segunda-feira, 9 de julho de 2012

O Cavaleiro Mwangolé e Lady Marli na Demanda do Santo Graal (22)


Vivemos, mas muito raramente os nossos desejos se cumprem. E contudo continuamos nessa regressão, porque adoramos viver na ilusão dos desejos irrealizáveis. Procuramos sempre o que não encontramos, fingimos que existe sempre um caminho que nos conduz à salvação. Mas, a nossa libertação está no infinito do nosso íntimo amor. Só que não temos coragem para o declarar, porque tudo à nossa volta se degrada. Quando decidiremos reencontrara o amor?

O lucro é inimigo da civilização, pois para existir, sobreviver, usa a destruição do nosso planeta. Constantemente enche a Terra de feridas, pois é dela que se extrai o húmus que se transforma em dinheiro para enriquecimento de alguns e a miséria dos outros. Apesar de há muito se emitirem constantes alarmes de que continuar a viver assim, na espoliação desordenada da Terra, surgiria o final trágico. E parece que conseguiram destruir o que ainda nos restava: uma ténue esperança.

Entretanto no reino dos répteis, o Mor dos dinossauros apresenta o seu lamento à teia réptil:
- Mas não dá para entender… porque é que eles nos querem acender, incendiar? Se nós somos um órgão especializado de informação e só pensamos no nosso povo. O meu Jornal do Povo é o único que chega a todas as latitudes, sempre em todos os tempos, em todos os lugares e em todas as horas. Temos a nossa obra-prima, a página onde os nossos leitores se extasiam no obituário. Somos o único diário, o melhor, o da imprensa excepcional. Nem concorrentes temos, porque também ninguém se ateve a desafiar-nos. Mais uma coisa lhes garanto: vamos incendiar Jingola, isso é uma vitória certa, adquirida. Daqui, nunca sairemos da Pedra deste Jornal do Povo Jingola.
- Tá bom, Mor! Nós também estamos em todas. Aliás o nosso mote é preciosamente o informar com verdade. Uma rádio de Norte a Sul na nossa Gonduana. Informamos o que nos convém, melhor, claro, que não vamos noticiar em pormenor o que se passa no Egipto e noutras praças contestatárias, revolucionárias. Não queremos apressar o fim da nossa ditadura exemplar. No fundo tudo se nos passa por uma mera questão réptil.
- Pois é, nós por aqui na nossa TV, também a única de âmbito nacional, de universo gonduano, não sabemos bem como gerir, melhor, digerir, tragar, as imagens do colapso das outras ditaduras, incluindo a nossa que também vai acabar… calma Mor… também entre nós não se pode emitir opinião? Caramba! Já estavas com o telemóvel para ligares para a secreta, é pá, deixa-te disso! Como sempre, nós somos o único país do mundo onde nada nos acontece. Essas coisas da Síndroma Tunísia aqui nunca chegarão. Um exemplo: se nem o desastre da economia global nos atingiu, quanto mais uma aventura de um punhado de revoltosos que querem desestabilizar a nossa democracia.
E de repente ouve-se grande vozearia no exterior. Ouvem-se perfeitamente gritos de uma multidão de manifestantes que exige:
- Abaixo a ditadura, não os queremos mais no poder!!! Os vossos dias estão contados!!!
E os répteis olham uns para os outros, espantados, de olhos esbugalhados e gritam em uníssono:
- Acabou-se o nosso decrépito tempo, eis que outro avassalador, anunciador, nos chega de levante. Ai! Meu Diabo! Afinal há tempo para matar, e tempo para as ditaduras derrubar!

Os ditadores são como as bananas podres… não têm futuro.
Ditador, é ainda também, uma profissão de alto risco nada compensadora, porque os prejuízos finais não justificam os lucros actuais.
Eis que a espada de Damocles surge e suspende-se de modo extraordinariamente perigoso, no lamento de profundo veredicto, verídico de quem já não tem mais aspirações e esperança no dia de hoje, quanto mais no de amanhã que não existe: «Toda a gente se está a queixar. Os chineses também andam na zunga (venda ambulante nas ruas) e nós, estamos a ficar sem negócio. Isto está muito mal, os estrangeiros nem na nossa terra nos deixam vender. Estão-nos a roubar tudo».
E os ditadores ainda remanescentes, com os seus regimes mais retrógrados, ditatoriais, proíbem qualquer manifestação.
Mesmo que seja um profissional muito competente, a profissão de ditador já não tem futuro. Mas há sempre alguns que resistem, para finalmente verem os seus bens que pilharam das suas populações promovidas à escravidão, irremediavelmente congelados.
Ditador: tu que insistes na ditadura, resigna e abandona o poder, deixa-o nas mãos da democracia. Entrega-o já, que ainda te safas. Se insistires, terás o mesmo dos caídos. Telefona já ao Barack Obama, que ele te aconselhará qual o melhor, entre os piores muros de Berlim da tua desdita.

Por aqui, sempre ao acordar pela manhã, sinto o peso constante do chumbo da ditadura do regime, e da ditadura dos chineses, brasileiros e portugueses, etc., e depois sorrio, porque a liberdade não demorará, e a ditadura e os seus apoiantes serão inevitavelmente derrotados. A liberdade e a democracia triunfarão.
Se continuarem no jogo ditatorial, estarão a remar contra a maré da História. E nesta contenda não existe jangada do desespero para se agarrarem.

Lavagens, novas tecnologias.
O sistema marxista-leninista continua impermeável, inalterável. Nada de vendas a crédito, nem o sistema de letras. Isto que desenvolve uma economia e promove muitos empregos que estranhamente ninguém fala. Talvez por desconhecimento, assim como alguns que se escudam no backbone, significando nova lavagem nas comunicações. Ser ou não ser, eis a nossa lavagem.
- Pois, como é meu, como vão essas lavagens?
- É pá não me posso queixar, pelo menos os meus fatos são impecavelmente lavados na minha lavandaria de confiança.
- Olha, receio que a nossa linguagem se desnorteie.
- Não te entendo…
- … vê-me só este monte de notas de cem dólares…
- Possas, onde as lavaste?
- Ah! Ainda não sabes!
- Não?!
- Agora, temos um assoberbado sistema de lavagens ao domicílio, perfeitamente legalizado.
- !!!
- Vou-te explicar a contento. Antes, as lavagens monetárias, é disto que te falo, nada dos teus fatos, faziam-se às escuras, agora fazem-se às claras.
- E?
- Então, agora, podem-se lavar dólares às toneladas, porque já temos lei que legaliza todos os movimentos sombrios do erário público. E como continuamos sem contabilidade organizada, agora é que é facturar a sério, porque dantes era a brincar.
- Ainda bem. Olha, por acaso tenho alguns familiares e amigos, aos quais corro já a informá-los. Não imaginas como ficarão maravilhados. Já agora… e quanto de comissão?
- O habitual.
- Isso é uma boa notícia, até porque tenho um irmão que está sobremaneira aflito com o fecho das contas da sua contabilidade. É que tem um lucro astronómico, e não sabe como fugir ao fisco.
- Isso é fácil.
- Ai é?
- Inventa documentos… os mais usuais são creditar na conta dos directores, administradores, uns milhões de dólares de vencimentos.
- Essa é boa, vou já para a lavandaria.
- Vai, e boa lavagem.

E a notícia correu de lés a lés. E todos se encantaram, porque outra lâmpada de Aladino jingolana bem lavada, dela sai o génio da nossa lavagem nacional e internacional. Os aventureiros e especuladores internacionais de imediato subiram os preços do petróleo. Nada mais simples: basta-lhes conluiar que o canal do Suez vai fechar.
E assim Jingola encheu-se de lavadores. Vão nas nossas praias e lá estão eles com as nossas mboas, ávidos também pela nossa lavagem solar.
E uma nova profissão bancária surgiu: O lavador de conta.
- Alô, sim, é do meu lavador de conta? Ok! Estou bem sim! Neste momento qual é o saldo da lavagem na minha conta?

E ainda há por aí muitos eleitos pelo povo, que depois quando fugirem, nem nos aviões conseguirão lugares. O motivo é muito simples: lotação esgotada.

Inglórios caminhos. Neste momento, Jingola não necessita de templos religiosos. Necessita sim, é de boas universidades e de bons professores que libertem os Jingolas da superstição religiosa. E que aprendam o que é a realidade através dos bons livros dos mestres da literatura universal.

Este é o sonho de liberdade e democracia deste Regime. Há 4 anos atrás, o nosso filho de trinta estava no Hospital Josina Machel. Necessitava de uma urgente transfusão de sangue A negativo. Apesar dos apelos na Rádio estava impossível. Já lhe dizíamos adeus. Até que um candongueiro do hospital disse que bastavam 100 dólares. E o nosso filho salvou-se in extremis. Pouco depois um médico amigo do comité de especialidade abandonou-me por motivos políticos. Até os médicos… este Poder é o zero no palácio da ditadura da opressão.