sexta-feira, 19 de junho de 2015

A PESTE


Até os jornais chacinaram.
E houve um terrível genocídio e logo o jornalismo do poder se apressou a informar com a mentira que afinal apenas foi uma peste.
E no poder da tirania está a consolidação desta democracia.
Este petróleo é o grande inimigo da paz.
Onde há muita repressão há muita corrupção.

Apesar de quarenta anos de independência, os corpos arrastam-se no suor da tempestade de calor que sobre eles se abate sem misericórdia. Carregam sacos, tudo o que é pesado nas costas nuas ou não, soltando o perfume do chocolate escuro africano. É a nova vida colonialista que persiste, que insiste daqui e da África não mais sair.
À noite, as crianças abandonadas pela maldição do petróleo mendigam próximo dos supermercados que alguma coisa lhes caia como que por magia. Mas ninguém delas se condói porque elas trazem a peste que o partido do petróleo criou e logo abandonou. Os seguranças são instruídos para enxotar estes parasitas que não entendem o que é isso de ser angolano. Só a uma coisa têm direito: levar surra por incomodar quem transporta comida. O petróleo é o deus dos milionários e o diabo dos miseráveis.
E as meninas crianças conquistam a noite, frequentam a escola da vida da prostituição desta nação. Ao lado o petróleo sorri perante mais uma batalha ganha, pois onde ele está toda a imoralidade, maldade e criminalidade se consente porque o poder há muito está ausente. E os adultos gozam de prazer só de pensarem que uma coisa pequenina de carne tão tenrinha lhes adoçará o prazer dos corpos viciados e que lhes fará das doenças imunizados.
Bandos de crianças e bandidos adultos patrulham a cidade nas noites cúmplices, como feras libertas das suas jaulas. As ruas e as noites são deles como se decretassem a lei marcial. Perante tal ameaça letal ninguém vive em paz, pois a qualquer momento o assalto é um facto consumado, agora de morte acompanhado.
Os discursos dos agentes petrolíferos viciados pelos quarenta anos sem mudanças, repetem constantemente as conquistas alcançadas pelos gloriosos combatentes da milionária facturação do petróleo que eles decretaram ser do seu interesse público. Assim como a terra de que já não é pertença dos ancestrais, mas surripiada à vista generalizada pelo poder dos marginais.
As ruas dos miseráveis são vitalícias e as do poder são jardins das delícias.
Que foi finalmente conquistada a liberdade, afinal tratava-se de terrorista maldade.
A Igreja pede ao céu para que desça à terra e faça milagres mas já ninguém acredita nisso.
O peso dos quarenta anos do opróbrio poder nas nossas costas está insuportável. Chegou a hora do render da guarda, inevitável.
Esta cidade é um vasto cemitério onde depois da meia-noite os carros que circulam são caixões.
Há vários anos que o Miguel andava à procura do sem sistema. Passou pela rua rei Katyavala e notou o sem sistema do banco millennium, mas viu o fumo da morte do seu gerador que há dois meses chacina, agora fazendo parte integrante do sistema de governo. Não é possível governar sem chacinar, mas quando o contrário acontecer nada haverá a fazer. O sem sistema é como a peste que arrasta cadáveres para as valas comuns.
Na rua que semelhança com isso nada tinha porque também não escapou à chacina, mostrava o cenário do fim do mundo a aproximar-se. Uma kinguila chorava porque caiu na conversa petrolífera de um senhor abastado, mas agora desbastado porque o preço do petróleo abandonou-o. E a desgraçada kinguila lamentava-se que lhe emprestou oito mil dólares. Mas ela nunca mais o viu. Muito mais tarde ela soube que ele fugiu com a família para a África do Sul com bwé de dívidas no mesmo estilo do empréstimo. Lá esbanjou o dinheiro, fugiu para Luanda deixando os filhos abandonados à miséria da vida, a morrerem à fome.
Miguel recordou-se de mais uma coisa da vida sem sistema: No dia anterior às 23.21 horas, uma jovem aí para os vinte e cinco anos com uma perna mutilada e de bengalas acompanhada, mantinha conversa com um conquistador segurança que se preparava para lhe aflorar a flora sexual. Quer dizer, nem mutilada escapa da sangria sexual.
Um ouvinte na Rádio Despertar comentava que a Assembleia Nacional já não é disso. É mais um comité de especialidade do Mpla.
Nas ruas da cidade da desolação, muitos jovens moviam-se como moscas na ânsia de alguém lhes comprar alguma coisa. É o único emprego que lhes resta porque os estrangeiros e o governo que os suporta são peremptórios, que os angolanos não sabem trabalhar e como tal os empregos são só para os estrangeiros.
Viam-se mulheres muito aflitas na caça de uns pingos de água que saiam das torneiras. Vaticina-se que a água continuamente perde pressão, já não enche as cisternas montadas nos terraços e fora deles, e que dentro de algum tempo se vá de vez. A energia eléctrica continua com a chacina dos cortes constantes. Mas agora com mais um aumento dos preços dos combustíveis a coisa vai ficar muito feia devido ao uso massivo dos geradores. Se antes já se cortava nos gastos agora corta-se em quê… nos despedimentos massivos é o que se vê.
Miguel, considerou que a luta mais terrível da vida das pessoas é conseguir vencer a miséria que teimosa nunca nos deixa em paz, porque a política salarial de Angola é: primeiro as amantes, muito depois ou nunca os trabalhadores. E que há quarenta anos que a chacina da população é um facto bem visível, assim como se exterminaram os índios nos Estados Unidos da América e noutros países, também em Angola há essa intenção, pois a acumulação do capital assim o ordena.
Miguel olhou e viu tudo sem sistema. Voltou-lhe à baila no pensamento a maka dos combustíveis, melhor, da chacina da subida dos seus preços. Viu uma cantina dos orientais que de imediato chacinou os preços dos seus víveres. Mel Gamboa, uma conhecida locutora da televisão apelou à manifestação. Nos tempos áureos do petróleo quando os preços eram milionários, era a leitura indicada para subir lentamente os preços dos combustíveis, mas tal não se fez porque os milionários do regime nadavam em dinheiro e não queriam parar. Agora, a nadarem em seco estupidamente sobem os preços porque o petróleo já não lhes dá riqueza. Quem não sabe governar com os preços muito altos do petróleo, com eles muito baixos utilizará a política da chacina.
E nas rádios e televisões do sismo do poder um comunicado corria, se ouvia: E quando nos nossos rios já não existirem peixes, quando eles se infestarem de cadáveres, então sim, poderemos afirmar com toda a certeza que Angola é finalmente livre e independente.
E o Miguel prossegue, analisa a chacina dos intelectos, pois sem eles não existe nada, apenas a terrifica tirania: E a literatura do petróleo está bem servida, guarnecida pelos génios escritores, poetas e outros campos de prospecção petrolífera, pois, sem petróleo jamais existiria tal imensidão de génios ligados às artes. Há uma coisa que não entendo, não vejo como é possível os democratas consentirem que os ditadores tomem o poder. Um jornal, qualquer órgão de informação que não denuncie a miséria a que o poder sujeita a população, isso não é, nunca será informação. Isso é o poder da imprensa da opressão.
Este governo da miséria tem milhões de miseráveis. Sim, é verdade, pensou com imensa tristeza o Miguel: Há quarenta anos que estamos sem sistema, aguardamos que a qualquer momento o povo imponha a sua vontade soberana, a reposição do sistema.
Há dezenas de anos que a peste está aqui, nos dizima, nos chacina.