terça-feira, 19 de junho de 2012

Na casa da eterna tribo da bandeira



Exceptuando-se a corrupção, nunca tão poucos entenderam de mais nada.
Conta-se que um mais velho, perguntado sobre o porque é que ninguém reage contra tantas situações escandalosas no domínio da moral público-política em Angola, ele terá sentenciado o seguinte:
 Meu filho, Angola está hoje como uma loja assaltada por um pistoleiro. A loja é única do bairro e o pistoleiro meteu tudo num grande embrulho, mas de forma tão desajeitada que à medida que vai arrastando o grande saco, alguns produtos vão caindo, para os quais todos se atiram para garantir um mínimo de subsistência para os próximos dias; em vez de arriscarem a levar um tiro do gatuno ao tentarem agarrá-lo. In Marcolino Moco
Na casa da eterna bandeira, permanecia inadiável discussão entre mãe e filho sobre quem é que deveria ter direito ao uso exclusivo de bandeira naquela casa. É que a mãe gostava de uma bandeira com uma estrela negra, e o filho, de outra com um galo que despertava um sol fervente. E claro que não se entendiam, muito pelo contrário, a mãe decidiu-se, como era da praxe, pelos rumos da nova vida de uma só bandeira, um só partido, um só povo, e também da outra bandeira das responsabilidades acrescidas, e de outras corrupções.  
A mãe garantia que a experiencia de luta adquirida pelos patriotas do partido da única bandeira conduziriam o navio e do que restava da sua ferrugem naval, outra vez e sempre pelos mares da liberdade, da independência, rumo ao homem novo. E que para isso só um partido é mais do que suficiente para atingir o tal desiderato.
Mas o filho já cansado - e quem é que não o estava? - de escutar durante incontáveis anos sempre a mesma sinfonia com os mesmos executantes e também sempre com o mesmo maestro, onde qualquer um fica estarrecido e apela à manifestação, e até, como alguns, à desordem, e um ou outro à guerra, o filho, apresentava como num debate os seus argumentos: «Mãe, a minha bandeira do alvorecer vai ganhar as eleições, porque essa tua bandeira da estrela já lhe secou a luz, dela só restam alguns príncipes das trevas que nos consomem os anseios da liberdade. Ademais, essa bandeira actualmente é o símbolo da corrupção. Quando se olha para ela, vêm-nos à mente tudo o que é miséria, corrupção, arrasar de casebres, espoliação de terras, desemprego, falta de água, luz … escravos dela e dos seus amigos estrangeiros, etc., etc.» Mas a mãe, como os férreos seguidores de uma religião que obriga os seus fieis a oferecerem em holocausto as suas vidas, apertava-lhe como numa visão mística, numa profecia: «Meu filho, bandeira com um só coração não se pode dividir com mais nenhuma… já viste o que é quando um coração se parte em dois? É um grande sofrimento para a alma. Nós, no nosso querido, amado e idolatrado partido leninista da ainda oprimida classe operária, isso da classe camponesa ainda teremos de reencenar uma luta pela sua liberdade, porque as cooperativas parece que acabaram e os produtos hortícolas e os campos definitivamente murcharam, mas meu filho, aviso-te solenemente que não quero... tira-me daqui essa PORRA DE BANDEIRA DO GALO!!! OUVISTE???!!!
E o movimento dos citadinos, a gíria generalizada dos jornalistas dos nossos órgãos de informação sem excepção, fazia-se sentir multicolorido, também outra gíria dos nossos consagrados lentes das penas, arrastava-se pela rua da centralidade da tribo da casa da bandeira eterna. O horroroso barulho de chineses instalados nas traseiras dos edifícios arruinados, que sem problemas, agora Angola é deles e de todos os estrangeiros, que com uma máquina serram tubos de ferro, isto porque os mwangolés não são capazes de o fazer, garantem os nossos amigos do império asiático, e como chinês trabalha de dia e de noite, imaginem a poluição sonora e ambiental que se instalou em Angola. E os chineses, como mais um dos milhões de produtos importados, assentam arraiais, e transformam as traseiras das nossas residências em oficinas com o apoio incondicional das nossas estruturas das mais-valias. E via-se claramente um chinês a mijar com tão grande à vontade, para quem o quisesse apreciar, como um cartaz de publicidade pornográfica de baixo nível, que se juntava que festejava a restante imundície acumulada.
Ouvia-se também o estridente escape de alguns geradores também instalados nas traseiras do que antes era propriedade angolana e agora espoliada. O barulho e o fumo tóxico não têm problemas, vale como lei, porque os dirigentes sentados na eternidade dos seus cadeirões imperiais, há muito que não sabem, desconhecem por completo que afinal Angola tem povo. Mas a palavra de ordem é acabar com tudo o que ainda se chama de população, apenas os ratos, as baratas e as moscas lhes resistem, até ver. Angola não é dos angolanos, é da tribo de uma só bandeira.
E o lugar-comum da vozearia de quem já foi assaltado, o prato da manhã, da tarde, da noite, enfim, de todos os momentos, entrava-nos pelos ouvidos como se perseguidos pelo inferno. E os fortes sons de bater com tampas de panelas, ou algo similar, escutava-se, informando que a uma mamã já lhe raptaram o filho. E com ou sem polícias os motoqueiros rasgavam, ultrapassavam os instrumentos medidores de som com os seus loucos escapes drogados pelas mais violentas drogas conhecidas e desconhecidas. E como se não bastasse, ouvia-se mais um som de um motoqueiro especial, o batedor do trânsito da escolta presidencial assinalando que a maratona do cortejo presidencial se aproxima. O terror apodera-se de nós, porque não é imaginável que alguém ouse fazer um gesto qualquer, porque se arrisca a levar um tiro, enfim, coisas da democracia. Mas, os esclarecidos dirigentes da bandeira publicitavam, decerto por engano, na sua imprensa particular que: «Está tudo sob controlo.»
E perante a intransigência do seu filho e da sua bandeira, a mãe, extremada zeladora da sua única bandeira queixou-se nos seus amigos e amigas do seu coração, e muito rápido, quase à velocidade da luz, chegou um pelotão de execução, uma chusma que cumprindo desordens superiores, atiraram-se como piranhas sobre o traidor salafrário da causa do povo angolano. E tanto lhe batucaram, lhe amassaram que o aniquilaram e mais à sua bandeira. E dentro da maior impunidade que a caracteriza, a estrela da bandeira de um só partido sorriu por mais uma missão cumprida.
E logo de seguida, como que já de antecedência programado, noticiou-se de lés-a-lés nos órgãos que só falam a verdade:
Conselho da Revolução. Decreto 001/CR/12.
Convindo harmonizar, legislar, o uso de bandeiras e camisolas dos partidos políticos, este CR decreta e promulga o seguinte:
1 – Doravante, qualquer partido da oposição que deseje utilizar as suas bandeiras ou camisolas, terá que solicitar a este CR através de requerimento, acompanhado da quantia monetária de dois mil dólares que servirá como caução para despesas de expediente, porque este processo é longo e demorado. Pois que terá de subir até ao nosso chefe supremo da revolução. A coisa, a autorização demorará pelo menos um ano até à sua implementação. Mas não desesperem, porque as coisas revolucionárias são mesmo assim.
ÚNICO:
O único partido que está autorizado a utilizar camisolas e bandeiras, é o da nossa vanguarda eterna, aquele partido que conduz os destinos desta portentosa Nação até à vitória final e suas consequências.
Quem não cumprir este desiderato decretado será de imediato espancado até à morte, sem poder recorrer, como é óbvio, às instâncias policiais e judiciais.
Está isento de recurso ao Tribunal do Supremo Conselho da Revolução.
E logo um serviçal bajulador tratou de organizar em regimento militar a voz destemperada da sua informação nacionalizada.
E a evolução da nossa revolução dos 32 biliões segue o rumo imparável de mais outros 32 biliões. E contra 32 biliões ninguém luta. A nossa revolução não é corrupta, os revolucionários é que são corruptos.
Não se é revolucionário por vontade própria, mas por certidão de nascimento. E nas nossas fileiras os nossos militantes ao nascerem portam na pele a gravação das letras do nosso imortal partido. Os nossos também imortais líderes guiam-nos, mostram-nos o caminho do sucesso revolucionário dos nossos camaradas e amigos de luta da Coreia do Norte. Onde existir um revolucionário há revolução, e quem portar uma bandeira com cheiro a galo, vai apanhar até se finar.
E porque estamos enxameados de revolucionários, dispensamo-los definitivamente porque os corruptos ultrapassam-nos.
E apontaremos os nossos canhões para os militantes de outros partidos com bandeiras que serão canhoneadas, e os nossos homens dos canhões devidamente honrados com a medalha de herói nacional da pancadaria.
A nossa luta é dirigida contra todos aqueles que não comungam com os nossos ideais de liberdade e de democracia.
A nossa estratégia de combate é a seguinte: primeiro, aniquilar a bandeira do cantar de galo, o nosso inimigo principal. Segundo, na lista negra, o partido da banda desenhada, nome dado pelo partido da nossa estrela, depois… os outros… é muito fácil, basta um sopro das nossas forças que estão há muito preparadas no terreno.