terça-feira, 8 de março de 2016

O PARAÍSO PERDIDO A OCIDENTE (21)




Fomos recebidos com grande festa porque a companhia que íamos render aguardava a nossa chegada. Tinham terminado a sua comissão de serviço. Chamaram-nos de periquitos devido a sermos novatos nestas andanças. Dois cartazes chamaram-me a atenção. Num estava escrito: E se mais mata houvera lá chegara. No outro: A nossa força é o arroz com salsichas.
Os rostos duros que via apresentavam cansaço, uma velhice precoce de veteranos. O furriel Moreira disse-me que me aguardavam no posto de rádio para receber os equipamentos e instruções de manuseamento.

Esse colega mais velho – salvo erro de nome Sá Miranda, um primeiro-cabo radiotelegrafista, que também me impressionou pelo rosto precocemente envelhecido, pelo sofrimento do tempo passado - ficaria mais uns dias para que a passagem de testemunho fosse devidamente assegurada, e iria no próximo MVL- movimento de viaturas ligeiras. Tudo isto era muito diferente da instrução que tinha recebido na especialidade, e sentia algum receio. Operar em campanha é muito diferente de estar instalado nos gabinetes. Como era eu que tinha melhor classificação seria o adjunto do Moreira. Éramos oito telegrafistas. Quatro de transmissões de engenharia e quatro de transmissões de infantaria. A diferença entre engenharia e infantaria residia em que os primeiros eram fixos, ficavam no aquartelamento, e os outros carregavam os rádios quando os seus pelotões se movimentavam. Existiam dois operadores de cripto que dependiam directamente de duas pessoas, o Moreira e o comandante da companhia. Esta tinha por nome CCAV 3418, Companhia de Cavalaria nº 3418. Ao contrário do que possa parecer não tínhamos cavalos.

A nossa rede rádio chamava-se ALTA, e dependíamos do batalhão que estava situado no Toto, no norte de Angola. Era daqui que recebíamos e enviávamos todo o tráfego através de mensagens orais em alfabeto fonético ou cifradas.
O aquartelamento localizava-se no alto de um monte. À entrada, visto de frente, e no centro ficava o posto de rádio. À esquerda e no mesmo edifício as instalações dos furriéis. Mais à esquerda e separados ficavam os oficiais, depois a sua messe. Havia um intervalo sem nada porque formava um vale profundo, e de difícil acesso. Havia a enfermaria, depois o refeitório, o depósito de géneros e as nossas casernas. O balneário tinha água continuamente que vinha de uma nascente que se situava a cerca de quinhentos metros que regava uma plantação. Num monte próximo estavam instalados alguns lança-morteiros, em posições estratégicas que apontavam para os locais considerados perigosos em caso de ataque. Como era o caso de um monte de dimensões consideráveis mais afastado.

Na picada que conduzia ao aquartelamento ficavam as instalações de um fazendeiro. Tinha cerca de cinquenta trabalhadores que viviam em condições miseráveis e uma mulher. Por causa dela as cenas de pancadaria eram frequentes. Quando o fazendeiro tinha conhecimento destas ocorrências castigava os trabalhadores. Nós, militares não podíamos intervir nos assuntos civis. Era o deixa-andar. A nossa companhia era constituída por cinco pelotões. Quatro pelo vulgarmente dito de atiradores, e o restante pelo de especialistas vulgarmente chamados de aramistas, porque permaneciam sempre no interior do arame farpado. Mais tarde juntou-se-nos um pelotão de naturais de Angola. Além do comandante, o capitão Valadas, haviam três alferes, o Lopes, o Santos e o Pereira, que ficou pouco tempo entre nós devido a ter partido uma perna no decorrer de um jogo de futebol. Os dias iam passando quase como Robinson Crusoe. A paisagem com os montes à nossa volta e a vegetação, já se tornavam cansativos porque não havia mais nada para observar.

O chilrear dos pássaros antes da tempestade e depois o cheiro dos matos nunca esquecerei. Os mortos que ficaram vão renascer com a nossa presença no sol amarelo do fim do dia. Vão ficar felizes com o cheiro da terra, antes e depois do feitiço, enviado pela tempestade que faz do dia noite.
As tempestades quando surgiam metiam medo. De repente o céu escurecia, uma grande ventania surgia, e numa ocasião tivemos que nos pendurar nos suportes do tecto de chapas, senão estas voariam com a força do vento. Depois disto o Valadas conseguiu com que fossem instaladas estruturas metálicas na nossa caserna, dessas modernas. O nosso conforto melhorou. Ordenou também que criássemos arruamentos ladeados de pedras, e que fossem regadas com cal. O alferes Lopes afirmou que o nosso capitão estava por engano aqui colocado, e que seria melhor se pertencesse a uma companhia de engenharia.

Recebemos uma mensagem dirigida a todas as companhias que nos deixou estupefactos. Um major do DBI-Divisão Base de Intendência, estava a ser perseguido por avultados desvios, e quem tivesse conhecimento da sua existência, que o detivesse imediatamente. E que a última vez fora visto em Henrique de Carvalho, depois Moxico.
O alferes Lopes explicou-nos que era por isso que os cigarros, a cerveja e outros produtos rareavam entre nós. Comentei segundo a trilogia da obra de Hans Helmut Kirst (1914-1989) que li, quando os alemães estavam na frente russa, um tenente alemão da logística conseguiu negociar caviar e outros produtos, e assim oferecer um banquete aos oficiais alemães em plena frente de batalha. O Lopes acrescentou:
- Todas as guerras servem para negociar, em todo o lado existem oportunistas que enriquecem à custa das tropas.
Terminou com outro episódio:
- Um sargento do Dbi foi surpreendido no quintal da sua casa em Luanda, com grandes quantidades de bacalhau enterrado.
Claro que com estes episódios a nossa revolta e descontentamento aumentavam. Os comentários não cessavam:
- Nós aqui a sofrer e os chicos a enriquecerem à nossa custa. Podem ficar com a nossa parte de Angola porque não a queremos.

Imagem: autor desconhecido