quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O empresário luso-angolano (21)




Vieira pareceu não dar nenhuma importância à Cornélia. Toca-me na mão e diz-me:
- Amanhã vai chegar o nosso Relações Públicas, o Kizua, que esteve pouco tempo em Benguela. Vai-te apoiar no que for necessário.
Vieira faz um contraponto para defender os seus pontos de vista:
Sabes o que é que anda a circular na Internet?
- Não.
- Um arquivo com o nome Emela. Contém a conta-corrente de um director de uma empresa estatal com o saldo de um milhão de dólares das comissões. Já conseguiu comprar duas casas em Portugal e financiar uma empresa, uma trading, que vende tudo o que é necessário para Angola. Se os revolucionários se servem da revolução, como é que eu sobreviverei? Eu também sou revolucionário e amo muito a revolução. Há que extirpar-lhe tudo… para viver é necessário roubar e corromper.
O meu telemóvel toca. É a Anita que me suplica:
- Ainda demoras muito amor?
- Não.
- Vem depressa, sinto-me muito só.
- Vou já.
Depois de chegar, a Anita encostou-se-me e beijou-me. Senti o corpo dela tremer.
- Tremes porquê?
- Preciso de um bombeiro.
- Para quê?
- Para apagar um grande incêndio incontrolável no meio do meu corpo.
A campainha da porta interrompe-nos. Ela vai abri-la, depois entra uma jovem.
Anita põe a mão na boca com espanto:
Oh!.. És tu?
É Malcolm X que vem disfarçado de mulher. Anita enerva-se:
- Que merda é essa? Mudaste de sexo?
- Não é nada disso. É por causa da polícia que anda atrás de mim. Vou demorar pouco tempo. Já está tudo preparado. Quando chegar a confusão, o tiroteio, não se assustem, somos nós que estamos a efectuar o golpe de estado.
Decidi intervir.
- Já leste o Tiradentes?
- Não, não li. Isso agora não interessa, o importante é passar à acção. Não posso perder tempo. Anita, se me acontecer alguma coisa... deixo-te isto.
Entregou-lhe um embrulho e antes de sair disse-me:
- ó branco cuida bem da minha irmã.
- Anita exaspera-se.
- Grande maluco, grande idiota com a mania que é o Malcolm X. Acho que é dos filmes de gangs que abundam por aí.
Não sabia o que dizer. Achei que tinha que falar qualquer coisa:
- Creio que ele não vai muito longe.
- Pois não. Aqui sabe-se tudo rapidamente, isto é quase como uma aldeia. Ele devia estudar e depois ir para outro país, como os outros fazem. Estou cansada e farta de tudo isto. Querido, vamos a mesa jantar.
- Já comi, não sinto fome, mas faço-te companhia.
À mesa ela retoma a conversa:
- Apesar de termos estudos e não conseguirmos emprego, é melhor saber sempre alguma coisa, porque mais tarde nos será útil.
- Sem sabedoria as sociedades entram em permanentes convulsões sociais.
- O meu pai gastava o dinheiro nas mulheres, nunca se preocupou com os nossos estudos. Ainda andei uns anos a estudar, depois acabei por desistir.
Ela acabou de arrumar a mesa. Eu estava sentado no sofá muito pensativo, arrependido por me meter numa aventura que não sabia como terminaria. Estava irremediavelmente condenado por acreditar na conversa de aventureiros e candongueiros. Lembrei-me que estava na África Negra onde mês após mês, a vida se degrada sem solução. Anita senta-se em cima das minhas pernas.
- Estás pensativo porquê?
- Não sei como sair desta selva.
- Eu sei.
Levantou-se, despiu as bermudas e a camisola leve. Abriu as pernas e exclamou:
- Olha para a selva humana!
- Apertei-lhe os mamilos com força.
- Ai! Seu selvagem deixa-os desabrochar!
Arrastou-me até à cama e prometeu:
- Vamos fazer mamada toda a noite.
Vieira ausenta-se à socapa para Portugal sem pagar os vencimentos a ninguém. Pagará quando voltar não se sabe quando. Pergunta-se ao irmão como serão as coisas. A resposta nunca varia:
- O dinheiro é com ele e não sei quando virá.

(Luanda. – No Kuango, província da Lunda-Norte, Norte-nordeste de Angola, os jovens revoltaram-se exigindo a independência. Há quarenta presos. In Rádio Ecclesia
Militares fardados e armados da presidência da República de Angola, ao serviço do GRN-Gabinete de Reconstrução Nacional da Presidência da República de Angola, destruíram mais de duzentas casas no município de Viana, arredores de Luanda. As mais de duzentas famílias estão abandonadas. In Rádio Despertar)

O telemóvel toca, verifico que é o Engenheiro Mecânico.
- Quero falar consigo.
- Está bem.
Notava-se que estava bastante chateado.
- Sente-se, acomode-se homem.
- Então…
- Então estou a ficar muito fodido com esta merda. Fui vigarizado, você como é o contabilista deve saber o que se passa.
Facilmente senti que vinha aí mais uma falcatrua do Vieira. Argumentei:
- Também fui vigarizado, conte-me lá o que é que o Vieira lhe fez.
- Aceitei trabalhar com ele na condição de ser sócio, depois isso não aconteceu porque aceitou o Heitor no meu lugar. Refilei e disse-me que receberia trinta por cento do total da facturação o que acabei por aceitar.
- Não pagou? – Tentei adivinhar.
- Vou-lhe já contar… ele disse-me que era melhor vir para aqui viver, porque ficaria muito tranquilo e que tinha todas as condições criadas para isso. Tudo corria bem até ao fecho das contas do ano.
- Deu-lhe a volta. - Insinuei
- Uma grande volta ao largo. Descontou-me a renda do alojamento, as refeições, a roupa que foi para lavar, água, luz, telefone, utilização do computador, só faltou o ar que respiro.
- Acho que não se lembrou disso. – Zombei.
- O melhor da festa foi quando me disse que a percentagem da facturação era vinte por cento.
- E você?
- Grande filho da puta maldoso… não sobra quase nada. Vou aguentar até aparecer outra empresa para trabalhar.
- O vosso acordo foi oral ou escrito? – Indaguei.
- Lamento meu amigo, foi vítima de má-fé.

CAPÍTULO VIII
O RELAÇÕES PÚBLICAS

Já tinha intimidade suficiente com o Kizua das Relações Públicas que me faz revelações espantosas.
- Ah! não sabe?! O doutor Vieira tem uma amante mestiça, já tem um filho de cinco anos com ela… coitada da dona Ava.
- E ela não sabe?
- Acho que não.
Kizua faz-me uma advertência.
- Tenha muito cuidado com ele, é muito perigoso. Conheceu o programador?
- Não.

Imagem: autor desconhecido