terça-feira, 27 de outubro de 2015

O PARAÍSO PERDIDO A OCIDENTE (19)


Estávamos no início da aula a aguardar pelo aspirante. Chegou e ocupou o seu lugar. Olhou-nos quase todos um a um e perguntou:
- Quem é que é casado?
Apenas três lhe responderam.
- E as vossas esposas são-lhes fiéis?
Responderam que sim.
- Têm a certeza?
Pelos vistos ele queria embaraçar-nos, ou demonstrar o que a religião tem por lei nas falsas concepções do casamento, pois na religião tudo é composto de falsidade. E nesse mundo só existe o reino da hipocrisia que a Igreja criou e dele se alimenta e nele pretende obrigar-nos como se as nossas cabeças não pensassem. Os velhos e estúpidos tempos que a todo a custo nos querem impingir, deles não querem sair.
- Não, não temos. Elas estão longe e não sabemos o que estão a fazer neste momento.
- E se forem traídos o que farão?
Ninguém respondeu. Então virou-se para mim e pelo olhar vi que me obrigava a uma resposta. Pensei, mas porquê eu? Suspeitei que já lhe teria chegado algo aos ouvidos dos nossos diálogos na caserna.
- Meu aspirante, se eu apanhar a minha esposa com outro… não lhe faço mal nenhum.
- Continua a viver com ela como cornudo?
- Não, meu aspirante. Separamo-nos e cada um segue a sua vida.
- Pois eu dou-lhe uma carga de porrada que ficará internada no hospital durante várias semanas, ou mato-a.
- Mas, meu aspirante, não sou dono da vagina dela. Ela é que sabe o que fazer com ela.
O homem ficou vermelho:
- Você não passa de um parvalhão. São vocês que estão a estragar o país. Com essas visões progressistas estão a inundar-nos com o vosso marxismo. Estão a adulterar os nossos costumes. Todo o homem traído tem direito a defender a sua honra. Você devia era ir já para a prisão.
Fiquei apreensivo. Acho que a partir de agora ele seria meu inimigo. Na caserna, o Neves deu-me alento dizendo-me que enquanto existirem indivíduos destes o país nunca iria para a frente.

Na caserna facilmente se notava o quanto a humidade era alta porque até nas paredes escorria. E logo pensei que era devido a isso que os vinhos do Porto são excelentes. A minha respiração começou a ser afectada, e lá veio a bronquite. Lembrei-me da minha mãe quando um irmão ainda pequeno caiu na Ribeira do Caldeirão, lá no Tramagal, e foi – segundo ela – salvo graças a um xarope de nome bronquitina. Fui comprá-lo. Mas a bronquite piorava com o frio e com a humidade. Todos na família tínhamos bronquite congénita e um irmão e uma irmã eram asmáticos. A dificuldade de respirar aumentou. Mesmo assim tentei ir para o refeitório buscar o leite com café quente que me faria bem. Cheguei a meio da subida e a respiração faltou-me. Não conseguia respirar. Entrei em pânico, senti que ia morrer. O meu pensamento de despedida foi para a minha mãe, depois para o meu pai. Recuperei um pouco a respiração. Embrulhado numa manta e a arrastar-me consegui chegar. Quem estava de oficial de dia era o nosso aspirante. Disse-lhe o que me estava a acontecer e com o recipiente na mão pedi-lhe autorização para o encher. Olhou-me com desprezo e vi nos seus olhos desejos de vingança.
- Não! E saia daqui imediatamente!

Ainda hoje esses momentos me perseguem a recordar-me o quanto da maldade humana ainda nos persegue. De facto existem pessoas cuja malvadez serve de passatempo apenas para fazerem mal. Sentem-se felizes com o infortúnio dos outros. Mas o xarope fez-me bem. Melhorei e voltei à normalidade.

Nas últimas aulas práticas com os rádios, o primeiro-sargento ensinava-nos a tirar os “bigodes” do assobio do som até obter uma boa sintonia. Na caserna, o Neves disse-me em segredo que se preparava para fugir. Não iria sozinho. Outros o acompanhariam. Iria para o exílio. Convidou-me também para o acompanhar na fuga. Que a guerra estava perdida. Era só ver o que estava a acontecer na Guiné. E como éramos anti-fascistas o nosso dever era defender os povos das colónias, e não combater contra eles. Disse-lhe as razões porque não iria. Expliquei-lhe o que o Quitério me tinha dito. Fez-me prometer que guardaria segredo, e pediu-me a minha morada para depois me escrever. Em pouco tempo seríamos mobilizados para combater os patriotas das colónias, e até lá já estaria bem longe. Poucos dias depois não apareceu mais. Alguns comentavam: «Mais um que fugiu».

Mais um amigo que nunca mais veria. A sua fuga estava consumada. De novo me senti só e melancólico. Pressenti que seria sempre assim durante a minha vida.
Novamente fui atacado pela amigdalite crónica. Tinham passado vários meses que tal não acontecia. A doença devia-se à profissão de electricista, por causa do pó constante que me acompanhava, quando tinha que alargar os sulcos das paredes para colocar os tubos plásticos que depois receberiam os condutores eléctricos. O ambiente que me cercava estava sempre muito saturado de pó. Cheguei ao ponto de passado um mês ter novamente esta doença. O médico disse-me para fazer operação às amígdalas no Hospital do Trabalho. Tudo estava preparado para isso. Esperei três horas no hospital e ninguém me dizia nada. Esperei mais um bocado. Abandonei o local. Acho que ainda hoje devem estar à minha espera.

Consegui curar-me por meios próprios. Um deles foi justamente abandonar os ambientes de pó. Mas cá estava outra vez, três dias prostrado na cama da caserna. O ouvido já me doía. Mastigar ou engolir o que quer que fosse provocava fortes dores. Não conseguia comer nem beber. Já tinham dito ao aspirante o que se passava comigo. Ele não tomava nenhuma decisão. Pensei que devido aos acontecimentos me deixaria morrer. Perante a pressão dos meus colegas veio ver-me. Enviou-me para a enfermaria. Viram que o meu estado de saúde merecia internamento. Fui enviado para o Hospital Militar do Porto onde fiquei internado. Devido ao meu aspecto perguntaram-me porque razão só agora cheguei. Falar era-me doloroso. Mas pelo sim pelo não, preferi guardar silêncio devido às represálias que o aspirante poderia exercer sobre mim.

Permaneci lá cerca de duas semanas. O ambiente era militarizado. Não podia sair do local onde me encontrava. A única distracção que tinha era olhar pela janela e ver o pátio que havia lá em baixo, creio que me encontrava num sexto andar. Infelizmente não tinha ninguém com quem conversar. Como sempre as conversas habituais eram sobre futebol. Confesso que nunca perdi tempo com essas coisas. Sempre considerei e considero que é uma pura perda de tempo. Mas é necessário para os governos entreter os seus povos e desviar a sua atenção dos imensos problemas que um país tem. Afinal de contas é bom recordar que o futebol é um império empresarial. É necessário embrutecer as populações. E quanto mais futebol melhor.

Imagem: autor desconhecido