma só bandeira





Era um povo que há muito vivia em democracia, pois convivia com muitas bandeiras e com várias correntes de opinião. Havia muitas erupções de um líquido negro a que não davam muito, ou nenhum valor. Nos rios, os peixes e outras espécies marinhas abundavam de tal modo que – pode-se dizer – bastava um soco para se apanharem peixes que logo apareciam brasas para os assarem. Os campos estavam inundados de vegetação frutícola e hortícola que os deuses há muito legaram. As crianças brincavam, saltavam e chapinavam nos lagos paradisíacos como no Éden. Tudo estava ali à mão para satisfazer a felicidade do povo na sua terra bendita e acolhedora. Quando chegavam visitas havia festa que durava muitos dias, ou meses.
Até que um dia um helicóptero aterrou. A criançada em louca correria gritava e os mais pequeninos exclamavam: «Olha, é um ptopodo, é um ptopodo!» Um mais velho acercou-se dos tripulantes, quatro europeus, cumprimentou-os e apreensivo perguntou-lhes o que desejavam, sabendo de antemão no íntimo que não estavam ali para boa coisa. «Bom-dia! Andam á caça?» Os europeus corresponderam-lhe com o bom-dia e negaram que andavam por ali à caça. Foram directos ao que lhes interessava, dizendo que do ar viam-se claramente manchas que anunciavam petróleo por todo o lado. E que foram enviados pelos poderosos Ordens Superiores para negociar a futura extracção do petróleo, garantindo para já alguns milhares de dólares e que mais tarde seriam muitos milhões. O mais velho respondeu-lhes o que faria o povo com esse dinheiro, pois que não sabia como o utilizar e que naturalmente acabariam na bebedeira, e que há muitos e muitos anos viviam em paz com a natureza e nada lhes faltava. Mas os enviados das Ordens Superiores não estavam para muitas conversas e logo ameaçaram: «Bom, aceitem ou não, têm três dias para saírem daqui, pois que virão forças poderosas para demolir tudo o que vos pertence, pois ninguém fala mais alto que o petróleo. Ah! E a partir deste momento retirem todas essas bandeiras e coloquem apenas esta vermelha e preta que é o símbolo da paz. Incrível! Então não sabem que no califado só há lugar para uma bandeira? Bom, os camiões já estão preparados para os carregarem para a nova centralidade do Zango. Aquilo lá é muito bonito, não falta nada, e vive-se aprazível ao relento.»
E veio um poderoso exército comandado por três generais para escorraçar tão escassa população. Não se poupava nada nem ninguém. E o mais velho bradou: «Nesta república de uma só bandeira só restam escombros e farrapos»