Vai para três meses que Luanda está sem energia elétrica. Entretanto, há quarenta e dois anos os que governam por direito de sucessão apostam na diversificação da economia… sem energia eléctrica. E o fumo do gerador do banco millennium-atlântico na rua rei Katyavala mata-nos. Em Luanda, matar é facturar.

domingo, 21 de junho de 2015

Libertem-me da poluição religiosa!


As “sondagens” indicam que na próxima remodelação governamental, para os ministérios serão nomeados ministros portugueses, pois a isso o neocolonialismo obriga e a paz legaliza.
República da literatura do petróleo. República dos salteadores do petróleo de Angola. República dos assaltos de Luanda. República do assalto do registo eleitoral. Ó pobres almas que caminhais para as sepulturas.
Sempre na vanguarda do trabalho, os chineses pelas seis e trinta, sete horas, todas as manhãs, atiram com barrotes de madeira para o chão, mudando-os de lugar, fingem trabalhar.E outras coisas genuínas dos subdesenvolvidos, como deixar cair chapas de madeira e de zinco com o maior barulho possível. Depois, como os angolanos ainda não sabem serrar – ninguém lhes ensinou – os chineses com serras eléctricas mutilam madeira a esmo. É o propósito intencional, maldoso do não deixar ninguém dormir. É isto o desenvolvimento de Luanda projectado por salteadores, saqueadores chineses.
E às escravas do petróleo só lhes restam as ruas para venderem algo para comerem - restava-lhes – porque os estrangeiros queixaram-se nos senhores do petróleo que a negralhada a vender nas ruas, obscurece-as, escurece-as.
E para que a nossa vida melhore, vai melhorar, a corrupção é certa, basta nomear alguns chineses para ministros de alguns ministérios, e então Angola ficará numa boa. A nossa vida vai melhorar!
Não é possível mais sobreviver no campo de concentração de Luanda!
Qual a utilidade dos sacerdotes? Para que os nossos corpos alimentem as fogueiras que eles ateiam.
Os lordes do petróleo gostam muito de brincar às revoltas e revoluções.
De uma crente de uma igreja do Senhor: «Brinquem com as coisas, porque quando o Senhor chegar vão-se arrepender.»
Por mais que se tente evitar a escalada da desgraça angolana, Angola não é igual nem melhor que os outros países africanos mergulhados na debandada dos seus povos como errantes, como farrapos humanos. Angola é pior porque o neocolonialismo também é pior.
Quanta mais trampa fizerem nela se atolarão e nela perecerão.
Há homens que fundam a democracia, outros afundam-na.
Não será nada mau se em Angola existirem dois ou três democratas.
O investimento chinês é bom para África, mas para Angola é péssimo para a sua população.
O problema de Angola é que não há ninguém que consiga acabar com a miséria e a corrupção. Pelo contrário, só há quem as exacerbe.
Que Deus nos livre da poluição religiosa, tão nefanda epidemia ardilosa. Os hipócritas estão no poder e a oposição também o quer ter.
Cada cidade da Inglaterra tem uma história bonita. Cada cidade de Angola tem uma história de miséria.
Na república do ter energia eléctrica e água é sorte.
Fiquei muito triste ao tomar conhecimento que uma amiga de quarenta anos de idade está a passar mal, a fome montou-lhe guarda. Surpreendido pela notícia, pois ela vivia desafogadamente sem motivos que justificassem a instalação da desgraça no seu lar. Quantos mais casos existem? Muitos! Muitíssimos! Não há empregos! Luanda está invadida por portugueses que nos rapinam os empregos sob o disfarce da mão-de-obra especializada, o que é notoriamente mentira do sou português e angolano. Como é possível os portugueses serem angolanos?! Aqui da praça política nada há a esperar de uma oposição esquecida. É só falar, falar, enquanto do outro lado os prelados dizem que devemos orar, orar. Manos e manas! A violenta maré que se aproxima traz-nos luto.
Libertem-me da poluição religiosa!
Mais um casal português desembarcou no prédio. Sempre a mesma questão se coloca: como é que saídos da miséria profunda conseguem os cinco mil dólares mensais de renda?
Se os portugueses fogem do sonho irrealizável de Portugal, porque o procurar no pesadelo de Angola? Fugir de um inferno para outro nunca é solução, é expiação.
Os missionários vêm com a missão de evangelizar os mwangolés, mas estes refugiam-se na feitiçaria. Os portugueses vêm com a missão de civilizar os mwangolés, passar-lhes conhecimentos do homem branco, dos ardis colonialistas que levam à escravidão.
Já perdi o interesse em ouvir a Rádio Ecclesia. Parece a Rádio Renascença do tempo de Salazar e da nossa senhora de Fátima. Aliás, Angola está como Portugal antes do 25 de Abril, muito mais feroz.
Faço tudo o que quiserem, mas por favor não me mandem para a embaixada de Portugal em Luanda, porque lá vê-se bem que Deus não existe. ´
Por vezes parece-me ser melhor extinguir os partidos da oposição existentes em Angola e criar novas formações políticas.
O melhor momento da nossa vida, é o saber esperar a chegada do momento ideal para desferir o golpe sem misericórdia no nosso inimigo.
E o nosso petróleo deles é a grande fonte de inspiração, o viveiro da literatura do petróleo, dos poetas, escritores, uma refinaria de intelectos.
A única riqueza nacional de Angola, a sua primeira maravilha é o petróleo.
Continuo a ouvir parvoíces nas rádios de consumismo primitivo. São tantas bocas de aluguer que ao desinformarem como regra, como se fosse possível lavar todos os cérebros. Como é bom despedaçar Angola.
Agora, qualquer um é advogado.
Agora até as mães mwangolés são como as obras dos orientais, são mães descartáveis.
Mas o mwangolé serve para quê afinal, pois que quando contactado para um compromisso, um serviço, diz que: «Daqui a cinco minutos estou aí.» Mas não aparece, tudo não passa de uma grande merda irresponsável. E assim o estrangeiro avança, apodera-se de Angola e depois os mwangolés lamentam-se que Angola está em poder de estrangeiros, e que eles os escravizam. Pois com toda a certeza, é isso mesmo que acontece, deixem de ser burros!
No paraíso das epidemias, Luanda tem mais uma catástrofe na saúde. Estarmos sob uma invasão – é melhor chamar-lhe de república das invasões – de mosquitos de todas as espécies, de dia e de noite os mosquitos ceifam-nos.
O ideal é ter uma imprensa que nunca denuncie os terríveis actos da péssima governação, sim, uma imprensa ao serviço do desgoverno, sim, isso é o ideal.
Nem tudo está mal. Por exemplo, a miséria funciona a cem por cento, isso é muito bom, porque esclarece a meta conseguida pelo governo, promessa cumprida. Aplausos para este governo que trabalha muito bem, e do qual esperamos que continue mais quarenta anos no poder.
O jornalismo que se sujeita às leis do jornalismo do petróleo, não é, não pode ser jornalismo, é um jornalismo comodista. O petróleo ilumina-lhe a corrupção neuronal, e isso não é jornalismo, é criadagem, é serviçal.
A mana Antónia lá foi outra vez com as duas jovens filhas com células falciformes para o hospital. Mais uma vez o dinheiro que conseguiu amealhar desapareceu.
Todos os caminhos de África desaguam em Lampeduza. Já não se chama continente africano, é continente Lampeduziano.

(Amigo leitor, a partir da próxima edição do Folha 8 – o nosso Charlie Hebdo – sairá o primeiro episódio da série O Rei do Petróleo, não perca.)