terça-feira, 3 de julho de 2012

O Cavaleiro do Reino Petrolífero (26). Difícil é andar sob o aguçado fio desta catana. Dum lado o inferno, do outro o purgatório. É esta a Nova Vida.



O relacionamento familiar provoca alguns ou imensos efeitos biológicos no nosso corpo, na nossa saúde. Incluindo as relações com os vizinhos. Estes relacionamentos são importantes para a nossa saúde. Reconsiderem sempre antes de efectuarem qualquer invectiva. A complexidade da alma humana reside no enigma da alma feminina. Uma mulher é sempre uma incógnita, um ser desconhecido.
Se fosse possível não dormir, não dormiria. Escreveria de noite e de dia.
Creio que muitos anos depois consegui finalmente descodificar as simples palavras de Albert Camus: «Não escreverias tanto sobre a solidão se dela soubesses extrair o máximo» Sim! Não devemos deixar-nos subjugar pelo tempo da solidão, pois que isso nos conduz ao encantamento do estrangeiro na sua pátria. Estrangeiros no nosso lar. Acabando por descobrir que a beleza das nossas Negras é apenas estrangeira na sua pátria, no seu Continente. Uma angolana sem pátria mas contudo globalizada. Já não é negra. A beleza da negra acabaram-na para sempre. O que dela resta está nos ínfimos circuitos dos chips da informação que inventaram para a manobrarem, ludibriarem. E tudo se perde, se extingue, jamais volta. Acredito que a realidade da afirmação de Albert Camus é um pedido de revolta eterna contra todos os que pretendem que sejamos estrangeiros na nossa própria terra.
Quando aflitivos chamaram-me muitas vezes de patriota. Na noite da independência protegi as costas de Agostinho Neto. Continuei a arriscar a minha vida por estes sacanas. Depois chamaram-me igual número de vezes… colono. Como podemos confiar nesta gente que ainda nos governa?!
Mais uma empresa com autofinanciamento. Há quatro meses que não pagam aos trabalhadores. Onde estão os sindicatos? Já não existem, o poder comprou-os.
Olho para a vendedora de pão com chouriço: habitualmente por volta das treze horas a jovem senta-se no parapeito cimentado do jardim descuidado da Angop, Angola Press. À sua direita fica a Direcção Provincial do Ministério da Juventude e Desportos. Tirou o alguidar de plástico amarelo da cabeça e poisou-o à sua frente. Retirou de um braço o pequeno balde plástico azul que serve para acomodar alguns objectos do seu bebé que carrega nas costas. É bonita, deve ter aí uns dezassete anos. O penteado deixa cair intencionalmente alguns restos de cabelo no seu rosto. Tem a cor do sol amarelo do fim dos dias que nos restam deste eterno poder faraónico. O alguidar abarrota de pão, parece que não conseguiu vender nada. Aparecem três clientes das escolas. Serve o primeiro. O bebé chora, amorosamente encosta-lhe a chupeta do seu mamilo. O cliente entrega-lhe o dinheiro. Inicia uma dança para embalar o bebé. Serve os clientes que restam. Vem mais três, mais um, mais outro. Cada vez que recebe o dinheiro vira-se de costas e dança, agitando o seu magro traseiro enquanto olha enlevada para o seu bebé. Vai-lhe dando palmadinhas no delicado rabinho para exprimir a sua felicidade e a pensar alto: «Filhinho, hoje não passa fome!» O alguidar está quase vazio. Ela tira um pão, e portando-se como um cliente come também o seu almoço. O negócio hoje deu para comer. Em homenagem à sua beleza, um jovem oferece-lhe uma gasosa. Ela bebe e come tão contente enquanto dança imaginando que está na festa da eleição da Miss Angola. 
O general passou por aqui fardado. Parece que está com medo. Tinha um segurança militar colocado num canto estratégico, com a pistola pronta para ser sacada. Quatro senhores brancos teciam observações sobre as obras. Olhámo-nos durante uns momentos. Todos me olharam, apontaram os dedos na direcção do nosso prédio. O general continuou a olhar-me de rosto duro. Deu uma grande gargalhada e exclamou: «Oh! Essa merda aí?!» Bajuladores, todos o acompanharam no riso. Depois foram-se embora. Preocupado contei tudo à Lwena, e acrescentei.
- Vamos embora daqui, vão-nos roubar a casa!
Ela disparatou.
- Vá você se quiser. Vou arranjar uma casa de capim. Não se esqueça do seu filho.
- O almirante já me disse que ele é muito perigoso.
- Oh! Ele está com Sida, costuma ir em tratamento na África do Sul. As moças aqui da área são todas dele. Lembras-te daquela vizinha, a Mitó?
- Aquela ali do outro prédio à esquerda?
- Sim, essa mesma. Está com Sida… Vai-se casar e o marido não sabe. Vai apanhar Sida… dá-me aí esses pratos para lavar.
- Queres-me obrigar a viver na miséria, viver num país assim é viver? Se falamos demais corremos o risco de sermos assassinados. Não tem nenhum interesse viver nesta merda. Que porcaria de vida esta.
- Se quiser ir embora vá, ninguém te obriga a ficar aqui.
- Mas para onde o marido vai, a esposa acompanha-o, não é sua parva?!
- Faça como quiser!
- É muito difícil viver com esta população. Gostam de viver na miséria, na escravidão. Não sabes que estás outra vez colonizada? E que este colonialismo é pior que o outro?!
- Ah! Quero lá saber disso!
O meu filho alerta-me:
- Pai… deixa eles roubarem. Se fazes queixa ao ministro das Finanças vão-te matar.
- Mas ninguém se revolta porquê?! Grandes burros! Mataram o Savimbi, agora não têm ninguém para se desculparem. Nem falam nada sobre os assassinatos selectivos…
- Pai, se continuares assim também te vão matar.
- Sim. Difícil é andar sob o aguçado fio desta catana. Dum lado o inferno, do outro o purgatório. É esta a Nova Vida.
Continuam a enviar-nos o que importamos… tudo… cebola, alhos, batata, limão, tudo envelhecido. Carne que depois de frita, cozida ou assada dez minutos depois não se consegue comer. São as sobras da democracia deles. E ainda rematam:
- Não se preocupem, isso é para os pretos, eles comem qualquer merda. Estão habituados a passarem fome.
Carlos Contreiras do PRA, Partido Republicano Angolano, afirmou que as fronteiras do Norte e do Sul estão a descoberto. O país está a ser invadido. Significa que Angola será dominada lentamente por outros povos estrangeiros. O país não consegue controlar as fronteiras, porque militares e polícias abandonados cobram qualquer coisa para sobreviverem. Depois cantarão que o país está a ser novamente invadido, apelarão outra vez ao falso patriotismo da Pátria ameaçada. Não resultará porque o povo perdeu a identidade cultural. Evoluíram, são nómadas. Trinta anos depois sempre com as mesmas tiradas: Brevemente teremos em Angola uma fábrica para suprir as carências dos mais necessitados. A curto prazo será inaugurado um empreendimento que há muito se esperava. A médio prazo, Angola não terá mais que importar medicamentos porque será construída uma das fábricas mais modernas de África. O financiamento está devidamente assegurado. Para nos informar disso temos na Rádio Nacional…
No próximo ano com financiamento garantido de cerca de 50 milhões de dólares, desconhecem sempre os montantes exactos, teremos o abastecimento de água garantido. A energia eléctrica com os investimentos em curso sobrará para alimentar outras áreas. Nos próximos anos Angola, com grandes financiamentos conseguidos através da Anip – Agência Nacional do Investimento Privado, acabará com a fome no país. Estes investimentos contemplarão numa primeira fase as populações mais carentes. A notícia correcta seria: A Filda, Feira Industrial de Luanda, conseguiu este ano um número recorde de empresas portuguesas que expõem nesta feira os produtos e os seus serviços. São cento e quinze empresas que dão tudo por tudo para exportarem a sua miséria para Angola. Depois exportam os lucros para o seu país. Para financiarem os seus projectos e nós aqui a passarmos fome.
Uma sobrinha quando lhe falo nestas coisas canta-me: Estou bem vestida, bem despida estou. Graças ao Eterno, que me escravizou.
A Lwena foi ao mercado do Roque Santeiro comprar bolachas, rebuçados, doces, cigarros para que não morramos de fome. Chegou muito cansada, arrasada:
- Ai meu Deus! Os bandidos queriam roubar-me tudo. São tantos, estão por todo o lado. É impossível, eles querem roubar dinheiro e se nos distraímos roubam-nos tudo.
- Está como tu gostas, sua colonizada!
- Sim, muito obrigado!
- LWENA!!!!!
- Diga!!!
- Se gostas de estar nesta merda aguenta.
- Já estou habituada.
- Desculpa, mas já não tenho paciência, estou cansado. Já não consigo aguentar esta merda. Quero ir-me embora.
- Pode ir.
- Ó Lwena!
- Diga!
- Estamos a ser exterminados e ninguém ousa opor-se a toda esta merda?!
- Se você acha que é muito corajoso, então vá lutar com eles!
- Viva a vossa escravidão sua colonizada de merda!
- Muito obrigado!
- Tu queres é um Stay free no meio das pernas.
- Pode-me explicar que merda é essa?
- Sua parva, sua burra, não sabe nada?!
- Já sei que nós somos todas burras, ignorantes, parvas. Você que sabe tudo, é um grande cientista, vá, explique-me!