quarta-feira, 4 de julho de 2012

O Cavaleiro do Reino Petrolífero (27) E disse o Senhor Eterno de Angola: Corromperei a face de Angola, os terrenos, os casebres, tudo o que for residência



Esta Lwena, é muito chata. Passa o tempo a pedir-me que lhe explique tudo, mas por vezes confesso que já não tenho paciência.
- Ó sua parva…
- Muito obrigado…
- Posso falar ou não, sua parvalhona!
- Fale, só você é que fala, ninguém tem o direito de falar, você é que sabe tudo.
- Porra! Nunca ouviste esse anúncio do stay free?
- Não!
Lembrei-me que ela não perde, nem tem tempo para ouvir rádio, e a televisão dá-lhe sono. A ela e a todos nós.
- Lwena, isso do stay free é um anúncio de pensos higiénicos para pores na tua rachinha.
- Só isso? Pensei que fosse outra coisa.
- Sua estúpida deixa-me falar... o stay free é inglês, significa, fica livre, é um anúncio que anda por aí. Diz que protege bem a tua rachinha quando estás com a menstruação, e é demais… protege-te a quatro dimensões. As partes das perninhas, a rachinha e o grelinho. Quer dizer, que mesmo que saia o sangue todo da tua rachinha, o stay free te protege, sentes-te muito livre. Ah! Ah! Ah!
- Ai é?! Eles que vão para a puta que os pariu, não preciso disso para nada. O que eles querem é roubar o nosso dinheiro. Isso é para as mulheres dos ministros, dos novos-ricos, eu não sou mulher para essas coisas de luxo.
- Sim tens razão. Da maneira que fazem a gestão, será impossível viver neste reino.
Em Samza Pombo, inaugurou-se uma escola primária com duas salas. Custou doze milhões de kwanzas. Nota-se de imediato que o custo daria para duas escolas.
- Lwena!!!
- Diga! Porra… você é chato, o que é agora?
- Vamos embora… se até o Etona quer mudar de nacionalidade.
- Quem é esse tona?!!
- Já não te expliquei?! É aquele artista plástico angolano muito admirado no estrangeiro e que aqui não lhe dão nenhum valor.
- Será que ele é mesmo angolano? duvido.
- Olha Lwena, vai à merda.
- Obrigado.
Há meses que espero a ajuda da minha filha que está em Portugal. Já lhe disse para nos apoiar, para nos aguentarmos mais uns dias. Não compreendo o abandono dela. Até nos dias do meu aniversário nem uma simples mensagem. Deve ser por causa dos ensinamentos democráticos que aprendeu. Quem está em Angola que se lixe. Ao menos que democraticamente lhe ensinassem que os pais não são como os lideres políticos. Hoje estão no poder, amanhã não. Os pais são os únicos que permanecem eternamente no poder. Que civilização, que torpor edificamos! Os filhos são como os pássaros. Os pais ensinam-nos a voar, saem do ninho e esquecem-nos para sempre. Como pai só me resta, na dor do meu coração pensar: olha, minha querida Lwena, hoje à noite vamos atacar a aldeia, porque as leoas estão a dormir.
O Cliente português não paga. Não pagam a ninguém. E o que pagam, dizem que é uma gasosa para distrair, para entreter o pessoal. Sem lei, a lei é deles, são eles. Vamos vivendo à espera que alguém se lembre que isto é um verdadeiro país, não é um reino. Entretidos com o aumento do preço do petróleo, que não pára de subir, fazem as suas contas. Quanto cabe a cada um. Pensam em comprar uma ilha e irem para lá. E nós que nos lixemos. Tiram-nos a luz, a água, o direito à alimentação. Tudo para eles, nada para nós. Não temos acesso a umas sobras. Isto é digno de um filme de ficção científica, daqueles onde surge um monstro que come todos os seres humanos.
A Lwena caiu nas escadas. Ficou meia hora sentada. Caiu tudo no chão. As meninas do quinto andar é que lhe ajudaram a apanhar as coisas que se espalharam nos degraus. Estou esclarecido. O colonialismo branco e este negro são demasiado monstruosos.
Na Rádio Nacional o locutor afina a voz, cria impacto. Trata-se de uma grande informação que aí vêm. Mais uma grande vitória para o país anuncia-se. «As alfândegas conseguiram arrecadar em receitas noventa e nove milhões de dólares até agora. A maior de sempre». Que pobre espírito informativo. Será que estamos em 2005?... Não me parece. Retrocedemos no tempo, e disso ninguém parece dar-se conta. Não é assim que se informa. Está bem, não é necessário lembrar que deambulamos num reino de analfabetos. Mas nem todos o somos. Vale lembrar que esta notícia deveria ser dada assim: com as receitas, menos as despesas, obtivemos um lucro de… mas a contabilidade não existe, é de fingir. Convém acrescentar que a idiotice é igual ou superior ao valor das receitas, quando apenas se conhecem estas. Os que roubam o nosso dinheiro para os bancos da Europa estão aterrorizados. Pensavam que lá estavam seguros, mas estão muito inseguros. Não dormem bem. Acordam com pesadelos a ver a Al-Qaeda explodir-lhes o dinheiro.
Um arquitecto comentou que o peso da água armazenada nos prédios pode ocasionar-lhes o desabamento a qualquer momento. Nos terraços e especialmente no subsolo é ainda mais perigoso devido às fugas que um grande tanque subterrâneo pode causar. Lembraram-se disto passados trinta anos. É uma governação muito cuidadosa.
Dois bebés abandonados. Um foi encontrado morto por um “mineiro que escavava” nos contentores à procura de comida. Viu o saco e pensou: «Hoje vou comer boa carne». O outro, a mãe deixou-o encostado algures à espera que alguém o apanhasse para lhe dar comida. As mães preferem abandonar assim os seus bebés, do que vê-los a morrerem, a padecerem de fome. Este reino está perdido e jamais se encontrará.
Os jovens finalmente decidiram escolher o caminho que acham ser o mais certo, o mais curto para o suicídio colectivo. Não, não são os da rua. São os que têm pais e família auto-sustentada. Normalmente reúnem-se em grupos de doze. O que recebe o vencimento no fim do mês, quando lhes pagam, manda comprar seis caixas de cerveja. Bebem até desmaiarem. O jovem continua assim até acabar o dinheiro. Depois é a vez do outro e do outro. Até que a vida lhes diga adeus. Esperam calmamente pela morte. Já não têm vontade de viver. Cadáveres que fazem o possível por se manterem de pé. Pais e mães perderam-lhes a vontade, a noção do diálogo. Também estão coniventes. Deram-lhes a lição de que não vale a pena viver. Dizem que as jovens não servem para namorar. Existe o receio da Sida. Elas, talvez sirvam os piores exemplos. Não oferecem garantias de estabilidade. Querem divertir-se de qualquer maneira, não com um, mas com muitos. A curto prazo para continuarem os destinos do país, teremos que importar jovens. Estes já não servem. Talvez possam ser utilizados como provedores de bebidas.

CAPÍTULO XXIII
O EXÍLIO

«O ministro da Comunicação Social, Manuel Rabelais, disse um dia destes, penso que no Sumbe, que os jornalistas devem estar preparados para transmitirem mensagens que fortaleçam a democracia em Angola e consolidem a paz e unidade nacional.» in altohama.blogspot.com
La Padep escreveu uma carta ao seu amor, à sua muito querida amada. Não tem Internet porque ainda é um privilégio dos nobres petrolíferos. A sua amada princesa Kituta desterraram-na para o reino de Olísipo. Segue o texto da sua bonita carta:

O Juízo Final
E disse o Senhor Eterno de Angola: Corromperei a face de Angola, os terrenos, os casebres, tudo o que for residência, até mesmo as das tocas de animais. Espoliaremos impunemente. Para isso fomos eleitos. E nas próximas eleições bateremos o recorde mundial da roubalheira. Manual da Destruição 6,7
Meu império das sagradas pétalas celestiais. Guarda a tua rosa vermelha que proximamente a minha abelha a fecundará. Olha, apresento-te as minhas teses, melhor, as minhas reflexões: Muitos nobres comparam os problemas do reino assim: que os outros países demoraram muito tempo a reconstruírem-se depois da guerra. Isto é muito cómico, senão vejamos; tiveram ajuda estrangeira, trabalharam de noite e de dia. Tinham técnicos, boas universidades, controlo dos bens financeiros. Falavam muito pouco e trabalhavam muito. Não tinham as riquezas que o nosso reino tem. Não esbanjavam os bens. De qualquer modo comparar um reino com outro, para justificar o andar para trás é um tremendo erro. De notar que naquele tempo ainda não se falava na Sida. Na prática não existe um reino igual a outro. Com a ganância do dinheiro ninguém pensa no dia de amanhã.
Democracias diabólicas que fazem explodir bombas por todo o mundo para imporem os reinos da fome. Democracias actuais com as mentes no século XIX. Os tempos dos Impérios acabaram. Por incrível que pareça o império Europeu e dos EUA findam graças à globalização da informação. Não percebem nada de África, dos Árabes e dos Chineses. É bom viver na riqueza ocidental, desfrutando o oásis Árabe e Africano da fome. Num mundo de esfomeados a violência é a única coisa que lhes resta. Suspeito que o golpe militar no reino de Marrocos foi preparado pelo Ocidente.
Nem conseguimos uma pequena indústria doméstica, por exemplo de massa de tomate enlatado, porque temos que comprar um gerador, mais combustível, espaço, lubrificantes e um segurança. O preço de venda fica muito alto. É mais fácil importar e lá se vão os postos de trabalho.
E criaram modernos campos de concentração a que chamam cidades. Pagam a malfeitores internacionais para publicitarem que este reino é a maravilha africana. Onde todos somos ricos. Onde há divisão dos cheiros do petróleo pela população. Sim… só cheiros de uma atroz fome que aumenta diariamente. Um reino que depende em absoluto de uma única coisa: o desastre petrolífero. Manual da Destruição 18,19