quarta-feira, 4 de julho de 2012

OS JASMINS DA LWENA (04)



Reino Jingola, um reino onde tudo é ilegal.
Que infortúnio assaz interessante. O dom que os humanos conservam desde a ancestralidade. Não o esquecem jamais. A morbidez mortal da desinformação nos seus genes. A ordem guardada, disfarçada, escondida, sempre à espreita na janela das suas mentes, que dela sai a pontapés: matar, matar, matar! Se não resulta, salta a alternativa da hipocrisia, que se transforma na inutilidade da mentira. Perante esta verdade, vem a calúnia, que dá vida ao ódio, à maldade. Para galantear este apogeu, para se afirmar defronte dos vencedores, para iludir a sua mente doentia, elimina com a morte aqueles que lhe deram a projecção para os pedestais da vida. Esta é a sujeição genética, a saga dos vencidos. Tubarões mortíferos que aniquilam o Caminho sem casebres.
Esta senda contínua, ninguém consegue parar. Astutos ratos no silêncio das noites. Se mais obscuras melhor. Sombras profeticamente dissimuladas nascem dos seus sonhos, das noites em que não dormiram. As multidões seguem-nos estupidificadas, adoram-nos, imolam-se no altar já inventado. Triste horizonte da camuflagem humana. Viver para adorar, a fome semear.
Não é só guerra e fome que existem nos intervalos do futebol-arte.
Uma coisa que vi e nunca compreendi. As pessoas gastam quase todo o tempo das suas vidas para conseguirem qualquer coisa para comerem. Isto não faz sentido, é absurdo. Ninguém que se preze nasceria, para viver assim tão infeliz. Qual é a alternativa?!
Existem máquinas que fazem qualquer trabalho. Decrete-se que os humanos devem obedecer às coisas espirituais. Treinarem e desenvolverem a mente. Diariamente, pelo menos uma vez, respirar fundo, relaxar, fechar os olhos e não pensar em nada durante um minuto. Para começo, isto é extraordinário. O nosso cérebro pensa dia e noite, basta parar um minuto para a mente descansar.
É contrário à vida nascer, crescer, e trabalhar para aumentar a riqueza de meia dúzia que nos escravizam há muitos milénios. O trabalho nas fábricas, essa escravidão moderna, deve terminar imediatamente. Acabemos com os prédios, com as estradas de asfalto, com os enlatados, com os plásticos, com o petróleo. Vamos plantar árvores, plantas, limpar os mares, os rios, as florestas e viver de acordo com as leis da Natureza.
Não é necessário ir a um circo para nos rirmos com os palhaços. Basta olharmos por exemplo para a TV e ouvir um embaixador dos países democráticos falar das relações de amizade entre os dois povos.
É a melhor saída para salvar o que resta, o que ainda vive. Acabar com a palavra empresário para começar. São estes os demónios que sobreviveram na batalha dos céus contra Gabriel, e caíram na Terra dissimulados. Os sofrimentos da humanidade, a fome, estão nas suas mãos. Devemos votar contra eles. Serviram-se do Cristianismo, apoderaram-se do Santo Graal e dos seus segredos para nos dominarem. Estes são os iniciados da maldade humana, por isso se explica que ao longo dos tempos fossem criadas várias sociedades secretas para evitar a extinção da raça humana. A luta da humanidade, as revoluções, as guerras… desenvolve este antagonismo milenar: sociedades secretas criadas para resistirem ao aniquilamento dos poderes ditatoriais, à proibição do desenvolvimento das ideias. Foi assim por exemplo contra Voltaire.
Andamos, movemo-nos como seres invisíveis. Ninguém dá conta, sente a nossa presença. Se fortuitamente alguém tropeça na nossa sombra, volta-se, espreita, aguarda indeciso. Descobre que foi algo… como um nevoeiro repentino que surgiu do nada. Pensa que foi talvez alguma ramagem de árvore incomodada pelos transeuntes anónimos que deseja relembrar os tempos há muito passados, esquecidos, quando as folhas verdes que caíam, se veneravam, amadas, deusas geradas pela Terra-Mãe. A multidão de pessoas a caminharem habitualmente sem destino é muito impessoal. Os filhos cruzam-se com os pais, não se reconhecem. Melhor, fazem gestos de jardim zoológico. Porque entre seres humanos nas ruas e animais em cativeiro não há nenhuma diferença. Melhor, apenas uma: a prisão das espécies em cativeiro é pequena, as grades da prisão da espécie humana são imensas.
Alardeamos com prazer que acabámos com a escravatura. Quando na nossa mórbida ingenuidade proverbial não queremos aceitar a verdade suprema: Somos escravos eternos das necessidades fisiológicas e biológicas do nosso corpo. A nossa mente é pobre, humilde servidora, perante a mais elementar necessidade da fisiologia humana. Esta é a mais atroz servidão humana.
Atraído pelas teclas patéticas de um piano, som imortal, o homem da rua não consegue distinguir de onde vêm, mas mesmo assim pára hipnotizado. Sublimes marteladas nas teclas despertam a sua consciência. Sente na alma uma luz inexplicável. O seu cérebro tenta transmitir as sensações agradáveis da melodia que paira. Consegue arrastar, parar no seu caminho mais um escravo eterno. Teimamos, não aceitamos, que o perfume musical nos escraviza. Tal como o amor. Só que por mais que tentemos, não conseguimos explicar a doçura musical dos sons que compõem, que nos levam ao mais elementar caminho da existência humana: O amor do início dos tempos da nossa mocidade.
O nosso pensamento é imaterial, surge do espaço vazio. Entretanto consegue materializar objectos, utensílios, o que inventamos e utilizamos. Na dúvida se Deus existe, creio que o nosso pensamento é uma resposta. Se criamos matéria a partir do nosso pensar, eis a explicação para a existência do divino. Deus não é matéria, a nossa mente também não. Portanto o nosso pensamento não é Deus. Sim, sem nos darmos conta cumprimos o mais elementar da nossa existência: a nossa alma etérea cumpre a função do Criador Bigue-Bangue, participa da grandeza e pequenez do Universo. A nossa inspiração é o cumprimento de ordens Superiores dimanadas da central de controlo, situada algures no Universo. Esses lagos profundos onde repousa a consciência, a essência da vida humana. Uns são de águas transparentes, outros de águas pantanosas. Alguns, poucos, são de águas calmas. Outros, a maioria, são de águas agitadas, violentas. Os violentos pedem aos ventos que façam tempestades, e aniquilem os espíritos das águas da calma sabedoria. O conhecimento agita o violento. Como o frio glacial que nos obriga a procurar um refúgio acolhedor. Os lagos humanos da violência e da intolerância perturbam-nos o sossego. Até nas noites a justeza do sono é-nos negada, interrompida, porque um lago secreto transbordou. A onda da nova guilhotina galga para o nosso leito, e corta a cabeça, mais uma, de qualquer recente consciência. Como um navio atracado no cais da amargura esperada, e depois assolado, levantado e transportado no ar pelas trombas furiosas, repentinas de um furacão elefantino. E neste manicómio mundial com milhões de desempregados, os bandidos, espertalhões especuladores dizem que a economia mundial está a estabilizar. Prova disto é a subida dos preços do petróleo. E ninguém os prende porque já não existe lei.
Apesar do corpo cansado, usado, velho pelos anos do tempo, a mente está rejuvenescida. O ditador usa o corpo são na mente insana. Como plantas daninhas que vituperam os jardins suspensos desta Babilónia. Por mais que tentemos não conseguimos evitar a perseguição de Robespierre. O reinado do Terror persiste, insiste, não nos abandona. Que tempos estes! Não, a História ensina-nos que sempre foi assim. O ser humano é o símbolo, o culto do Terror.
Quando acabar, a Natureza rejubilará, cantará um hino de louvor. As árvores não ficarão estáticas, mover-se-ão de um para o outro lado como sempre fizeram. A chuva cairá e as águas seguirão o seu curso normal. Não haverá diques que as perturbem. Aos rios livres de poluição voltarão as fadas, e os espíritos das águas renascerão. A Natureza reencontrará a liberdade, voltará à normalidade. Já foi dado ao ser humano o tempo mais que suficiente para respeitar os seus semelhantes. Não, não me refiro aos homens, porque entre estes não há leis que funcionem, falo duma simples ave que baixa o seu voo, encontra-se com um bípede e é abatida sem explicação. O que está em causa é o seguinte: a Natureza não pode compartilhar a sua sã existência com seres vis que se deleitam em exterminar tudo o que se move.

Encontrei a manhã a meio no embarcadouro do Kapossoca. O céu obrigou o dia a escurecer. A água desertou do firmamento e o horizonte enevoou-se. Chuva intensa, centimétrica, parecia milhões de meteoritos que abriam crateras transparentes na superfície neptuniana. Conseguirei chegar a Tule, para lá de Viana? Muitos perigos me esperam, mas terei êxito nesta epopeia. Quando lá chegar admirarei as Colunas de Hércules de Viana. Não sei quem foi o propositado que chamou tal nome a duas imensas montanhas de lixo.
Para além delas… é o desconhecido… alguns mercadores Fenícios que de vez em quando aqui chegam, dizem que para lá das Colunas de Hércules de Viana existem dezassete reinos governados por pretores. A informação que dão é muito escassa, não se sabe o que lá se passa. Em criança ouvia falar muito sobre esses reinos desconhecidos, esquecidos, abandonados. Que ninguém se preocupava com eles. Comecei a sonhar que seriam o continente perdido da Atlântida, de dezassete Atlântidas.
Tantos carros para poucas estradas esburacadas, permanentemente engarrafadas. Nunca conseguirei entender porque é que os Jingola não apreciam bicicletas. Combinam com os séculos, com as cargas na cabeça sem rodas, sempre à roda. O âmago do meu espírito tenta libertar-se da desordem circundante. O lixo encolerizante une-se às árvores derrubadas pela força inumana. Os canteiros de flores perderam-se na imposição de outros de obras concretos, dos novos construtores dilectos. Outros edificadores e muitos comedores de cães, gatos e de tudo o que se mexe. Cosmovisão genética rudimentar, truncada. Passam os desgovernados anos, não mandatados continuam os tiranos. Digam-lhes que quem aniquilar uma árvore será condenado a plantá-las até ao fim da sua vida. Ah!.. Muitos bancos, muitos financeiros, muitos corruptos, muitos especuladores, muitos aventureiros. É mediocridade, quando não se abordam questões com profundidade. Quanto mais os políticos falam, mais são estudados e menos escutados. Muitas palavras muitos devaneios. Os cérebros dos ouvintes saltam para outra plateia. Abandonam os políticos de corpo vertical e alma horizontal. A figura da África Negra é uma aventura propícia para aventureiros. Sempre concordantes com a pobreza de espírito dos governantes. E o interlúdio da pobreza e da fome prosseguem em todos os momentos, nos cartazes com fotos gigantes que iludem os eleitores votantes. Neles, abusam as palavras democráticas: onde há pão e livros, há democracia.