sábado, 26 de março de 2016

DIÁRIO DE UM FAMINTO (03)



26 de Fevereiro de 2016
De manhã faço chá com as cascas que houver de bananas, laranjas, limão, maçãs, mangas. Coloco-as dentro de um recipiente com quase metade de água de um copo normal, desses com cerca de três decilitros, depois de ferver despejo numa chávena e junto-lhe o resto que ficou no copo de água. Adiciono uma colher de chá com açúcar, se o houver porque aqui na cantina está a seiscentos kwanzas o quilo.
Hoje almocei arroz com arroz. Graças ao Mpla a nossa fome é certa.
Algumas vizinhas disseram que o jantar delas será pão com chá, hoje algumas, amanhã e dias seguintes muita gente.
Imaginem um país com uma população analfabeta. É como viver na Idade da Pedra.
Desabafo de uma mulher-polícia: «Quem me dera ser outra vez criança, davam-me tudo, brincava à vontade. Suspira e continua: do que aturar as tristezas da terra.»
De um segurança, dos que seguram as corruptas riquezas dos outros porque a fome ninguém a segura: «Nas casas das minhas três mulheres há muita fome. Não têm nada para comer.»
E o nosso governo sempre atento às necessidades mais prementes da população, criou mais um ministério – são tantos, tantos que esvaziam os cofres públicos – chamado de Ministério da Família e da Promoção da Fome.
27 de Fevereiro
Os conselhos do grande escritor Ray Bradbury, (1920-2012) do Fahrenheit 451. “Bradbury não foi para a faculdade, porque ele não tinha dinheiro para isso. Entretanto, ele ia para a biblioteca religiosamente e lia tudo o que podia pegar; ele informa que se “formou” da biblioteca com a idade de 28 anos. A próxima coisa que Bradbury recomenda é que você despeça todos aqueles amigos que não acreditam em você, e que zombam de suas aspirações de se tornar um escritor. Se alguma garota não gosta do que você está fazendo, Fora de sua vida! Se seus amigos zombam de você, Para o inferno com eles. Fora! Eu passei três dias por semana, por 10 anos, educando-me na biblioteca pública, e isso é melhor do que faculdade. As pessoas deveriam educar a si mesmas – você pode obter uma educação completa por zero de dinheiro. Ao final de 10 anos, eu tinha lido todos os livros da biblioteca e tinha escrito mil histórias. Você não pode aprender a escrever na faculdade. É um lugar muito ruim para escritores, porque os professores sempre acham que sabem mais do que você – e eles não sabem. Eles têm preconceitos.”
28 de Fevereiro
Para os nossos presos políticos, para todos os presos políticos.
“Eu o alertei, Leonardo, (Leonardo da Vinci, (1452-1519) sobre passar dos limites. Você pensa que a vida é um jogo, mas os chacais de Roma já decidiram seu destino. E como têm influência na multidão, vão deixar-lhe apodrecer na cela até que seus sentidos já reduzidos sejam todos corroídos. … Quanto mais atrasarmos este processo, mais envergonharemos Lorenzo (Lorenzo Medici, chefe da cidade. Os Medici eram poderosos banqueiros de Florença, gastaram muito dinheiro na arte e no suporte financeiro a muitos artistas.) perante o povo. E quanto mais da Vinci apodreça na cela, mais sua mente se degenerará e mais culpado ele parecerá … regimes moribundos debatem-se dramaticamente na sua agonia.” In Da Vinci’s Demons. Quinto episódio da série televisiva, primeira temporada.
29 de Fevereiro
Hoje consegui juntar ao arroz algumas rodelas de chouriço.
Perante tanta injustiça, muita justiça há para fazer.
Ainda me lembro do meu filho quando há vários anos foi parar no Hospital Josina Machel, em Luanda, para uma transfusão de sangue, devido a febre tifóide, hepatite e paludismo, salvo erro era isso tudo. Não havia sangue, a coisa estava a ficar muito preocupante, até que alguém sussurra que há sangue sim senhor e que bastam dez mil kwanzas. E assim foi, mostrou-se o dinheiro, o sangue apareceu e o meu filho salvou-se.
01 de Março
O arroz continua a sua marcha triunfal, estomacal e graças, porque se não fossem as netas que carregaram com um saco de 25 quilos, nem isso teria.
Estou convicto de que brevemente Angola conquistará o muito merecido prémio do país mais corrupto do mundo.
Quando alguém está no erro, e chamando-lhe a atenção nele teimosamente persiste, não há nada nem ninguém que o possa salvar. E quando se trata de um governante essa persistência no erro arrasta funestas consequências, um infindável cortejo de mortos.
02 de Março
A miséria, a grande inspiradora e grande conselheira da fome. Não se vê, nem se verá melhorias. Graças a uma vizinha, hoje juntámos ao arroz o peixe que ela nos deu. Os dias são muito tristes, só penso em bazar porque corro o grande risco de morrer por aqui à fome.
E os partidos da oposição continuam com a sua intervenção ocasional sobre as aflições do povo angolano. De vez em quando na Rádio Despertar atiram umas bocas e vão-se embora. Não entendo o porquê desta oposição “burra” não conseguir fazer um comício sobre a fome.
“Defendida expansão do ensino superior e mais emprego para a juventude.” Li isto na TPA, a televisão partidária de Angola. Mais parece propaganda hitleriana. Ainda falta muito para isto acabar?
03 de Março
Os custos de produção não suportam o preço de venda e Angola armazena petróleo à espera que o preço suba. O armazenamento está a chegar ao fim e os poços de petróleo a fecharem. E totalmente dependente do petróleo, a corrupção que o diga, não será possível, pior, isto é, já não dá para sobreviver no capim de Angola. Preparem as malas pois está na hora de bazar. Ou muito pior dito: o fim da grande catástrofe está a um passo. Perante o descalabro económico, financeiro, social e político, creio que haverá mais uma ponte aérea para evacuar portugueses.

O jornalista da Voz da América, VOA, Manuel José, quando em serviço no zango 1, Viana, arredores de Luanda, foi confundido com um marginal. Apesar de dizer que se podia identificar, algemaram-no e levaram-no para a esquadra da polícia e lá ficou uma hora considerado como um marginal altamente perigoso. As autoridades descobriram que foi preso por engano e soltaram-no com pedidos de desculpas. Há um ano que tal aconteceu, escreveu para todos os órgãos de justiça e outros da comunicação social, só o silêncio da justiça de olhos vendados lhe respondeu. A VOA transfere os seus salários dos EUA para um banco angolano, mas desde Novembro de 2015 que não os consegue levantar porque o banco alega sempre que não tem divisas. Fez um teste para levantar 10 dólares, mas nem mesmo assim conseguiu. Mudou de banco, mas ficou pior. Os bancos querem-lhe obrigar a converter os seus dólares em kwanzas ao câmbio oficial, mas na rua há dólares e nos bancos não. In Rádio Despertar.