sábado, 19 de dezembro de 2015

O Cavaleiro Luaty e Mana Laurinda na Demanda da Santa Corrupção (10)



Caminhando para o triste fim do continente da fome. Há cerca de duas semanas a lata de atum de 185 gramas estava a duzentos kwanzas, parecia que se manteria nesse preço. Poucos dias depois subiu para duzentos e cinquenta kwanzas, também durante alguns dias parecendo que nesse preço assim ficaria. Mas, ó espanto, há quatro dias numa cantina já estava a trezentos e noutra bem próxima a trezentos e cinquenta kwanzas. No dia anterior o montinho de carapau estava a mil kwanzas, hoje já custa dois mil. Esta da alface creio que é o máximo, aconteceu no minimercado Pomobel na rua rei Katyavala. Habitualmente ficava pelos trezentos kwanzas, hoje passou para setecentos. Um vulgar chouriço que antes, pode-se dizer, tinha um valor “irrisório” hoje também no mesmo minimercado ficou pelos setecentos kwanzas.  
Nota-se claramente que não há a mínima preocupação em salvar a população, e sem ela não há nação. Ganhámos foros de dizimação.
Num país que julga presos políticos, no mercado do Quicolo, no Cacuaco, arredores de Luanda, é hábito os polícias logo de manhã bem cedo mandarem parar os carros que circulam nessa área e cobrarem aos condutores cem kwanzas, como se fosse uma espécie de taxa. E assim a justiça está a aterrar para jamais voo levantar.
O cavaleiro Luaty continuava, o seu protesto lavrava a quem o encarcerava. Mas daí não obtinha nenhuma mais-valia porque a justiça estava uma razia. Nas mãos do Grande Inquisidor jazia. De facto e de jure a nação estava em agonia. Como resposta aos protestos de inocência que toda a gente via, inclusive a grande movimentação internacional de condenação, só a justiça se mantinha no seu rumo inalterável fora-da-lei. Um carcereiro chegou na cela do cavaleiro e disse-lhe que o seu pedido foi bem considerado pelo director da prisão que o agraciou com a sua clemência, como mandam os ditames da justiça. E mostrou-lhe um comunicado vindo do gabinete do Grande Inquisidor, pois que sem ele nada é possível, até para fazer filhos é necessária uma sua autorização especial, uma vez que, convém recordar, foi eleito pela Igreja e pelas igrejas e demais organismos e países guardiães da corrupção internacional. A propósito disto, já se conjecturava o grande prémio internacional da corrupção a Angola pelos seus valiosos contributos e incentivos neste domínio, que diga-se de passagem não existe em mais nenhuma parte do mundo. E o carcereiro leu o comunicado:
Gabinete do Grande Inquisidor para os assuntos dos golpes de Estado.
Comunicado
Convindo aclarar e legalizar a situação do golpista cavaleiro Luaty, este gabinete reunido especialmente para esse efeito, deliberou conforme a lei em vigor e de acordo com a sua mãe Constituição, e mais juízes do gabinete na sombra deliberaram o seguinte: Único: o cavaleiro Luaty viu a sua pena comutada e substituída para a prisão solitária onde nela permanecerá por tempo indefinido. Convém notar que este acórdão será objecto de mais severidade se o réu assim o merecer, isto é, se o entender.
O gabinete do Grande Inquisidor
Como sempre não havia nenhuma assinatura, não vá o diabo tecê-las.
“Angola é um país maravilhoso.” É sim senhor, as sanguessugas que o digam, mas para presos políticos não.
“José Emanuel. Boa tarde, recebi uma oferta para trabalhar em Angola numa escola básica. Quais as condições para aceitar? Agradeço a vossa ajuda.
Liliana Santos. Com apenas uma viagem a Portugal e com visto ordinário, deve ponderar bem se quer embarcar nessa aventura... Mas também é verdade que se estiver desempregado e sem perspectivas de outras oportunidades, 3 meses de experiência (validade do visto ordinário) não matam ninguém. E eu continuo a dizer que Angola é um país maravilhoso, à parte de todas as dificuldades actuais!
Filipa Almeida. Procuramos Candidatas Portuguesas que estejam em Luanda, educadoras de infância/ professoras para trabalhar como nanny interna. Temos vários pedidos de famílias locais. Salário 3000€ pagos em euros. Enviar cv para: nannyportugal@nannyportugal.com
Maria Luisa Figueira Figueira. E professores portugueses a residir em Portugal?
Nuno Ferreira Mendes. Também podem vir... É comprar o bilhete, alugar casa... e já estão a residir em Angola.”
Entretanto a gigantesca lavandaria de dinheiro lavava os dólares que desapareciam misteriosamente dos bancos, que juravam a pés juntos que não os tinham, dólares do banco central não recebiam. Claro que não, porque no banco ao ar livre do bairro Cassenda em Luanda, próximo do aeroporto internacional 4 de Fevereiro, lá estavam eles… em poucas horas aos milhões capitaneados por chineses, senegaleses, malianos e libaneses.
Na solitária, o cavaleiro Luaty conseguiu arranjar amizade com um rato. Tentou com algumas baratas mas desistiu porque as sacanas lhe sugavam o corpo nas partes mais húmidas. Assim quando recebia a sua comida confeccionada não se sabe onde e por quem, sempre sob a suspeita de envenenamento praticado sob a forma de morte lenta, o nosso lutador da liberdade e democracia a sua vida a encurtar via, porque a comida que os seus familiares traziam não era autorizada sob a alegação de que poderia conter alguma arma escondida. Amigos ou quaisquer outras pessoas também estavam superiormente não autorizadas, consideradas como persona non grata, ou personae non gratae.
A TGI, Televisão do Grande Inquisidor, insistia que vivíamos no paraíso porque amiúde passava imagens de sonho, de extraordinária beleza, de rostos de crianças e adultos nos mais diversos domínios da vida diária onde se mostrava um povo que vivia na extrema felicidade. Aquilo era mesmo o paraíso bíblico, não se via o mínimo sinal de miséria, de fome. Parecia que as pessoas eram todas abastadas, nadavam na riqueza. Mas quando se olhava para fora do ecrã arrepios percorriam as nossas almas, ao ver nas costas das mães que como que vagueavam nas ruas com criancinhas carregadas expostas ao calor infernal e à chuva que incessantemente caía como um castigo divino anunciando a vinda do Senhor, conforme acreditado e jurado pelos crentes da Igreja e das igrejas, na actual quase vã tentativa de vender alguma coisa, porque conseguir ganhar cem kwanzas era um milagre. Pareciam almas condenadas à morte por qualquer punição inventada a exemplo dos presos políticos. A fome campeava por todo o lado e a cada dia mais se agravava, e muito longe estava quem a poderia solucionar. Nos muitos palácios onde a classe dirigente residia apenas se discutia e se autorizava a política partidária, fazendo finca-pé dessa actividade o slogan: o mais importante é destruir o povo.
O CAOS, corruptos angolanos organizados em sociedades, puseram-se em todos os seus campos, especialmente na imprensa televisiva, falada e escrita. Era um lamiré daqueles, o CAOS ordenou a criação de subcomités para mais facilmente atacar os presos políticos, os partidos políticos da oposição e demais opositores e críticos especialmente aqueles que não eram do seu agrado. Que os presos políticos eram os culpados pelas chuvas diluvianas que faziam desaparecer o que restava da antes considerada cidade mais bela de África. Que também eram os culpados da fome e da miséria. E que os actuais e baixíssimos preços dos crudes petrolíferos que originaram a devastadora crise económica que faz com que Angola desapareça a exemplo dos demais países africanos, também aos presos políticos lhes é atribuído, porque eles receberam vastas somas de dólares para desestabilizarem Angola, o seu governo e o mais grave, o seu presidente. Contas feitas, os presos políticos são bodes expiatórios de dezenas de anos do fingir que se governa, a disseminação da miséria e da fome vigentes que arrasará – já arrasa – de vez a nação angolana.
E eis que surge junto a um dos portões fortificados da cidade sitiada por estrangeiros e pela nomenclatura, a mana Laurinda.

Imagem: Imagem: Setenta anos da Coreia Do Norte. ELPAIS