domingo, 23 de setembro de 2012

O Cavaleiro Mwangolé e Lady Marli na Demanda do Santo Graal (32)




Carrega-me nos teus braços e voemos sob o oceano Atlântico e na tua praia da embaixada da paz desemboquemos, aterremos, pernoitemos e novas descobertas singremos, no nosso voo, na viagem de estudo sobre as margens da marginalização do Brasil, de todos os brasis. E ao festejarmos a rota de James Cook e Charles Darwin terminaremos no destino dos amotinados da Bounty.
Este planeta não nasceu apenas para alguns seres humanos que escudados nos seus exércitos, a cada minuto galgado mais um pedaço lhe desgraçam.
E navegados na nossa nau carregada, remada por multidões de jasmins, os mares sulcaremos, velejaremos, e com o nosso perfume tudo conquistaremos, os mares, as marés e as terras venceremos.


Lixo, água e comida. Na transfusão diária à nação, o boom da cólera expandiu trinta mil infectados e morticínio de quase mil. A acção planejada das chuvas divulgará subitamente a epidemia. Na terra ávida por cadáveres, a cólera diminuirá quando a população escassear.
E os comerciantes aventureiros só usam fax, para não deixarem pistas que comprometam as suas irregularidades, como num jogo de dados viciados. Num país governado por crápulas as piranhas tomam banhos de sangue na manada humana colocada à disposição.
E um grupo de jovens saúda a reeleição fraudulenta de um presidente com socos na sua foto.
Enquanto um idoso há longo tempo arrastado para a hercúlea margem da intolerância ditatorial, não se cansa e ainda tem forças para lembrar: «Não estou interessado na habilitação literária do homem, o que quero é homens que trabalhem, e saibam trabalhar.»
E cinicamente como lhes compete, os salafrários masturbam-se numa rádio deles: «Os salários dos professores são dos mais elevados na SADC.» Mas continua-se a morrer à fome.
Ser humano é quem inventa coisas, faz os outros ganhar dinheiro, e no fim morrem todos poluídos.
Os falsos amigos lembram o que aconteceu a Galileu, estão sempre prontos a entregar-nos à Inquisição.
O médico é o primeiro medicamento, mas convém recordar que a palavra e o carinho são bons medicamentos.

Tantos ares-condicionados, com o calor muitos cabos eléctricos vão incendiar, como a democracia. Por incrível que pareça, em Jingola persiste a luta contra o comunismo. É necessário lutar contra os restos deste comunismo fora de moda. Os maquinistas da destruição de 1975 permanecem nas células adormecidas.
Até fábricas funcionarão nos prédios, então chamar-se-ão prédios industriais.

Agora… há cerca de quinze dias vê-se muita agitação humana. Diariamente aumentam os confrontos que antes eram verbais, agora estão irracionais. Muita agressividade com agressões físicas. Já reina a imoralidade totalmente descompensada. Na rua é inseguro andar. Os animais humanos estão brutais, selvagens abissais. Já ninguém se conforma. Ninguém acredita em ninguém. Todos cansados do hediondo regime. Em revolta permanente. A qualquer momento, o que resta desabará nas ruas, na revolta geral. O quotidiano está numa confrontação permanente. Antes, ainda se guardava silêncio e contenção. Agora são pequenos tumultos que ecoarão como vulcão. Portugueses têm a papelada preparada para a retirada. Todos acreditamos que o fim se aproxima.
Ultima hora: 11.45 da manhã, neste momento os fiscais do governo da província de Luanda roubaram vendedores de rua. Estes invadiram-lhes o carro, lutaram com eles e recuperaram os seus haveres. Inclusive coisas que não lhes pertenciam. Os fiscais reagem, oferecem resistência. Então, os jovens unem-se e lançam chuva de pedras ao carro e aos fiscais. São quatro, alguns estão feridos. Se resistirem mais, vão matá-los, destruí-los. Os jovens gritam: É a guerra! É a guerra! É a guerra! Os fiscais abandonam o terreno. A população agora resiste, guerreia.

E nesta Jingola ilhada onde os discursos do petróleo permanecem inalteráveis, o povo jingola sente renascer-lhe a miséria quando depois da saída do pódio presidencial os canos dos canhões se lhes apontam, prontos para esmagarem qualquer imprecação dirigida ao tirano. Custa a entender que em tempos tão democráticos ainda subsistam ditadores porque os falsos democratas os apoiam, atirando com os seus povos para a sarjeta da história. E os discursos demagogos prosseguem e se aplaudem, tudo na defesa da democracia. Quando chego aqui fico sempre muito confuso porque não consigo entender o que é democracia. É bem-estar para alguns e espoliação de outros povos, não é?!
Os países da África Negra, rápida e seguramente encaminham-se para a grande Somalilândia.
Já não há Setembro, Outubro, nem Novembro, perdi-me nos meses porque o clima está tão alterado, tão louco como nós.
Cada vez mais se acelera para um país de geradores de corrente eléctrica, só o fumo..! Fica mais um recorde mundial: o da poluição. Geradores nos terraços, nas varandas, nas escadas dos prédios. E com a invasão de reservatórios de água, mais desabamentos certeiros, mais ruínas. A destruição de Jingola prossegue a bom ritmo.
Desde 1975 a vida decorre normalmente, o quadro é tipicamente colonial.
E as estruturas dos edifícios vão cedendo, ruindo, à espera do desabamento.
Não é preciso terrorismo, ele está sempre presente.
Máquinas da destruição, quadrilhas internacionais, construtores da destruição.
E os prédios que estão a construir, conforme garantia de um arquitecto, são para durar vinte anos. Nas condições da actual anarquia em três anos começam a ter problemas.
Multidões e multidões de idiotas…
Oiço o latido comovente de despedida de um cão que foi atropelado. Ninguém lhe ligou, como se fosse uma coisa inútil e sem valor, lixo. Porque há muito que deixaram de ser pessoas. São animais sem sentimentos e assim os cães são mais valiosos que os seres humanos.
A maldade criada vira-se sempre contra o seu criador.
Nós sabemos para onde vamos mas o nosso futuro já não. Com tantas exasperações humanas, desumanas, o nosso planeta sabe: a nossa extinção. Era previsível que tal acontecesse, mas a maldita mania de desafiar as forças da Natureza triunfou e tudo soçobrou e nada mais sobrou. Apenas destroços de um progresso inexistente, perigoso. E depois da destruição deste planeta, o homem já pensa na conquista do caos de outros. 

Não brinques nem nunca atraiçoes o amor. Porque ele arde de ódio e rebenta de violência indescritível. É que o amor não é solitário.
Oh! Como são inevitáveis as tragédias do amor. A bela Helena de Tróia fez a guerra do amor. Como ele é tão avassalador e destruidor. Nunca provoques a ira do amor.
Imagem: angeosofia.com