terça-feira, 17 de julho de 2012

Os Jasmins da Lwena (10)



«Rebentou a bolha em Angola? Há sinais por parte da banca privada relacionados com a possibilidade de já estarmos diante de um estoiro da bolha imobiliária que se formou no mercado angolano onde a construção do metro quadrado chegou a ultrapassar os 9 mil dólares. O problema agora é que as promotoras que se endividaram junto dos bancos não estão a conseguir vender os apartamentos e os escritórios a um preço que lhes permita reembolsar os seus créditos. Os bancos que financiaram os projectos já começaram a ver "lulas" em matéria de crédito mal parado. Ainda ninguém assumiu o estoiro, mas de facto nesta altura pode-se dizer que os bancos já deixaram de financiar novos projectos.» In morrodamaianga.blogspot.com


Tímida, face a face com um segurança precavido de nervosismo manual na coronha da pistola, de caubói que a insinua saltar da sua coxa. Revivo a imagem do tempo saudoso da fronteira americana, do Billy the Kid, Jesse James, depois transportados para filmes. Ele sentia-se caubói desses westerns, herói do faroeste. O segurança escondeu-se na habitual desconfiança.
- Nome, raça e chipala tal e qual como está no bilhete de identidade. E vem falar com quem?
- Com o Bispo do Imobiliário.
- Falta o nome e a raça do bilhete de identidade!
- Lwena… a espoliada dos casebres.
- Não se mecha, não toque em nada e espere só um momento.
O portão preso de barras de aço importadas libertou-se. Aventurei-me para o interior, para lá do portão e descansei intramuros. Chegou-me uma pontada de mal-estar alimentada por dois cães que se movem. Ladram-me de improviso, de aviso, impõem-me gélido respeito, parecem lobos puros, guardas das SS para guardar os que vivem no receio constante de serem assaltados a qualquer momento pelos espoliados das casas-casebres. Parece que a pressão sanguínea do meu coração estabilizou quando me assegurei que os canídeos estavam atrelados, controlados por seguranças. Antes da porta de entrada, à esquerda, diviso uma enorme cruz decerto por chineses betonada, onde se lia com muita religiosidade: VOTEM SEMPRE NO NOSSO SENHOR ETERNO, NO PARTIDO DO VOSSO CORAÇÂO!
Entrei numa enorme sala e logo me informaram que o reverendíssimo não tardaria. Sentei-me a estudar o ambiente. Havia uma inundação, como que um cemitério de imagens de santos à mistura com cruzes que pareciam integrantes de uma colecção. Como mandam as boas regras da superstição, tudo na semi-escuridão para impregnar a sugestão do misticismo. O sacerdote vem vestido de máscara divinal, de aparência lustrosa como se acabasse de descer do céu, saúda-me:
- Ó Lwena! Bem-vinda minha à minha nova vida!
Levantei-me mentalmente abençoada, transparecida na minha pequenez, perante tanta grandeza evangélica. Cumprimentámo-nos e ele lança-me a sonda:
- Vens reviver as cruzadas?
- Por acaso até não. Ando à procura do paraíso perdido que me prometeram.
- É esse condimento que falta na cozinha da igreja. Hum, hum, um paraíso perdido, que retorna às nossas contas bancárias, isso agrada-me muito. Óptimo… a Igreja Veni, Vidi, Vici, e o Bispo do Imobiliário abençoam-te.
A minha atenção prendeu-se numa vitrina com fragmentos de ossos, folhas de oliveira, restos da túnica de Jesus Cristo, azeite, água, terra, restos de madeira também da cruz de Jesus crucificado. Sem dúvida que mais parecia um museu da cristologia. Para pobre idiota como eu constituía um enredo que inspirava… desvendar, aclarar, entrar na invenção do culto religioso.
- São relíquias autênticas… achados arqueológicos?
- Santas relíquias, objectos dos nossos milagres. O Fundamento inventivo a descoberto.
- Bispo… e estão abençoadas?
- Abençoamos tudo. Esse relicário abençoei-o pessoalmente.
E logo pegou num frasco de azeite e explicou o seu mistério.
- Com o azeite azeitamos: foi ele que ungiu Jesus, veio da Terra Santa. Claro que poupamos despesas juntando-lhe óleo, senão a falência encontra-nos. A água procuramo-la por aí no rio mais próximo.
- Como conseguem atrair crentes que produzem musicada medonha, como se soprassem nas trombetas do Apocalipse?
- É pá, estrondamos a praça porque eles perderam os ouvidos. Surdaram devido às maratonas das noites perdidas. Os vizinhos, os poucos que ainda conseguem audição, têm razão que não os deixamos dormir.
- E quando eles protestam?
- Quando nos julgam, anunciamos-lhes a excomunhão, que o apocalipse já está aí. Não me digas que também não vês os sinais, isso é o que não nos falta. É muito importante manter a superstição nestes gentios. São mais idiotas que os carneiros, dominam-se facilmente… como a maria-vai-com-as-outras. E oro-lhes: alegrem-se, sejam barulhentos porque ganharão a liberdade de consciência.
- E quando no culto doentes com dores de cabeça, sistema nervoso arrasado, a rebentarem de estresse?
- Acreditam piamente nas nossas palavras. São altos cúmulos da crendice, parvoíce… idiotice.
- O negócio vai de vento em popa, Bispo.
- Prefiro não musicar esse salmo, como amizade segredo-lhe que facturamos só em dízimos, quatro mil vezes cem, fora as doações.
- Outra acumulação mundial, episcopal.
- Veni, Vidi, Vici.
- E o manancial voa para Olísipo.
- Para o meu Éden! Não confio nesses do Politburo. Há o perigo das eleições com muita fraudulência escondida. Receio que estejamos a voltar aos velhos tempos dos combates monótonos que os Gregos iniciaram na Baía de Aulis.
- E as curas milagrosas das dores de cabeça, da barriga, dos dentes, infertilidade, arranjar emprego, esposa, esposo…
- Fácil, é preciso ter fé, não há mal que sempre dure.
- A fé… curar dor de dentes é milagre?
- É sim senhor! Acabem com os doces. Passam o tempo a dentar chocolate, ordenamos que parem, a dor passa, e logo berram que foi um milagre.
- E os estouros da cabeça?
- Bendizemos para não ouvirem música muito alta, excepto na nossa igreja. A conspiração internacional barulhenta, aterradora da música, atrofia o cérebro, ele deixa de funcionar e surge a cura.
- E as dores de barriga?
- É tormentoso convencê-los que parem de comer o funji de bombó durante uns dias. Conseguido, cura garantida.
- E a badalada infertilidade?
- O machão afirma convicto que ela é culpada. A querida, atordoada com lamúrias acredita que Deus a abandonou. O macho em casa relincha que a põe fora de casa se a barriga não inchar, que facilmente a troca por outra. Dialogamos, enviamos o marido para o nosso posto médico… já está! As infertilizadas fanatizam-se, passam palavra que foi mais um milagre.
- E o emprego? Esse é que é um grande milagre!
- Aliciamos um crente empresário e o emprego está-lhe garantido.
- Caçar esposa, esposo…
- Enfiam-se, galam-se para aí, fintam-se, resolvem isso entre eles. Elas caçam marido e eles também as caçam.
- Igreja Veni, muito PIB nos milagres.
- Igreja sem milagres não sintoniza. Os crentes vivem, precisam disso. Andam sobre brasas porque desatinaram. Como comboios desgovernados, perdidos sem estações, apeadeiros, sem paradeiros. Como avalancha seca de pedras a rolarem por montanha, que acolhemos, o paraíso lhes prometemos. Entes em tais condições acreditam em qualquer coisa. É só ver como foram as últimas eleições legislativas.
- Operários contratados para a fábrica do Senhor, que na realidade são fabricantes de dízimos.
- Está a brincar ou quê?! Olhe que não se brinca com as Sagradas Escrituras, e muito menos com o santo nome de Jesus! Isto é-nos muito sagrado!
- Colonialismo, neocolonialismo, não há diferença. Difere nas mudas do capital volátil.
- O que é que disse?!
- Que os mitómanos se igualam.
- É isso! Não há crença sem melómanos. Um órgão soberbo bem afinado põe os crentes em êxtase. Não me pergunte que não sei porquê, ninguém sabe... como o amor.
- Ninguém sabe…
- Verdadeiramente ninguém o sabe explicar. Batemos na boa porta desse desconhecido com a religião, os crentes vão na conversa e facturamos em nome do amor.
- Tirando proveito do instinto de conservação das espécies sem identidade cultural
- Sim! Sim! O amor de fábrica com os crentes convencidos que são operários… que trabalham para o amor do Senhor. Não somos diferentes dos outros. Ganhar dinheiro com a crendice humana começou na Terra com os primeiros humanos. Somos apenas maiorais espertos. Despertámos para explorar o passado e os próximos futuros. A meu ver não há nenhuma revolução que acabe connosco. Quando revolucionam, no início expulsam-nos, deixam-nos espoliados, martirizados, empalados. Enfim, culpados de tudo. Depois a sanha esmorece. E reencarnamos mais vigorosos, mais poderosos. Sumamente a religião é o melhor negócio. Sem dúvida que é o negócio mais apetecível. Custos inexistentes porque os crentes suportam-nos. É o melhor negócio porque é patrocinado por Deus. Num piscar de olhos somos clientes VIP dum banco. É a nova vida.
- E o ausente Voltaire quando reencarna, os alicerces bíblicos desmoronam-se?
- Facílimo! Denunciamos aos crentes que os falsos profetas chegaram. Eles arrebatam-nos e queimam-nos na secular fogueira.
- E se não resulta… outra Contra-Reforma?