terça-feira, 18 de novembro de 2014

O PARAÍSO PERDIDO A OCIDENTE (13)



Imagem: Concelho de Alcobaça. Monumentos…

Mostrou um texto cujo título era, 101 Perguntas a um Guerrilheiro, por Alberto Bayo. Explicou que se tratava de um guerrilheiro do PAIGC que foi apanhado e interrogado pela Pide, onde os elementos fundamentais da sua acção consistiam no uso de uma corda que permitia aos guerrilheiros a sua sobrevivência. Demonstrava sobretudo que o uso dela era uma peça muito importante na luta de guerrilhas, e que Portugal seria vencido na guerra contra a Guiné. O Zé Luís acrescentou:
- Nem tudo está perdido. Resta-nos a CDE-Comissão Democrática Eleitoral do Francisco Pereira de Moura, contra a UN-União Nacional dos fascistas...
Quitério interrompe:
- A CDE nunca ganhará nada. Até já estão a invadir as suas instalações e a confiscar os panfletos. A prender e a interrogar alguns candidatos. Bom, o que resta fazer é darmos o salto para a Suécia para fugirmos à guerra colonial, e lá no exílio continuarmos a nossa luta contra o regime. Mas de qualquer modo com a actuação da CDE, eles ficam a saber que afinal existe oposição e de quem se trata. Só que depois não terão grande espaço de manobra e posteriormente serão bem vigiados e condenados a viver na miséria e na perseguição. Qualquer pretexto servirá para os eliminar.

No dia seguinte o Quitério arrastou-me, explicando que era necessário que eu o acompanhasse para que me inteirasse do que se passava no país e assim aprender a luta dos estudantes. Havia uma reunião de protesto contra a guerra colonial no Instituto Superior Técnico. Quem entrava era vigiado para detectar possíveis infiltrados da Pide. Lá dentro os oradores expunham as suas opiniões. Eram unânimes em condenar a guerra colonial e que o poder devia ser entregue a esses povos. Quatro Pides, sempre trajados à civil apareceram e encerraram a reunião. Depois de todos saírem ficaram no portão de entrada. Nos próximos dias os estudantes como forma de protesto boicotaram as aulas.

Numa tarde sem história, concentrado na leitura no café do Frederico, o Mota e o Quitério apareceram. Mandaram vir dois cafés. Depois perguntaram-me se queria ir com eles à Cidade Universitária assistir a um convívio de baladas. Claro que disse que sim.
O local onde os baladistas se exibiriam era amplo. Estava lotado. Conseguimos lugares em pé. O tema das baladas era a canção de protesto. Os primeiros a tocar foram o Duo Ouro Negro. Tocaram e cantaram duas músicas do folclore angolano. Uma delas falava de uma serpente. Alguém comentou:
- Estes gajos vieram aqui fazer o quê? Falar sobre uma serpente o que é que isso tem a ver com a nossa luta?
Creio que poucos gostaram da sua actuação. Quando surgiu Adriano Correia de Oliveira foi o delírio.

Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu país
E o vento cala a desgraça
E o vento nada me diz

Uma poesia tão elucidativa. Bem tocada e cantada que encantava os nossos corações, e as nossas almas sedentas de justiça e liberdade. E noutra composição.

- E as armas não lavram terra…

Todos batemos muitas palmas. Agradecemos e incentivámos a sua luta por um Portugal livre da opressão.
A seguir… Zeca Afonso. O barulho com que foi recebido parecia que o edifício desabaria. Já o conhecia pela balada do Menino de Oiro dos seus tempos de Coimbra. Mas Zeca já não era o mesmo. As suas composições agora eram um desafio directo ao regime. Extremamente vigiado pela Pide receei que a polícia de choque surgiria e nos atacasse à bastonada como era hábito. Quando isso acontecia comportavam-se como verdadeiros cães raivosos. Mas estranhamente não apareceram. E o Zeca a avisar:

Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras.

Zeca, claro, era muito inteligente, senão vejamos o coro:
Pam pará pi pam pam. Pam pará pi pam pam. Que traduzido significa: Vão parar à Pide vão. Vão parar à Pide vão, vão vão vão! O Zeca achincalhava o regime sem que eles se dessem conta. As suas actuações eram efectuadas em segredo, sem publicidade, porque senão toda a polícia de choque aparecia em força e o espectáculo não seria realizado. Assim como veio, também foi discretamente.
Isto deu-me uma ideia. Porque não criar uma antologia pessoal da canção de protesto? Comprei alguns cadernos escolares e escrevi neles tudo o que se relacionasse com tal tema. A certa altura dei-me conta que os cadernos que comprei já não chegavam. Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Luís Cilia, Manuel Alegre, Fiama Hasse Pais de Brandão, Manuel Freire, Padre Fanhais etc.

A surpresa veio com o meu pai. Um passageiro conhecido vindo de Paris, perante a insistência do meu progenitor entregou-lhe uma encomenda, os Fados de Adriano Correia de Oliveira. Inicialmente o meu pai pensou que eram de facto os tais fados do nosso ancestral sebastianismo do qual não conseguimos nem ousamos sair, como que petrificados no tempo, acariciados pelas trovas do vento que passa. Mas quando verificou que os fados eram outros, entregou-me o LP. Corri a informar os meus amigos. O primeiro, claro, foi o Quitério. Convocou a maralha dizendo que era uma surpresa. O seu quarto era pequeno. Passámos vários dias a escutar os “fados”. O som não podia estar muito alto porque era um disco proibido e todo o cuidado era pouco. Depois outra surpresa. Pela mesma via veio os Cantares do Andarilho, do Zeca Afonso. Quitério como sempre explicava.
- Este também está proibido. Temos também de o ouvir com muito cuidado. O Zeca é o homem mais vigiado deste país de merda. Sabem como é que ele gravou este disco? Foi na sua casa. Colocou cobertores nas paredes por causa do som. Foi gravado às escondidas.
Alguém interrompe:
- Ele é um grande comunista!
- Sim é verdade, é um grande comunista. Mas que nos interessa isso? Ele é um grande poeta e um grande músico. Percorre o país. Até sobe montanhas para recolher músicas do nosso folclore. Nunca se esqueçam que as ditaduras são um perigo para a civilização e os impérios nascem e morrem. – Finalizou o Quitério.