sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Os Jasmins da Lwena (34) Pelo contrário, nas ditaduras, o poder cai com o povo nas ruas.




O MEU PROFESSOR
Ser rico é fácil, difícil é ser honesto.
E onde estão muitos generais no poder, nunca poderá ser, acontecer democracia, quando muito, é uma genecracia. E as coisas ainda não funcionam, porque ainda nos mantemos amarrados à ideologia do poder popular. E quando se violenta sexualmente uma mulher, também se violenta a sua estrutura económica, social e política. Nas democracias o poder cai pelo voto popular. Pelo contrário, nas ditaduras, o poder cai com o povo nas ruas. Antigos combatentes, são todos aqueles que militam no Politburo. Tudo o que é deles eleva-se, e como nada nos pertence, exceptuando a nossa baixeza que já não tem mais fundo para descer. Ainda não somos capazes de atingir qualquer objectivo diário, quanto mais os objectivos do milénio. Mas, quando é que acabamos com este brincar, e passamos a ser uma nação a sério?
Mas que amigo cativei. O professor Batista juntou-se, reforçou a minha epopeia. Nunca lhe perguntei, mas acho que é pigmeu. A cabeça dele é como a de uma criança. É meu cliente habitual, varredor do vinho tinto, paga no fim do mês. Com preces para o seu patrão, que já lá vão três meses sem um tostão. O nosso namoro de verdade, antes era a fingir, começou quando ele mudou, fugiu de casa. «O esgoto intensificava, empurrava o meu casebre. Tive que badalar, baldei-me. Baldeavam tudo para o meu casebre. As paredes liquefeitas já do lar fissurado. Derrogados alicerces em juízo e fora dele. Com grande empenhamento voltámos aos tempos gloriosos da Idade Média.» Sei, a conduta da água dos oitocentos metros… «Oitocentos milímetros» Faz diferença?! Ele lançou duas setas dos seus olhos afundados para o alvo bem visível das minhas chuchas. «Somos um povo secularmente paciente, mas diariamente impaciente. Não queremos saber de nada, nem de ninguém… extinguimo-nos». Com emprego para empresas estrangeiras e estrangeiros, nacionais não! «Se você gritar: abaixo a exploração! O nosso povo vive na miséria! Presidirás mais um partido político»
Os dias esticaram até um mês. Ele não aparecia, porque seria? Desconfiei que a conta fiada não mais pagaria. Alvitrei-lhe o esquecimento. Em mais uma noite que a minha vida regredia, ele voltou. Marado, descarregou-se do assento, já comprou carro bonito: «Venho pagar os juros e a minha conta. Demorei… assaltaram-me não me levaram, levaram-me os documentos. Sim! Tive que comprar carro. Mesmo assim saio de casa às quatro da manhã para percorrer incógnitas distâncias». E a tua esposa? «Semeia!.. Pomba em pombal domesticado, arrulhado com receita da feitiçaria a favor das concubinas: Vai-se a um cemitério e recolhe-se um crânio, depois esmaga-se bem até ficar moído, em pó. Mistura-se na comida e bebida da esposa. Podemos entrar em casa com o arsenal das nossas amantes que ficam invisíveis. A dona da casa não sente, nada vê». Muito patusco! «É o tempo pagão que dealba patranhas nas nossas seculares artimanhas».
As noites e os dias aprenderam a abandonar-me, cansar-me desta repetição, sem imaginação. Vivo, mas não sinto nada do porvir.
Desmiolada nas ruas sem sentido. Apavorada, abandonada quando a velhice chegada, e está quase, nem por um trapo serei trocada. Que discriminação! Existem países que se vive bem, neste não. Porquê esta excepção?! Biologicamente somos todos iguais, ou não!? Será devido à minha cor e compostura de cão? Exijo uma resposta! Saber porque não tenho direito ao pão. O meu professor professou-me cabisbaixo: «A casa está a desabar, não suporta as enxurradas sazonais. Sem Governo, depreciadas na nossa desumana incúria». Mais um mês, outra vez?!! «A corrupção fortalece o crescimento económico, a fome e o outro desenvolvimento. Tamanha hecatombe de juristas e advogados são formados, doutorados. São mais desempregados, mais esfomeados». Pelo nome parece que a Democracia é uma mulher como eu. Que Ela não anda, não sabe andar. Hei-de falar com Ela. Talvez porque estamos sempre sentadas nas nossas vendas, deve ser por isso que Ela não singra. Vou falar com as outras mulheres e vamos ter, falar com Ela. Vamos convidá-la, acompanhá-la a andar. Se soubesse onde Ela mora, ou onde trabalha… é a pessoa de quem mais se fala. Nunca a vi passar na rua, mas lê-se nos jornais e nas ondas frequentes da frequência electrónica. Se não a vejo e só a sinto levemente, é com certeza uma fantasia aparente que me arrasta na leva, como toda a gente. Hum! Essa gaja, essa Democracia deve ser uma grandessíssima prostituta. É pá, deixa lá Ela safar-se. Atravessar toda a corrente na mesma jangada. É que não se consegue falar com essa senhora. Acha-se muito importante. Desavergonhada… quando a vir… vou-lhe dar monte de chapada. Democracia à-toa. Deve ser muito rica, tem medo de manifestar-se, por isso está sempre escondida, com a sua riqueza e nós sempre na pobreza. É muito misteriosa, desaparece e aparece de vez em quando.
O meu professor pigmeu itinerante reapareceu avantajado, sempre deslocado. O que foi desta vez? «Roubaram-me o carro, consegui recuperá-lo, patético é agora conservá-lo. Mas consegui consertá-lo. Não evitei chocá-lo, frontal a cento e trinta à hora. Da tormenta sobressaíram duas costelas que me atormentam». Como as naus trágico-marítimas, agora história trágico-automobilistas. 
Eis o nosso beber e vender coisas não importantes, importadas, desconfiadas, a qualquer momento assaltadas. Mesmo assim, sem me dar conta pus-me a cogitar com o meu cogito sobre o amor. São tão poucos, conhecidos, desconhecidos, o amor de Deus e de Jesus Cristo. Amar para matar, amor pelo dinheiro. Amor pelo poder, amar as velocidades, amor carnal, amar o maltratar o próximo. Amar o ódio. Amar o nuclear. Amar com desplante que já não existe amor. Existe e que de sobremaneira. A humilhação de amar a Deus sobre todas as coisas servida pela humilhante servidão aos tubarões. Que no amor ingénuo e servil nos exploram, nos esfomeiam na prisão dos mandamentos. Não podemos reagir porque pecamos. As famílias dos tubarões sabem-no. Impunes, milenarmente escravizam as pobres almas temerosas que do céu, Deus lhes envie um raio na cabeça. Os esqualos bem treinados tragam os esquálidos crentes. Que dormentes, paralisados e caçados pelos mesmos sempiternos predadores.
O meu professor cursou-me nos vexames, reexames da nossa tragédia enganadora. Já não tem valor a sua lembrança de tão igual, anormal libertação, desta não analgésica governança ilustrada no fabrico de cadáveres inquisitoriais. Santo Oficinais dos Manuais Médios desactualizados, sebentas, sebentos. Isto não é de um, de nenhum, a todos pertence! Acobertaram-se no sistema donde ninguém escapa dos campos concentrados estalinizados, resignados na espera do malevolente Minotauro. Violência que acontece a um, sucede a todos, a todas.
A morte. Psicopatológico ritual, nesta moda habitual. Faleceram nesta inglória concentração, primos, pai, irmão. Casa assaltada, carro. Crises palúdicas crónicas.
Condescendeu, já bebeu, ascendeu ao paraíso terreal. A proa do vento forte cambaleia-o original, marginal. «Este vento norte, agreste, sopra forte sem leste. Está norteado pela tirania que nos consome, vento alcoólico importado, desgraçado, pelo governo encomendado. Nem aqui estou sossegado. Álcool importado… afora fico inebriado. Ó vento da jasmim porque me empurras assim? Que mareação… deixem-me bolinar a mastreação. O vento perdeu a cabeça. A minha está lenta, normal, áspera. A bebida está comigo, ou eu com ela?». Vai chover! Pingos estão a aquiescer! «Ah! É a ultima compra que fizeram. Importação de nuvens, chuva importada. Muita chuva, ventos, furacões, ciclones, tufões. O céu está inundado de almas ébrias». Ai!ai!ai! olha esse bêbado da motorizada, atropelou a criança. Hê!hê!hê!..  matou-a!? «Muitas mortes, poucas nascenças. Deficit demográfico. Mais uma importação… Reprodutores equilibram a raça». Com tantas vacas a pastar por aí?! «Dípodes de importação fácil». Habituei-me, sentia-o como uma lápide. Eles, governantes passantes, anunciantes da precoce, precária vaidade. Estribilham as ruas, possantes nos alto-falantes dos cavaleiros metálicos andantes. Abrem passagem a um, a outro, a outros macrocéfalos pedantes. Não fossem as sanções, seriam carro-conceitos com mísseis atómicos. Adequados a repintar o quadro, muitos quadros da quadra Guernica. Fariam, mas fazem, um vendaval da minha venda, estremecem-na.
Mergulhadas, submergidas no submarino do álcool bento. E prometem o habitual mas já sabemos que  nunca o cumprem. Voltar às promessas, à prestação até à exaustão. Retornar aos dízimos, à dizimação desta intransparente, insolvente governação. Empenhada a curto prazo na urgente dissolução dos nossos casebres.
Os elementos dos lamentos da incurável congestão. Os fantasmas existem, subsistem, perseguem-me nos meus sonhos. Quanto mais ignorância melhor governação. Glória aos descendentes da hipocrisia na Terra. Um movimento de libertação, um pedaço de pano como bandeira, um hinista, um poetastro, tiros de canhão. Mais uma nação, outra opressão.
Os grandes inventos que aconteceram, descobriram, melhoraram a humanidade. Inicialmente parece que sim. Depois os sugadores de dinheiro aumentaram os lucros. Negociar é fácil, difícil é inovar. Ser rico é fácil, difícil é ser honesto.
As contas, a informação, a polícia, a política, a corrupção, a fome, a perseguição política. É secreta! É secreta! A hipocrisia é como o vento: quando fraco adormece, muito forte avassala-nos. Antes e após uma revolução submetem-nos muitas promessas, às pressas. Que seremos independentes, ocultos… imprudentes. Que as esferográficas serão quadradas. E os aventureiros rejubilam, para sempre permanecem na espoliação.
Tiroteio, vozes agitadas, camufladas. Batem no portão, com a mão, abro. Que será então? São eles! A maldição! Um convicto revolucionário diz: «é ela!». Eu, o quê!? «Sonhei contigo. No sonho estás envolvida na tentativa de assassínio do nosso presidente» Sonhaste mal! «És acusada de crimes contra a segurança do estado». Às quatro da manhã?! «Não existe tempo. Comprámo-lo, pertence-nos». Privatizaram-no! «A secreta não tem momentos, não tem horas, tem tempos» Tu que me acusas, olha-me bem. Sou antiga combatente. Guardei as costas do nosso primeiro presidente. Não te lembras de mim? Trabalhámos juntos. Votaram-me ao abandono. Até agora, nem um mísero tostão. «Assim será!». Tantos alcoólicos, corruptos, ditadores e quem isso fomenta, e não são julgados, condenados por crimes contra a segurança do estado. «Se deixassem de beber e abandonassem a corrupção seriam suspeitos… subversivos. Como os galos, se não cantassem, a madrugada anunciassem». Pobres galinhas! «Tens razão. Recordo-me muito bem de ti. Desculpa, não és tu. Vou sonhar com outro conspirador».
Imagem: Aléxia Gamito