quarta-feira, 1 de agosto de 2012

AS CINCO MAGNÍFICAS (06) Contém cenas eventualmente chocantes



Chegámos ao largo. Quase grito:
- Estive mais de uma hora à tua espera. Depois perdi um tempo precioso com as tuas colegas. Como se não bastasse, ainda demoraste mais tempo nas suas casas.
- Desculpa, não sabia que ficavas chateado. Olha, amanhã vais conhecer a minha casa. As vacas das minhas vizinhas já sabem. Uma delas já nos viu e falou com as outras. Elas podem fazer tudo o que quiserem. Mas porque arranjei um branco vão cochichar que sou prostituta. Elas são assim. São muito invejosas, e quando uma de nós tem um marido branco pensam que já somos ricas., que não nos vai faltar nada.
Quase não conseguia raciocinar. Fiz um esforço. Pela primeira vez compreendi que manter relacionamento com uma negra era assaz complicado. Gilda antes de se despedir, faz-me um pedido:
- Dá-me algum dinheiro para comprar alguma coisa para levar para casa. As crianças estão cheias de fome.
Dei-lhe o suficiente. Chegava e sobrava, ela ficou muito alegre:
- Meu querido, vou comprar frango assado e batatas fritas. Hoje vai ser festa lá em casa. Gostas de mamada? Adoro, e tu? Amanhã espera-me aqui ok?
Notei que brevemente este relacionamento seria um fiasco. Estava interessado em ver o seu desfecho. Limitei-me a dizer:
- Sim, aqui onde o vento faz a curva.
- Onde o vento faz o quê?
Não entendeu, não estava minimamente interessada. Afastou-se com algumas risadas.
A rua era estreita. Tinha cerca de quatrocentos metros de extensão. Dois carros que se cruzassem tinham que o fazer com muito cuidado. Era ladeada por vivendas construídas pelos colonos. Algumas tinham muros. Quando chovia a rua ficava quase ou mesmo intransitável devido à lama que se acumulava. Ao fundo havia uma cratera,devido às águas dos esgotos que aí se juntavam. O panorama era desolador. A casa da Gilda ficava no fim da rua. Até lá chegarmos fomos recebidos com vários olhares cheios de curiosidade. Gilda recomendava:
- Não ligues, deixa-as olhar.
Entrámos, o recheio da casa era pobre. Gilda desculpa-se:
- Não tenho quase nada em casa, ele levou-me tudo.
As crianças estavam na vizinha do lado. Gilda confidencia-me que ela é boa pessoa. Chegam e noto que os seus olhos são demasiado largos para a sua idade. Diz-lhes para tirarem a roupa e tomarem banho para se irem deitar. São duas meninas e um menino. Os seus corpos nus são iguais às imagens que circulam pelo mundo. Quase não tem carnes, apenas ossos. Sinto-me horrorizado com a fome que estas crianças têm passado. Todos os dias vão para a escola. O seu rendimento escolar será em vão. Durante os momentos que com elas convivi, revelaram-se encantadoras. Tinham dois, três e quatro anos. Gilda enviou-as para a cama. Preparou uma refeição de ocasião acompanhada por duas garrafas de vinho tinto do mais barato. Os mosquitos não nos largavam. Eram muitos e fiquei com receio de apanhar paludismo. Terminámos de comer, Gilda mostra-se ansiosa:
- Vamos fazer uma grande mamada.
De manhã dirigi-me para o quarto de banho. Fiquei surpreendido ao ver que a sanita estava entupida. A trampa escorria. Havia um quintal amplo. Proveniente do esgoto a água estagnada acumulava-se. O aspecto era confrangedor. Gilda fica a olhar. Perante o meu ar interrogador afirma:
- Isto necessita de uma reparação. Não tenho dinheiro.
A sua amiga tinha uma casa na praia. Fomos lá passar o fim-de-semana. As crianças estavam muito contentes. Devido à alimentação já estavam a ficar gordinhas. A casa tinha dois pequenos quartos. Estávamos a fazer amor e vejo na porta aberta a sua amiga encostada, completamente nua a olhar para nós. Ela passava a maior parte do tempo a ler no quarto. Pela janela avistava-se o mar. A amiga da Gilda continuava a provocar-me. Sabendo que estava só continuava a mostrar-me a sua nudez. Falei com a Gilda sobre o comportamento dela:
- Ela não tem marido. Assim, quer dizer que está aflita para foder.
À espera no aeroporto, Gilda continua a chegar tarde. Agora já são três amigas para transportar. Devido a isto chego sempre a casa tarde. Não adianta nada chamar-lhe a atenção. É como se nada acontecesse. Gilda diz que as meninas estão com paludismo. Pede-me dinheiro para comprar os medicamentos. Comprei um par de sapatos por um preço razoável para a sua irmã. Fui a sua casa e fiz-lhe a entrega. Ficou radiante:
- São muito bonitos. Tens que comprar também para as minhas quatro filhas. Não penses que andas a foder a minha irmã de borla.
Fingi que não ouvi. O telefone toca. Ela atende:
- George é para ti, a Gilda quer falar contigo.
- Filho, estou no hospital com as meninas. Vem-nos buscar.
Apanhei a Gilda. Disse-me para passar em casa de duas amigas. Depois das conversas inúteis que tiveram e o muito tempo perdido, ainda tinha que fazer umas compras. Preferiu ficar no largo onde o vento faz a curva:
- Ficamos aqui. Algumas vizinhas já estão a falar muito. Não podem ver uma negra com um branco. Putas de merda. Amanhã apanha-me às seis da manhã. Um dos meus irmãos disse-me que tem uma caixa de peixe para mim.
Depois de deixar o peixe na sua casa, levámos as crianças à escola. Gilda retira um espelho do seu saco de mão. Olha para ele e passa a mão pelo cabelo. Lamenta-se:
- Querido, o meu cabelo não está em condições. Deixa-me no cabeleireiro.
- Não vais trabalhar?
- Oh, as minhas amigas não me vão marcar falta. Ninguém vai notar a minha ausência.
- Eu tenho inúmeros compromissos profissionais a que não posso faltar.
- George tu és chefe. Um chefe deve chegar ao serviço sempre depois das nove, ou quase às dez horas.
Depois do aeroporto o roteiro habitual. Gilda lembrou-se que outra das suas irmãs ia passar a noite em sua casa, mas ela não apareceu. Tinham um óbito de um sobrinho e não podiam faltar ao velório. A rua estava interrompida por um camião que avariou. Não havia lugar para passar. Tive que atravessar pela cratera de água putrefacta. Se o fizesse mais vezes depressa ficaria sem carro. Perguntei-lhe:
- Gilda a tua família é muito numerosa?
- Somos muitos. Tenho muitos irmãos e irmãs. Conforme a tradição, o meu pai fez muitos filhos com muitas mulheres.
- Acho que isso contribui para a miséria do povo africano.
- Eles pensam que se fizerem muitos filhos, algum há-de chegar a ministro.
- Agora já entendo. É por isso que todos querem ser chefes.
Deixei-as no óbito. No outro dia ela não iria trabalhar. Ou melhor, fingir que ia trabalhar.
Recebo um telefonema dela a dizer para a ir buscar no óbito. Quando chego o carro é invadido. Toda a gente quer boleia. Enquanto decidem quem vai e quem fica aguardo impaciente. Discutem interminavelmente devido ao álcool consumido. O tempo passa. Indeciso penso dar à ignição e pôr-me a andar. Gilda entra com a sua comitiva. São todas mulheres. Cinco sentam-se no banco de trás. Ao meu lado a Gilda está com uma sentada nos seus joelhos. Lembro:
- Levamos pessoas a mais, a polícia vai-nos incomodar.
- Manda lixar essas merdas. Não tenhas medo. Nós falamos com eles.
- Sim, mas eu é que sofro as consequências.
Gilda falava muito alto. As suas acompanhantes também. Estavam com os copos. Eram todas jovens, pelos vinte e cinco anos. Estavam a comer milho e cana-de-açúcar. Um saco de plástico com farinha de bombó rasga-se. Descarreguei a carga nos destinos. Exausto chego a casa da Gilda. Ela vai ao quarto, regressa e pisca-me um olho: