quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Os Jasmins da Lwena (29) Nesta Angola não podemos fazer nada certo porque tudo está errado.




Uns na religião, outros na feitiçaria, outros no petróleo e diamantes, outros na corrupção, enfim, todos na miséria.
Acho isto tão vulgar, que não sei se devo narrar. Deixaram-se só. A minha família… uns morreram nos contentores de armas na Libéria. Outros nas catanas da Serra Leoa, outros na Somália metralhados. Os meus pais e os meus filhos em Angola bombardeados. E não sei mais quantos nas ruas cadavéricas do Ruanda.
Cacei um marido. Sempre bêbado chegava a casa e batia-me. Fugi-lhe do lar onde a nascente do sol deixou de fluir. Estou feliz na companhia da rua dos ratos. Não há, nem acredito nos mistérios dos ministérios das promoções das mulheres angolanas. As associações de direitos humanos não me podem valer. São como as telenovelas importadas, vemo-las e achamo-las interessantes. Deram-me a liberdade, tiraram-me a Universidade.
Estou a estragar a minha tristeza. Esquecida, abandonada, como se não existisse. De facto não existo, porque a minha Angola se afundou nos campos petrolíferos. Doem-me as costas, estou muito tempo na mesma posição da governação, agachada sem uma réstia petrolífera. Sem estribos para subir, mudar a situação. Se tento descansar, alertam-me que estou a preguiçar. Paro, levanto-me. Não sei quem ligou os holofotes solares. Parecem uma lanterna grande. A luz ilumina as copas das árvores. Já não são verdes. Ela aproxima-se, vai-me dar banho. Ergo a custo (a fome) a cabeça bem para o alto e vejo os meus seios nas montanhas. Alguns pássaros voam para mim, e saúdam-me. De repente sem saber porquê, grito: Ó Nzambi! Ó Nzambi!
O banho de sol é muito quente. Estou a transpirar, na escassa roupa para me tapar. Desperto da minha volúpia. Ele está próximo, capto a sua voz. Já chegou outra vez, a colonização. O seu olhar cobiça-me os seios. Adivinho o que vai dizer «Ó negra, estás a preguiçar muito!» Baixo-me e arrasto os frutos dos cafeeiros. Com a ferramenta de madeira, arrastadeira. Os outros estão a preparar os sacos para ensacar. Não sei quando vem a libertação desta transpiração. Ela chegará! Chegou a dipanda! Finalmente livre… nas ruas da amargura, sem vestidura. A vender a minha desventura corporal a qualquer um. Adestrava o cúmulo do tumulto da multidão. Perguntei-lhes: vieram a salomão? Responderam: está fortalecido na prisão do camaleão dos nossos professores de direito constitucional Vi-o, o lixo da criança que a alimentava. Na tábua rasa que flutuava, não homologada no livro da fome, das páginas dos recordes Guiness. Atrevi-me a lamentar: Glorioso, elementar sofrimento eleitoral. Não durmam eleitos, abandonem os leitos.
A política e o poder harmonizam muito bem. Muitos políticos, poucos lugares vagos no pódio. A concorrência eleva-se nos meus seios a despontarem cheios. O Sol percorre as distâncias de todos os dias, ilumina os obscuros, poderosos corredores da arte bancária que conduzem aos cofres subterrâneos, pesados pelos quilates das diamantíferas gemas gemidas e petrolíferas doentias. A bantologia abre os alicerces da vozearia: amanhece, a bronzeada levanta-se, sai à busca sem vida. Andou, navegou, olhou, sonhou. Regressa, não encontrou o tempo perdido. Esta bronzeada agora, adora sonhar. Reverteu, perdeu o caminhar, continua a recuar sem independência.
Convidaram-me para passar o ano novo. Recusei. Obstinei, passei-o na apanha de mabanga, assada, saboreada com maluvo na companhia honesta dos mangais. Divertimo-nos imenso. Como o cessar-fogo, e tudo continua na mesma. Não temos quadros, não os queremos, corremos com eles para manter a desorganização que conduz à mãe da corrupção. E tudo não se enquadra… retrocede à Idade Média… às origens de Richard Leakey. Povo que não lê é cego… e não vê. Só os esgotos são livres e o tema nunca se esgota. Vi que caminhávamos irremediavelmente para a destruição e sorríamos como sempre. Estávamos finalmente livres, independentes. Donos do nosso destino, do nosso futuro, Livre! Na minha bifurcação da mabanga, no mangal genial! Como chamar alguém, ou dizer que é génio porque há muitos idiotas. Que estancam uma comporta e as outras continuam com fugas. Nesta Angola não podemos fazer nada certo porque tudo está errado.
Desfaço-me nas escarpas dos meus cabelos à espera que tudo se conceba num minuto de vida. Permanece na eternidade da intranquilidade. Observo muita gente lutar a favor e contra. Os contras são muitos, poucos os defensores. Aguardo o vencedor nos contrários. A sua balada dos dias melhorar sem lutar!? Na Terra restam os últimos raios de fogo e nela nada de humano, ninguém para os deter.
Ouço duas pessoas numa só. Com qual devo falar?! Com o são ou o bêbado? Qual dos dois devo escutar?! Prefiro consultar o meu estatuto de cidadã da exclusão social sem casebres. Enquanto isso, o circo das organizações não governamentais prossegue. Os descolonizadores da infame hipocrisia evoluem no trapézio. Os homens são todos iguais, os sistemas políticos não. Os homens são diferentes na cor da pele mas as mentes estão intactas, não diferem, convergem. A genética é bem conhecedora: a maldade não tem cor, hipocrisia também não. Até os filhos renegam os pais, estes também. A árvore cresce para estar mais próxima do Sol. O filho deixa os pais morrerem à fome, os pais também. Os pássaros voam para as árvores porque se sentem seguros. Amanhecem com o silêncio porque a noite foi ruidosa.
Vendem-se armas a prestações a qualquer estado falhado. O fornecimento do armamento garante o exercício do poder ao exército. Os fabricantes incentivam a violência para o fabrico de mais armas. É por isso que as guerras modernas se fazem, se prestam a prestações. As fábricas da morte encorajam-se. Há sempre alguém que diz: as armas são necessárias para o desenvolvimento económico e social do nosso povo. E as populações correm para o seu destino da morte. A fugirem dela e da corrupção dos ditadores. Eles e ela estão sempre presentes. Estamos perante eles, quer queiramos quer não. Sem dúvida que isto é uma dádiva demoníaca que facilmente se verifica nos espaços dos cemitérios. Porque não fazemos de todos esses funerais o despertar da nossa luta contra a fome!? Os rostos das multidões dos mortos não são iguais.
Sempre a dependência, não a independência, surge quando a leitura não mora nos hábitos de um povo. Depois qualquer importação serve. E que por vezes a desunião faz a força. A demagogia constante é a inconstância da verdade. Não necessito do Ramadão para jejuar. A fome é a minha religião, nada tenho para adorar. Não posso evacuar a minha tristeza, disso tenho a certeza. Falar da SIDA é como o alastrar da guerra no Iraque, noutro e noutros como um comboio sem paragens, sem estações. Quantos mais morrerem, menos interesse despertam.
Quando o horror é trivial, habituamo-nos ao seu efeito mortal. É o quotidiano. Quando a monotonia das situações se repete como nos campos de concentração nazis, na companhia dos espectros da morte, o inimaginável acontece. Ficamos cúmplices dos algozes. Nas amarras dos malditos que ainda fazem dos seres humanos, o regresso aos campos dos membros esquartejados, acompanhados de uma sinfonia filosófica que orienta o final cadavérico da espécie humana.
A diferença que existe entre um cavalo e um homem é a seguinte: O cavalo tem quatro patas, o homem tem duas mãos e dois pés. O homem tem cérebro, mas muitas cavalgaduras não.
Mal governar é morrer rapidamente, é um suicídio não necessário, mas está sempre presente. É brincar com o fogo, queimar-se, abandonar o povo, demitindo-o das eleições. Ainda resta algo: a serenidade perdida jamais é restituída.
Isto não é Angola, são banqueiros e demais carniceiros na carnificina. Se fosse como eles, se roubasse estaria rica. Este é o único meio que ainda subsiste para enriquecer, que me provem o contrário. Não haverá ninguém que me atire o primeiro milhão de dólares para me desenganar porque a lei protege-os. Os poderosos e a gatunagem protegem-se dos fracos e desprotegidos, e daí o atroz terrorismo.
Não adianta recorrermos porque existem duas advocacias: uma para pobres, outra para ricos, e os deserdados… não foi em vão que esta palavra foi pela primeira vez pronunciada. Deserdados… porque os cancerosos poderosos a herdaram. A garantia da minha recente liberdade era atirar para o lixo os livros técnicos deixados pelos colonialistas, porque na nova vida não teriam nenhum proveito. Era assim que pensávamos na nova ideologia revolucionária: só os livros marxistas-leninistas eram edificantes, e ainda o são. Quando demos pelo engodo era demasiado tarde. Voltámos às cavernas, aos túneis do espírito sem luz. Novamente nas garras dos vampiros, a ouvir cigarra cantar e a ver formiga guardar
MEU POVO!
Quando ouvirem os políticos a falarem guardem silêncio. Quando eles se cansarem falem e sereis escutados. De noite não tenham medo das sombras das ditaduras deles. Pelo contrário, congratulem-se pelo luar que vos oferece a democracia. Não confiem em nenhuma igreja porque vos levam à escravidão. Porque nos tempos que correm devemos agradecer tão sublime jornada libertadora. Quando virem outros esfomeados passarem ao vosso lado não os desprezem. Eles indicam-vos os caminhos que esperam aos que desviam maliciosamente os caudais das nossas riquezas. Diariamente ouvirão muitos cantos de promessas. As mesmas músicas tocadas sempre nas mesmas rádios, jornais, TVs. Existirão sempre muitos ditadores com ares místicos mas poucos serão escutados. Nas tormentas das cidades aprendam a mergulhar nas multidões. Afastem-se e observem-nas. Verão oradores nos circos com muita palhaçada. Nas muitas horas vadias contem o tempo que resta para viverem. Verão depois que passaram muitos anos colonizados. E não terão mais horas vagas para recuperar o tempo perdido. Conhecem muitos governantes mas não pessoas. Nunca conhecerão ninguém se não conhecerem profundamente uma delas. E quando finalmente sós e abandonados, lembrem-se que os vossos pais nos silêncios das tumbas aguardam a vossa companhia e estarão sempre convosco.
E pior que o pior é ser melhor.
Talvez sejam os dias sem sol que nos fazem tristes e agressivos. Os dias quando nascem não são para todos, continuam apenas para alguns. Sempre os mesmos como uma dinastia milenar. Nesta terra nada mudou, muito pelo contrário, tudo piorou.
Não apreendo a matriz genética dos nossos políticos
Há armas nos quintais, nas ruas, nos lares, nos carros… e nas crianças. Postos de controlo disseminados, com carteiristas fardados. Sem civilização, com máfias, sociedades secretas. E atributos genéticos que nos condicionam. Como o gene que bloqueia a noção de compromisso, de responsabilidade: «Está bom, não há problemas. Daqui a pouco já passo por aqui. Depois telefono, amanhã passo aí. Vou telefonar sem falta. Na próxima segunda-feira, volto mais tarde.» É a política dos apocalípticos. Um passo em frente e três atrás. O pressuposto de uma política congénita: o mais importante é acabar com o povo.
Imagem: Aléxia Gamito