domingo, 16 de novembro de 2014

A paisagem das crianças abandonadas sem lugar assombra-me o cavalgar



A tempestade era intensa e as ondas do mar pareciam um corcel sem domador. Mas mesmo assim embarcámos no nosso navio do amor dispostos a enfrentar os poderes da Natureza, pois há muito sabíamos que nada, ninguém vence o poder do amor. Sim, os poderes da natureza e do amor são invencíveis. 

Quando o amor se solta ninguém o prende
E parece que até hoje isso ninguém aprende
Receio que muito poucos saibam amar
Porque o amor não está nos copos de um bar

Quando estamos presentes todos os dias na companhia da pessoa amada o amor fica como de abalada. Mas quando nos ausentamos, do nosso amor nos afastamos, carregamos o peso da nostalgia dessa pintura e ao olharmos para as paisagens que nos rodeiam facilmente vemos que elas nos acenam com tristeza. Há como que uma intensa actividade eléctrica que em tudo interfere. Quando os circuitos do amor se interrompem não há fusíveis que os reponham pois facilmente se fundem. Do amor não nos podemos afastar demoradamente, pois se o fizermos ele nos repudiará premente.

No amor sem carris os comboios não circulam
Ficam pejados de corações que neles deambulam
Como um navio que sulca o desconhecido mar
Navio fantasma com passageiros do além-amar

O vento forte dos promontórios agita a tua beleza enquanto o teu cabelo ondula oprimido. Escuta-se o tremor da água que furiosa quer libertar-se dos carcereiros das prisões das paredes de pedra. Há milénios que o fragor desse som nos persegue, nos apela que salvemos as ondas que desejam às outras dos seus amores no alto mar se juntar.

Há muitos tempos que não te vejo
Conservo incólume o nosso desejo
Estou num castelo muito distante
Como Lancelot no amor errante

Muitas crianças assombram-me o cavalgar
Dos seus corpinhos abandonados sem lugar
Vítimas dos abates dos funestos caçadores
Com hipocrisia lhes chamam meus amores

Foto: Carmen dos Santos (Carmen Cardin)