quarta-feira, 16 de março de 2016

Por Aquele Caminho. Adriano Correia de Oliveira


  
Por aquele caminho
De alegria escrava
Vai um caminheiro
Com sol nas espáduas.

Ganha o seu sustento
De plantar o milho.
Aquece-o a chama
Dum poder antigo.

Leva o solitário
Sob os pés marcado
Um rasto de sangue
De sangue lavado.

Levanta-se o vento
Levanta-se a mágoa
Soltam-se as esporas
Duma antiga chaga.

Mas tudo no rosto
De negro nascido
Indica que o negro
É um espectro vivo.

Quem lhe dá guarida
Mostra-lhe a pintura
Duma cor que valha
Para a sepultura.

Não de mão beijada
Para que não viva
Nele toda a raiva
Dessa dor antiga.

Falta ao caminheiro
Dentro da algibeira
Um grão de semente
Doutra sementeira.

O sol vem primeiro
Grande como um sino.
Pensa o caminheiro
Que já foi menino.

Ganha o seu sustento
De plantar o milho.
Aquece-o a chama
Dum poder antigo.

Falta ao caminheiro
Dentro da algibeira
Um grão de semente

Doutra sementeira.