domingo, 24 de junho de 2012

O Cavaleiro do Reino Petrolífero (21) A luta contra a corrupção. Quem não critica o Governo é porque dele recebe alvíssaras.



«Os projectos são elaborados por agências situadas no exterior, às vezes na capital do país, em Bissau. Para um projecto de um milhão de dólares destinado ao desenvolvimento rural, por exemplo, cerca de 15% já são consumidos por taxas administrativas da agência de execução, seja ela a FAO ou outra qualquer. A agência de execução recrutará peritos para executar o projecto, já que os técnicos são raros no país. Estes técnicos custam actualmente algo da ordem de 7.000 dólares por mês. Antes de chegarem os técnicos, é claro, há missões sucessivas: missões de identificação de projectos, missões de estudo de factibilidade, de estudos de execução técnica. Durante o projecto há missões de acompanhamento de execução. É normal a metade dos recursos fornecidos ser consumida neste processo, voltando assim o dinheiro oferecido para os países ricos, sob a forma dos salários elevados dos técnicos.» In Ladiaslau Dowbor.  Guiné-Bissau. A busca da independência económica.

A mudança nas tecnologias muda as dimensões espaciais do trabalho, na medida em que as finanças, o comércio, os diversos serviços “intangíveis” que hoje assumem tanta importância, como publicidade, advocacia, gerenciamento a distância, circulam nas “ondas” do novo sistema de informações (TCI – Tecnologias de Comunicação e Informação) em segundos, fazendo por exemplo uma secretária que trabalha em Washington perder o emprego para uma secretária que vai fazer o mesmo trabalho, via computador, a partir da Índia. In o que acontece com o trabalho?» Ladislau Dowbor dowbor.org/

No dia seguinte saiu um despacho que teorizava:
DESPACHADOS
Considerando que a pretensão do Comité Miss Zungueira Universal é ilegal, indigno e antipopular, senão vejamos:
1- Ilegal porque não preencheram os requerimentos que a Lei manda. Um deles, fundamental, exige muita coragem para o obter. São necessários pelo menos doze meses de espera. Só isso desmotiva o mais corajoso.
2 - Indigno porque não aceitamos analfabetas, porcas e pobres esfomeadas a viverem em casebres com a pretensão de representarem o Reino. Que pensará de nós a comunidade internacional? Vão fazer-nos mais chacota. Só sabem é despirem-se, vestirem-se… não sabem.
A vingança do Frequentador não se fez esperar. Reuniu com as zungueiras e deu-lhes a conhecer:
- Já sabem não é?! Fomos ilegalizados!!!
- Sim… sabemos.
- Vamos criar um novo concurso... a Miss Zungueira Alcoólica.
Como os prémios eram tentadores as bonitas jovens passaram a beber. O prémio principal era vinte caixas de cerveja. Eis aqui a origem do alcoolismo nas jovens Jingola. O Santo Ofício confiscou o Frequentador e deportou-o para o vice-reino do Namibe. A acusação era simples: apelo à violência, ideias republicanas e ofensas à dignidade da mulher abandonada.
- Está bem mas nada de exageros. Por este andar quando quiserem fazer amor com os maridos vêm aqui solicitar autorização.
- Isso é que é um puro exagero!
- Cara marquesa, recomendo que consulte o Comité da Misse Politburo.
- Concordo, é de facto o órgão propositado.

Capítulo XVIII
A luta contra a corrupção

Epok, para agradar à comunidade internacional ordena a grande ofensiva contra a corrupção. Discute os pormenores com o Santo Oficio.
- Temos que avançar, fazer qualquer coisa!
- Cinco mil homens chegam?!
- Cinco ou dez mil, tanto faz. Estão desbloqueados cinco milhões de dolo para já.
- Dólares.
- Isso mesmo.
- Chefe Epok, vou começar já o recrutamento. Um mês de treino é suficiente.
- Com treino ou sem ele… é ir em frente.
- Começamos a caça por cima?!
- Qual caça (!)
- A dos corruptos.
- Ah! Sim! Por cima!? Quando se começa é sempre por baixo. Os degraus sobem-se um a um. Quando se começa por cima, já sabe como é. Os corruptos estão em baixo, nas ruas, nos casebres. Limpe-os e verá que a corrupção acaba. Acho que não tem noção do que é corrupção. Nunca frequentou um seminário?
- Já chefe… milhares deles, é por isso que fiquei baralhado.
- Então em frente! Marx! Tem seis meses para acabar com a corrupção.
- O navio está pronto.
- Isto nada tem a ver com a marinha!
A notícia de que o reino ia fazer um recrutamento massivo para criar um exército para lutar contra a corrupção atraiu gente de todo o lado. Os portos, aeroportos e estradas ficaram congestionados. (Esta é a origem dos engarrafamentos constantes do trânsito). Todo o Golfo da Guiné em peso rumou para Jingola. Os que tratavam das inscrições intrigaram-se quando chineses apareceram com o bilhete de identidade Jingola. Milhares de estrangeiros estavam na mesma situação. Ninguém sabia explicar como conseguiram o BI. (Bilhete instantâneo).
As várias comissões de trabalho deram por encerradas as suas tarefas. Gastaram apenas um milhão de dólares. Têm dois anos de prazo para apresentarem o relatório das contas. O nome da nova polícia: Exército Real Anti-corrupção.
Os efectivos tinham direito a alimentação e ao vencimento mensal de quinhentos dólares. Nos primeiros dias ainda comeram. Depois os pratos ficaram vazios. Não havia nada para lá colocar. Nem um pão. Dois meses depois sem receberem um tostão, chega a refrega habitual. Os automobilistas são abordados.
- Você é corrupto?
- Não.
- Então deixa aqui qualquer coisa.
- Mas vocês não são do Exército Real Anti-corrupção?
- Somos, vá, dá alguma coisa!
Estavam em todas as esquinas. Demoraram pouco tempo a limparem quem trocava dólares. As kinguilas, mesmo com os seus maridos na polícia não escapavam. As esfomeadas zungueiras com os filhos às costas eram um alvo fácil. As pobres ficavam confusas, se deviam salvar os filhos ou os alguidares. Os Anti-corruptos aproveitavam e carregavam tudo. Elas preferiam salvar os filhos. Um filho mais crescido pergunta:
- Mamã, são os da UNITA? Eles não pararam com a guerra?
- Não, são mercenários que o reino contratou.
- Estrangeiros?
- Sim meu filho.
As jovens não escapam. As preferidas são as que usam saias muito curtas, ou vestidos transparentes.
- Estás presa!
- Porquê!?
- Estás a corromper os nossos olhos.
Um polícia já tinha galado uma jovem. Esta resistia-lhe dizendo que não queria namorar com ele. Preferiu ser presa por outro polícia. O galã diz para o colega.
- Essa é minha, há muito que ando com o olho nela.
Os lavadores de carros passam mal.
- Estás preso porque estás a corromper o asfalto.
Os jovens vendedores de bugigangas sofrem uma limpeza sem limites.
- Tens factura da compra?
- Não.
- Estás preso por corromperes os comerciantes.
Ameaçam os moradores dos prédios e em especial os dos casebres que serão demolidos por uso corrupto. Alguns chefes escolhem as melhores habitações para albergarem as suas mulheres e a conta infindável de filhos. Conta-se a proeza de um que tinha mais de vinte mulheres. A família reunida nem em dois grandes hotéis caberia. Que super macho. – Diziam.
Ressuscita-se a Lei dos quarenta e cinco dias por abandono do reino. Uma moradora atónita fala com a vizinha.
- Vão demolir os prédios e os casebres?!
- Vão-nos pôr aonde?!
- No Nova Vida.
- Aiué! Vamos fugir para o Zimbabué.
- Lá fazem a mesma coisa.
Começa o interrogatório aos moradores.
- Prova que não saístes do reino há mais de quarenta e cinco dias.
- Sempre vivi aqui.
- Chegaste agora?
- Não, nunca saí daqui. Querem roubar as casas não é!!!
- Estás a criticar o Governo Real?
- Quem não critica o Governo é porque dele recebe alvíssaras.
- Outro valor mais alto se levanta, é o dinheiro.
As atenções viram-se para os bancos. Entram e deixam os cofres vazios. A acusação é:
- Confisco por corrupção dos bens da população.