sexta-feira, 20 de julho de 2012

Os Jasmins da Lwena (11)



O mais importante é destruir. E depois de lhe espoliarem o casebre – a razão do seu viver – a espoliada montou uma parca venda junto à porta dum prédio. Mas mesmo assim não conseguiu sobreviver, porque os defensores da autoridade espoliadora também lhe espoliaram o que lhe restava da sua vida. Agora tem como meta a prostituição do seu corpo, mas o seu espírito de revolta permanece bem latente, forte, determinado, sempre presente. O poder também costuma ser muito macabro para quem nele pretende deitar-se até à eternidade. E depois desse apogeu descem-se todos os degraus da baixeza, como o navio que quando independente navegava sempre para bombordo, agora perigosamente adernado navega para estibordo. Este é o método escolhido do suicídio governativo. É este navio carregado de fantasmas que ainda lhe chamam independência. E os fora-da-lei inundam-nos de decretos judiciários que nunca cumprem. Então, para quê a governação? E com o crime generalizado e não sancionado, revela bom gosto quem implanta este actual folclore da Somália. No fundo fingimos que existimos.



- Formulamos: Ab hoc et ab hac, que significa: por aqui e por ali : a torto e a direito. Vamos no seguro, seguramos, lavamos as torneiras e pulpitamos que as fontes governamentais purificaram-se… para que Dat veniam corvis, vexat censura columbas, que traduzido diz: A censura poupa os corvos e persegue as pombas.
- Os templos das memórias aquiescem mudos, soçobraremos sem mudança? Que as seitas cozinharam no pão do espírito?
- Claro! É o apanágio das seitas religiosas que vagueiam de noite como os gatos. Um tolo disfarçado de lobo visionário cunha um culto qualquer, enche os bolsos e vira empresário. O aproveitar da religião é sucesso para toda a vida, sabe porquê?
- Faz render o peixe!
- E livre de impostos.
- Sei que daria boa sacerdotisa, mas não me agrada.
- Na Veni, Vidi, Vici, há lugar para si, aceita?
- Não!
- Prefere morrer de fome na velhice?
- Não tenho coragem para enganar pessoas. Afinal não existe nenhuma diferença entre as igrejas e os políticos.
- Lwena, espoliada das noites e dos casebres… tanta demanda, tanto tempo perdido em vão à procura dele…
- Dele?!...
- Sim! Sim! Do dinheiro, não é possível existir religião sem dinheiro. A riqueza monetária é a demanda do nosso Santo Graal. Por isso mesmo não aceitamos nem nunca ousaremos qualquer mudança nos nossos ritos. Nunca mudamos senão…
- Aparentemente mudam, mas na verdade não. Inventam-se constantemente novas tecnologias que dizem ser apropriadas para o humano. Curiosamente quanto mais sofisticadas são, a miséria e a fome acompanham-nas. Fico com a certeza que nunca vi tanta escravidão, tantas mortes silenciosas como hoje em dia. Se não houver mudanças, os esqueletos futuros serão arquivados nas enciclopédias de outras civilizações. Serão encontrados, estudados, como uma espécie desconhecida que passou pela Terra. Os investigadores dos tempos futuros trabalharão muito para descobrir, explicar, o enigma deste fenómeno humano.
Ouvi o coro transparente de vozes infantis ensaiarem um cântico de louvor a Deus. Um piano acompanhava-as. Vozes tranquilizantes no angelical Paraíso, alento para almas destroçadas. Magnificat para penetrar o espírito deificado. O Bispo do Imobiliário deixou-me. Foi a cantarolar, a sorrir como se fosse o homem mais feliz deste mundo. Juntou-se às crianças, afagou-as, abraçou-as, beijou-as, nublou-se de branco como no reino dos céus.
- Mentor… quanto mais me queimo no fogo das religiões, mais palhaça fico. Ah!.. se o perfume dos seus mortos queimados na impura aflição dessa religião saturasse as nossas consciências… mas as palavras crucificadas movem-se como o vento do deserto, sem ramagens para o acolher.
- Os possuídos pelo dinheiro constitucional não ganho ainda dão as cartas, jogam, fazem batota e nunca perdem. Os sem terra jogam na carta inconstitucional e perdem sempre.
- Sim, é a constituição da boa vida.
- É como um vírus de nível quatro que quando ataca, e está prestes a dizimar a população, pára porque não sobrevive sem portador. As igrejas são um vírus desse nível porque lutam para que os fiéis esfomeados não sucumbam. Sem essa mão-de-obra extinguem-se. Mas, as seitas religiosas adulteram, não panificam a religião. Inundam nos pães pobres de Cristo banalidades supersticiosas… poluição religiosa. Estes Estados são pessoas de bem nos píncaros do desenvolvimento científico. Entretanto, legalizam seitas religiosas que atentam a dignidade humana, a mais-valia da fome.
- Resta a religião natural do bombeiro abnegado que até falece para salvar o próximo. Os vivos permanecem, mas a memória dos bombeiros mortos não.

Dos largos anos do poder executivo ao reboliço do povo, do chover no molhado, vêm vivas incrementadas nos baldes com águas das lavagens das roupas e detritos das cozinhas. De atalaia, as militantes reincidentes continuam o despejo dos recipientes. Com técnica militante rudimentar mas funcional, promovem chuva ácida para arejar o ambiente. Ainda não aderiram aos comités de especialidade, ratificaram convenções locais sobre destruição presente. Sem princípios, meios, prestam os fins
Um carro apresta-se para interiorizar uma grávida, a amiga dela despede-se a cantar vitória:
- Faz boa viagem, não te esqueças, quando voltares traz-me as roupas da moda.
- Querida, tens que esperar aí uns quatro meses.
É neste estado interessante que as Politburo endinheiradas viajam para Olísipo, e lá rebentam, retornam. Não desejam que os filhos nasçam em Jingola, preferem-nos nacionais estrangeirados.
Como formigas obrigadas a desviarem-se dos obstáculos democráticos incipientes, as zungueiras flúem no trânsito popular ineficiente. As zungueiras são pobres clientes desta democracia ainda impopular. Desafortunadas, a ela não dão crédito e devido a isso não recebem créditos. Esta rudimentar democracia é dos clientes Politburo VIP afortunados, com créditos. A democracia que aspergem legítima com actos ilegítimos, contrariando o direito de sobrevivência. Diviso a anunciação de sol a sol, da fuga desesperada do formigal mulherio. Os filhotes corcovam nos costados maternais. Os alguidares movem-se como navio agitado pela procela. As sem-pão param a prudente distância, a ver de que lado sopra o vento. Sem peitos para correrem, o imprevisto confronta-as, tentam fazer marcha-atrás, mas estão cercadas. Cacarejam, como galinhas acossadas por galo de briga. Como habitualmente em grande desaire, gritam como só mulher Jingola sabe:
- Os Ufolos!!! Os Ufolos!!! (Órfãos)
Quatro deles expeditos travam-se numa zungueira, dizem-lhe para repor o alguidar cheio de bolinhos como das outras vezes, no chão. Servem-se à vontade até o alguidar esvaziar e desandam à cata de novas presas. Algumas férteis em liderança desnotaram-se e conseguiram ludibriá-los. Depois da razia, unem-se e pedem contas à miséria. Os próximos dias serão acrescidos à lei marcial da fome. De semblante mais pesaroso e alguidares mais leves preparam-se para cavar. Para revender e comer terão que convencer financiadores o que não será fácil: «você está maluca da cabeça, você ainda não pagou o que deve, e queres mais?» elas defender-se-ão: «empresta só amiguinha, vou pagando aos poucos.» O ultimato: «não tenho mais dinheiro, porra!»
Esta selva humana é a mais traiçoeira, a mais perigosa, nela, vale-tudo. Cada segundo um perigo espreita. Novos perigos, novas maldades. Mais predadores atentos para saltarem, golpearem. Mabecos de uniforme plantam-se no areal, recitam bestial. Novo pânico, aflição renovada:
- São os gatunos Politburo!
- Manas, vamos bazar!
- Como então!? Nos esvaziaram!
As escapadas do saque anterior armam disfarce. O convencimento não dá, os polícias Politburo são muito vivos, cangam as precisas escapadas da marabunta. Contestam, sabem que em vão:
- Moxi, os Ufolos. Iadi, vocês… vão naqueles dos armazéns!
- Absolutamente! Patrulhámos por lá, ficámos negativos. Ganhamos mal, mesmo assim não nos pagam. A fome esforça-nos à ração de combate.
- Vão no salu do Politburo!
- Eh pá! Onde há fome… salve-se quem puder!
- Jiboiados, salafrários, ordinários de merda!
- Cala a boca, te ensacamos na prisão correccional.
- É o quê? Com a minha bebé?
- Absolutamente.
Os alegres samurais da lei ajeitam-se fotogénicos para a corrida. O chefe dá ordem. A chaparia, as rodas, assobiam arenosas. Lá vão de olhos na divisão dos despojos. As malfadadas restam-se no silêncio das maldições, enquanto as rodas da maldade vão longe da vista, longe dos corações. Os lamentos ocos repetem-se:
- Levanto ferro às quatro da manhã sem descontinuar, andar na lua da nevoenta luta continua. Demos-lhes o poder, proibiram-nos ler, ao longe sem comer.
- Amiguinha, é a filosofia anti-humanista dos novos-ricos da história da carochinha, e das suas endechas: «Por excelência ao levitar pela manhã decido: qual vou lixar hoje? Se não o fizer, desconsideram-me, perdem-me o respeito, não sou chefe. Um príncipe real a toda a força, deve estrangular a vida de outrem. Salutar, saboroso é destruir o destino dos que aspiram viver. Para obter bons negócios é importante aniquilar os amigos».
A minha longa jornada sucedia cuidada. Moscas, lixo, poças de águas imundas, buracos e assaltantes Ufolos à espreita. A Rádio Oráculo actualiza o numeral colérico: «Quarenta mil infectados e mil e quinhentos mortos.»
Apercebi-me, afastei-me, segurei-me. Vi alguém assomar-se num terceiro andar, e zás! O conteúdo dum alguidar é atirado. Que assomo! É água com restos de peixe. Remiro para cima, vejo o deserto.