quinta-feira, 31 de março de 2016

DIÁRIO DE UM FAMINTO (05)



11 de Março de 2016
A corrupção não manda, comanda.
Isto está mesmo muito perigoso sim senhor, porque há uns dias que batem na porta e quando pergunto quem é, responde uma voz do além-túmulo: «Abre, é a fome!» Claro que fico aterrorizado, mas resisto e não abro a porta. Se deixo a fome entrar pela casa adentro e ela a ocupar, creio que é o fim. Mas a questão é a seguinte: por quanto mais tempo lhe vou resistir? Confesso que não sei, porque a degradação da vida em Luanda já se chama morte, que se vê e se sente por todo o lado. Quem daqui não puder fugir, proximamente não poderá sair.
Heinrich Himmler (1900-45), e a mais que evidente realidade angolana: “A melhor arma política é a arma do terror. A crueldade gera respeito. Podem odiar-nos, se quiserem. Não queremos que nos amem. Queremos que nos temam.”
A fome no mundo, segundo a Deutsche Welle: Um bilhão de pessoas não tem o que comer. A cada três segundos, alguém morre de fome. A DW foi buscar na política, na economia e na ciência as causas deste escândalo, inaceitável em pleno século 21. Em tese, há alimentos para todos. Se mesmo assim uma em cada sete pessoas passa fome, pode-se dizer que essa é uma situação politicamente tolerada, argumenta a editora-chefe da Deutsche Welle, Ute Scheffer. Em 2050, será preciso alimentar 9 bilhões de seres humanos. Especialistas temem que a produção de géneros alimentícios não mais acompanhe o crescimento demográfico: conflitos podem ser a consequência. A EU destina 40% de seu orçamento às subvenções agrícolas, uma situação que afecta diretamente os produtores dos países pobres. A exportação de carne de frango barata para a África é o exemplo clássico. Luta contra a fome – uma bandeira que praticamente todos levantam. Mas há acusações de que muitos dos que dizem querer ajudar na verdade se beneficiam da miséria alheia.
12 de Março
Vou-me safando com o arroz.
O petróleo é a maldição de Angola. Duas meninas, uma de dez e outra de treze anos, o pai delas telefonou para a Rádio Despertar por volta das seis e quinze horas da manhã a implorar auxílio porque elas morreram de febre-amarela no Hospital Josina Machel em Luanda. Ligou a pedir ajuda para transportar os cadáveres porque não tem dinheiro para pagar o transporte. Ele está desempregado e a sua esposa também.
Quando as mulheres do peixe chegam dizemos: «Chegou o carapau estragado.» Porque o peixe que elas vendem está amiúde estragado. Desta vez foi outra vizinha que comprou uma quantidade considerável de carapau, em casa deu conta que estava estragado. Isto está demais! Não dá para comprar porque as mulheres do peixe esperam-nos de emboscada - nem todas, claro, o difícil é descobri-las. Isto está mesmo nas últimas.
13 de Março
Que saudades tenho de beber uma cerveja.
Lembrar sempre António Aleixo (1899-1949). Coitado do mentiroso/ mente uma vez, mente sempre/ mesmo que fale verdade/ todos lhe dizem que mente.
O PR José Eduardo dos Santos disse que vai deixar a política activa em 2018. Como tudo o que diz é um passatempo, com isso não perco tempo. Ele à fome nos condenou, à fome nos abandonou. De qualquer modo nunca esquecer que quando o navio da péssima governação está prestes a afundar, as ratazanas são as primeiras a saltar borda fora. E por isso mesmo, agora, Angola é a república da rataria.
O petróleo era como uma mina de oiro que se explorou até acabar. E sem esse oiro Angola fica como uma cidade fantasma.
As crianças estão com fome, os pais não têm nada para lhes dar, fingem que vão fazer comida, enquanto as crianças vão esperando, adormecem. A fome adormeceu-as.
Em Angola todos os caminhos levam à corrupção, logo, à fome.
O problema desta gente é o não incentivarem as artes e as ciências. Pudera, corruptos nunca o fazem.
Um dilúvio de mortos, isto deve-se à fome. Sem comida, ou mal alimentado, o corpo humano enfraquece e fica sem resistência. Qualquer doença se instala facilmente e epidemias até então extintas reaparecem com fúria destruidora. As mortes são abundantes. Os eleitores pela morte perecerão e em 2017 não poderão votar na oposição. Há muitas, muitas mortes em Luanda como se fosse um genocídio. Nem nas casas mortuárias têm lugar. Não há caixões. Luanda é a morgue de Angola.
Creio que com o tempo passado, com o avançar da idade, a grande maioria das pessoas melhoram as suas atitudes perante a experiência da vida acumulada, que costuma dar sabedoria. Mas não, pioram, ficam cada vez mais boçais.
Em quarenta anos de governação atiraram com a população para a fome, para o tudo de rastos. Em Angola andaram a fazer experiências e brincadeiras de mau gosto. Insensibilidade, irresponsabilidade e incompetência são a desgraça dominante. E ainda querem mais poder!? Mais fome!? NÃO!
Mais seis horas sem energia eléctrica. Aqui na banda, Ingombota, as coisas pareciam ir bem, estabilizadas. Mas não, voltámos outra vez aos apagões constantes, o que faz com que não dê mais para acreditar nesta república da destruição total. Em Fevereiro foram 53 horas sem energia eléctrica e em Março já vamos com 25 horas. Angola não lhe falta nada para mais um Estado falhado.
14 de Março
E o partido da fome a bater nas teclas podres do seu piano, a dizer que está empenhado na luta da estratégia contra a crise.
Sedrick de Carvalho: SOS: Nuno Dala está desmaiado, abandonado e sem assistência na prisão. Por tentativa de ampará-lo, Nito Alves é torturado. O agente envolvido chama-se José Ambrósio!
Declaração da CEAST - Conferência Episcopal de Angola e S. Tomé: A crise económico-financeira em que o país se encontra mergulhado não se deve apenas à queda do preço do petróleo, mas igualmente à falta de ética, má gestão do erário público, corrupção generalizada, à mentalidade de compadrio, ao nepotismo, bem como à discriminação derivada da partidarização crescente da Função Publica, que sacrifica a competência e o mérito.
15 de Março
Pouco antes da independência os portugueses diziam-me: «Você vai ficar aqui em Angola com os pretos a mandarem? Você vai ver!»
Valdemiro Pascoal: Em Angola é o contrário: "Os mais velhos são o futuro do amanhã, por isso, ficam mais de 36 anos no poder enquanto jovens morrem na delinquência, prostituição, nos hospitais etc."