sábado, 26 de dezembro de 2015

O PARAÍSO PERDIDO A OCIDENTE (20)



Já estava completamente restabelecido, e alguns colegas que vieram ver-me disseram-me que tive sorte porque adoeci no fim da especialidade. Caso contrário teria que a repetir. Aliás esse era o meu receio. Como havia um enfermeiro que nos facilitava a vida a troco de uma gorjeta apeteceu-me beber cerveja, que aqui era a Super Bock, que podíamos afirmar era a cerveja nacional do Porto. Também pedi um prego. Quando a encomenda chegou, depois de comer e beber senti-me quase como novo. Impacientemente aguardava o dia da saída, o que aconteceu. No regimento fui informado dos últimos acontecimentos. Dentro de poucos dias acabaria a especialidade. Depois disso seria enviado para outro local. Entretanto veio a ordem de mobilização. O meu destino seria Angola. Mas antes faria parte de uma companhia que já estava a ser formada em Santa Margarida.

Dupla ironia do destino. Santa Margarida ficava próximo do Tramagal. Antes enviei uma carta à Belita. Aparentemente mostrou satisfação, mas eu mantinha as minhas reservas. Apesar de tudo era minha prima. Dir-se-ia que a proximidade era para me despedir dela. A outra ironia era o Mota para Moçambique, o Quitério para a Guiné e eu para Angola. Será que a Pide sabia do nosso relacionamento e enviou cada um para um local distante para que não pudéssemos estar juntos? Ou foi apenas mera coincidência? Talvez que nunca o saiba.

Mais quinze dias de campo a viver em tendas para nos prepararmos – como diziam – para a guerra em Angola. Despedi-me da Belita e do seu namorado, que sabedor da nossa relação não a deixava um só momento. Ele evitava falar comigo. Na presença da minha tia durante um momento em que estivemos sós, ela chamou a atenção da Belita dizendo que não gostava nada dele, e que me preferia. Que não iria dar muita atenção a esse homem porque era muito maldoso.

Acabadas as despedidas o navio Vera Cruz estava atracado, à nossa espera para mais uma viagem rumo a Angola. Fui promovido a 1º Cabo radiotelegrafista devido aos testes finais. Antes fui à praça do Cais do Sodré e comprei uma grande quantidade de caracóis pequenos e grandes, - as caracoletas - os orégãos e uma caixa de camarão que pessoalmente cozinhei para todos, como sendo a despedida final.
O meu pai e a minha mãe faziam questão de ir ao embarque. Recusei e expliquei que isso me entristeceria muito. De facto quando o Vera Cruz lentamente iniciou as manobras para se libertar e encontrar mais espaço para navegar, uma multidão na amurada saudava com lenços brancos agitados ao vento, no que era correspondida por outra em terra. Isto fez-me lembrar os navios bacalhoeiros que partiam na sua faina para a pesca do bacalhau.

Soube depois que o destino em Angola era São Salvador do Congo. Mas não era verdade. Por motivos de segurança quando se questionava o nosso destino a resposta era essa. Confesso que gostaria de ver os meus pais em terra. Não resisti e as lágrimas vieram-me aos olhos. Será que nunca mais os verei? Uma grande tristeza se apoderou de mim. Quando voltaria a ver a minha acolhedora casa? Os meus irmãos e irmãs? Os meus amigos? Enfim, tudo abandonado pela força das circunstâncias. Até quando? Mas que mal fiz eu? Apenas pretendia estudar. Ler muito e com isso satisfazer as minhas dúvidas constantes. Sentia-me muito feliz com isso. E para onde ia não existiam livros.

Os dias passavam e o Vera Cruz prosseguia a sua rota. A bordo nada havia de realce a assinalar. A rotina era confrangedora. Um dos nossos furriéis informou-nos que quando chegássemos à zona do Equador sentiríamos a mudança devido ao calor. De facto assim foi. O calor instalou-se a bordo. Quanto mais navegávamos mais sentíamos o desconforto, devido à humidade que se colava nos nossos corpos. Luanda estava próxima.


CAPÍTULO IV
A GUERRA


Luanda, Angola 9 de Agosto 1971

Atracámos. As escadas fazendo lembrar uma ponte levadiça desceram. Enquanto poisávamos em terra, algumas senhoras do Movimento Nacional Feminino ofereciam-nos um estojo composto de um isqueiro, que era famoso pelo nome –Ronsom da picada – um pincel e um tubo com creme para a barba e algumas lâminas que cortavam tudo menos a barba. Depois de uma curta viagem até ao Grafanil ficámos à espera do MVL-Movimento de Viaturas Ligeiras, efectuado por civis que em camiões nos levariam ao destino. As camas eram de cimento quase ao ar livre. O desconforto era evidente.

Os camiões chegaram. Mais uma viagem. O destino era Quibala do Norte. Fui num camião junto com a minha bagagem. Arranjei um local para me sentar em cima da carga. Instalei-me o melhor que era possível. Parámos no Caxito. Fiquei surpreendido com a quantidade de crianças que nos pediam algo. Atirei-lhes com alguns pacotes de bolacha da minha caixa de ração. Prosseguimos viagem. A paisagem até ao destino tinha capim muito alto. Vi pela primeira vez os misteriosos embondeiros. O asfalto já terminara, passámos por mangueiras cujos ramos batiam na viatura. Aproveitei e colhi muitas que ia comendo pelo caminho. Agora eram picadas que constantemente faziam baloiçar o camião. Continuar sentado tornava-se um incómodo. À medida que penetrávamos pelo mato denso comecei a pensar que estávamos em terra de ninguém, porque não se divisava nenhuma habitação nem ser humano. E se rebentasse alguma mina? Ou podíamos ser atacados porque este local era ideal para isso. Instintivamente segurei com mais cuidado na G3. Concentrei-me nos barulhos e nos movimentos da vegetação. A viagem nunca mais acabava. Ia literalmente todo partido. Muito cansado. Finalmente chegámos. Durante um horrível ano esta seria a minha nova casa.

Imagem: Fiorella Matteis