quinta-feira, 21 de junho de 2012

O Cavaleiro do Reino Petrolífero (20). A Misse Zungueira



«Um país “descobre” que falta energia, e organiza-se de última hora um sistema de racionamento energético, como se o abastecimento e o consumo de energia não fossem previsíveis. Isto depois de décadas de incessante martelamento publicitário incitando-nos a comprar maiores geladeiras, aparelhos de ar condicionado e outras formas de maximização de consumo energético. Os Estados Unidos “descobrem” que estão chegando ao fim das suas reservas de petróleo, e se lançam em aventuras militares, quando todo o seu modelo foi organizado na promoção do uso perdulário da energia, inclusive como fator de “status” social. Os países produtores de petróleo contabilizam a venda dos seus recursos como se fosse produção, fator de aumento do Pib, quando na realidade estão vendendo hoje os recursos que faltarão às próximas gerações: a conta dos recursos naturais dilapidados não entra na contabilidade nacional. Os residentes de uma região não são informados sobre o uso de agrotóxicos que podem estar contaminando os lençóis freáticos, gerando doenças, reduzindo o valor dos seus imóveis: pelo contrário, os agrotóxicos só entrarão nos nossos sistemas de informação aumentando o Pib dos produtores.»

In Informação para a cidadania e o desenvolvimento sustentável.

Ladislau Dowbor http://www.dowbor.org/

Os morcegos e especialmente os corvos vigiavam. Poisavam nas varandas, nas janelas, nos postes da quase meia centúria escura iluminação. As baratas, os ratos e as aranhas entravam nas casas atentas a qualquer comida que chegasse. Por imposição clerical os esfomeados rezavam em voz alta.
- Meu Deus, por favor acaba depressa com a reunião deles!
As crianças destemidas devido à sua inocência pediam feitiços.
- Faz-me um feitiço para ter uma boneca muito bonita!
- Faz um feitiço para que não vá mais à escola!
- Tenho fome, quero um feitiço com muita comida!
Um descasebreado pegou numa espingarda e disparou para um corvo. Preparou o fogareiro. A ave ficou bem assada acompanhada por quase um quilo de jindungo. No fim da refeição é que foram elas. Uma chuva de corvos e morcegos invadiu-lhe a casa. Os bicos das aves nos corpos pareciam ferros em brasa. Foi para a rua e gritou:
- Tetézinha, atira tudo cá para baixo incluindo os filhos! Porra! Estes feiticeiros não são para brincadeiras!
Como alternativa de refúgio escolheram a igreja. O padre surpreendeu-se pela repentina aparição de tantas almas.
- Não vão trabalhar? Estão à espera do fim do mundo?
- Salva-nos por amor de Deus, liberta-nos dos feiticeiros!
Um polícia chega. Até ao momento não conseguiu lixar a vida de ninguém. Irá para casa com as mãos cheias de fome. Ouve o barulho de aves no cimo da igreja. Vai ao carro e retira uma carabina de cano curto. Não é a ideal para tiro, mas vale a pena tentar, sempre se consegue algo para comer. Aponta a arma, dispara e um corvo cai quase aos seus pés. Acto contínuo, os crentes que estavam em oração profunda, assustam-se e pensam num castigo de Deus, abandonam a igreja incluindo o padre. O polícia surpreso olha para a multidão. Pensa em pedir reforços. Depressa vê o erro que cometeu. Atrapalhado confessa:
- Pensei que fosse outra ave! Alguém a quer?
- Seu parvalhão! Isso era uma ave disfarçada de feiticeiro. Fujam enquanto temos tempo.
O polícia não sabia o que fazer. Foi ensinado desde criança a temer o feitiço. Aliás na sua família eram todos feiticeiros. Achava que tinha que dizer algo. Era esse o seu dever.
- Hum! Essa igreja deve ser uma célula da Al-Qaeda. Esta cidade parece a capital do terrorismo internacional.
Epok sentiu o que restava da sua alma ao vibrar com a informação do marquês das Epidemias. Além das existentes, outras mais poderosas estavam para chegar. Meditou: É certo e sabido que somos demasiado desumanos com os nossos súbditos. Achou que o rei devia tomar medidas para que acontecimentos demasiado notórios não acontecessem jamais. Sob pena de uma revolta protagonizada pelos mais pacíficos. Quando estes se revoltam não há quem os segure.

Capítulo XVII
A Misse Zungueira

Um Frequentador das cantinas de rua sentia-se orgulhoso em estar com os seus amigos e olhar para a devastação à sua volta. Um imenso cemitério de garrafas e latas vazias que poluíam o chão. Quase não se podia andar, sob risco de tropeçar numa delas, e a queda inevitável, desamparada, sem sobriedade traz sempre imprevistos.
umas oito bonitas zungueiras em fila passam como se estivessem num concurso de misse. O Frequentador aborda-as:
- Ó bonitas… venham cá!
- Diz lá.
- Vamos fazer um concurso de misse zungueira.
- Ah! Vamos embora, esse está bêbado!
- Estou a falar verdade. Vá, desfilem aí uma de cada vez. O prémio para quem ganhar é mil dólares. A segunda classificada, quinhentos, e a terceira duzentos.
Consultou os amigos e estes concordaram. As zungueiras desconfiadas criaram uma comissão de inquérito e depois convocaram uma reunião. Poisaram os alguidares no chão. Sentaram-se à sua volta para evitar os roubos. A conclusão foi rápida, não é como as reuniões dos partidos políticos que nunca mais acabam. Andar um dia inteiro para nem conseguir cem kwanzas e ganhar o que os bêbados ofereciam sem trabalhar era tentador. A porta-voz das esfomeadas e sem casebres falou:
- Está bem, mas primeiro passem o dinheiro.
- Não, depois fogem com ele!
- Não fugimos... Ah! pá... Vamos embora!
- Está bem, está bem, está aqui o dinheiro.
Improvisaram uma passarela. Elas passearam, riam muito, estavam muito contentes. O dinheiro já estava seguro nos seus sutiãs. Achar a vencedora foi fácil. Era a única que tinha uma saia muito curta e os seios quase nus.
Recebeu uma salva de palmas da assistência. Preparavam-se para sair a correr. O Frequentador impede-as:
- Ó misse zungueira vem cá!
Indecisa e desconfiada guardou uma prudente distância.
- Fala amigo!
- Se desfilares de sutiã e biquíni ganhas mais mil.
O Frequentador consultou os bêbados que gulosos de prazer encorajaram e concordaram. Ela aquiesceu, claro:
- Por esse dinheiro até desfilo nua… passa aí esse mambo.
Como o sutiã e o seu biquíni estavam uma vergonha, não imaginam as dificuldades crescentes para conseguir água, pediu às suas amigas que lhos emprestassem. Abriram os panos que serviram de protecção. Trocaram as roupas. Um bêbado reclamou:
- Falta uma coisa. Onde se viu uma misse desfilar sem sapatos altos?!
Uma jovem amiga da assistência tirou os sapatos e emprestou-os à miss zungueira. A multidão crescia para assistir ao insólito espectáculo. A misse apresentou a sua beleza à multidão que crescia barulhenta. O Frequentador faz-lhe nova proposta:
- Cinco mil… se desfilares nua!
- Passa já o dinheiro!!!
- Calma aí!
Vira-se para a multidão, e pede-lhes que façam uma colecta porque vai aparecer nua. Muito rápido o dinheiro é recolhido. A misse zungueira passa na passarela a correr. A multidão já demasiado numerosa protesta.
- Queremos o nosso dinheiro de volta. Queremos sentir, ver a alma do material Jingola!
Ela volta e passeia com lentidão. Nestas ocasiões solenes sempre algum nervosismo apodera-se dos presentes.
- Não estou a ver nada!
- Deixem-me ver porra!
- É muito cabeluda parece que não tem racha!?
A coisa pegou a sério. Nas outras cantinas de rua criaram-se concursos semelhantes. Tornava-se necessário existir um órgão centralizador. Numa reunião geral o Frequentador propôs a criação do Comité Miss Jingola que foi aceite. Os prémios subiam. Criou-se um comité especial que circulava pelas ruas a observar qual era a zungueira mais bonita. Tinha um prémio de mil dólares. O desfile passou a ser semanal. Nas cantinas de rua o prémio chegou a subir até aos cinquenta mil dólares. Aboliu-se o desfile nu porque as desgraçadas chegavam em casa e apanhavam surra dos maridos e namorados ciumentos, entretanto bêbados com o dinheiro ganho nos concursos. No fim de um concurso alguém propôs à vencedora que no futuro contavam com o patrocínio de um casebre. Ela não concordou e até protestou indignada:
- Dessas da nova vida, dos zangos e da patriotada que acabaram de ser construídas e estão a cair aos bocados… não!!!
Então as zungueiras puseram-se mais bonitas que nunca. Sempre à espera de um prémio. Metiam inveja a muita boa gente da nomenclatura. O Comité entrou em contacto com outros países para criar o Miss Zungueira Universal. Todas queriam participar, esfomeadas não faltavam, especialmente as do Níger, Sudão, Mali etc, etc. Era óptimo para mostrar a verdadeira beleza da Mulher Jingola. Todas se preparavam com ansiedade para disputarem o concurso e ganhar a coroa Universal.
A marquesa das Mulheres Abandonadas levou esta pretensão ao cavaleiro Epok. Pediu-lhe a opinião.
- Nobre Epok, estas gajas estão a ir longe de mais, que lhes faço?
- Nobre marquesa, acha que devo preocupar-me com isso? É apenas um assunto de mulheres… decidam vocês.
- Cavaleiro… estou aqui em nome da centralização dos poderes!
Imagem: portaldoprofessor.mec.gov.b