terça-feira, 7 de agosto de 2012

AS CINCO MAGNÍFICAS (08) Contém cenas eventualmente chocantes




- Como era a tua vida em Cuba?
- Oh! Lá é muito diferente. Existe muita disciplina. Nunca passei fome como estou aqui a passar. É tudo muito vigiado. Existem vigilantes em cada esquina. Há muita higiene. Ensinam-nos a sermos muito limpas. Quando alguém pisa o risco, fica debaixo das autoridades, que são muito rígidas. As negras aqui, a única coisa que sabem fazer é engravidar. Quando não engravidam, os maridos põem-nas fora de casa e arranjam outra. Mas mesmo assim têm sempre mais que uma. Julgam-se os donos das mulheres, e à mínima coisa batem-nos. Têm a mania que são perfeitos. O tipo de negro perfeito para a negra imperfeita.
- Ana, é tudo complicado.
- É sim. Querem funje de manhã ao almoço e ao jantar. Vem sempre com amigos e amigas para casa. A família quando sabe que na casa há comida, aparecem como visitas frequentemente. A dona da casa de facto, não passa de uma escrava. Gostam muito de nos darem pontapés nas pernas, sem mais nem menos. As suas esposas acabam por fugir de casa. Mas como eles tem muitas, não se preocupam com isso.
- Ana, já notei que viver na África Negra é um suplício.
- Não conseguimos avançar devido às nossas tradições. É por isso que os brancos nos consideram muito atrasados, e têm razão.
Ana deu duas sonoras gargalhadas. Levantou-se e começou a retirar a loiça. Disse-lhe:
- Não te preocupes, eu trato disso.
Não me prestou atenção. Levou os restos da comida para o balde do lixo. Lavou a loiça e deixou a cozinha bem arrumada, impecavelmente limpa. Não deixei de ficar surpreso. Afinal em Cuba a higiene era uma coisa muito séria. Ela despede-se:
- George, vou-me embora. Posso levar os cigarros?
- Podes.
Deu-me um beijo nos lábios. Já com a porta aberta, faz-me uma súplica:
- George leva-me para Inglaterra.
Cansado após mais um dia de trabalho, estava parado num sinal de trânsito, a aguardar que a luz verde chegasse. Senti uma forte pancada na traseira do meu carro. Retirei a chave da ignição, abri a porta e dirigi-me para o infractor. Este também já tinha saído do seu carro. Era um jovem corpulento, que cambaleava ligeiramente. Aproximou-se de mim, e senti o seu hálito que tresandava a álcool:
- Mandingo! Mandingo! Filho da puta!
Descontrolei-me e respondi-lhe na mesma moeda:
- Filho da puta é você! Seu macaco!
As portas do seu carro abrem-se. Saem três negros altos e fortes. Dois imobilizam-me os braços e encostam-me ao meu carro. O terceiro prepara-se para me dar socos. Senti que não sairia vivo do local. Como tinha os pés livres, preparei-me para pontapear o socador nos testículos. Já de punho no ar, suspendeu o gesto e retiraram-se a gritar:
- Branco mandingo, filho da puta!
Consegui anotar a matrícula da viatura. O estranho é que ninguém fez um gesto em minha defesa. Pareciam contentes. Antes de chegar a este país fui advertido para os perigos que continuamente corremos.
A Ana estava sentada à porta do prédio. Narrei-lhe o sucedido. Mostrei-lhe a traseira do carro que estava lastimável. Perguntou-me se tinha a matrícula do prevaricador. Disse-lhe que sim, tomou nota e acrescentou:
- Vou falar com os meus amigos da investigação criminal que estiveram em Cuba comigo, depois digo-te qualquer coisa.
- Ana onde vais?
- Vou já para lá.
- Não precisas de nada? Por exemplo, algum dinheiro para despesas?
- Não, não é necessário, aguarda.
Surpreendeu-me porque não demorou muito tempo. Cerca de duas horas depois já tinha o relato da situação:
- Olha, este carro é de um coronel. Ele não está cá, está no Brasil. Quem conduz o seu carro é o filho. Ele faz muitos desmandos. Não és a primeira pessoa que se queixa. Estão com o olho nele. Os meus amigos disseram-lhe que se ele não pagar os estragos vão-lhe retirar o carro. Amanhã os meus amigos vão vir aqui para avaliar o custo da reparação do teu carro.
- Ana, achas que isso é assim tão fácil? Custa-me a acreditar.
- Aguarda, amanhã veremos.
Para minha surpresa as coisas aconteceram tal e qual como a Ana disse:
- George está aqui o dinheiro do valor da reparação do teu carro.
Entregou-me uma quantia em dólares que facilmente verifiquei corresponder ao valor dos prejuízos. Senti um grande contentamento, de a abraçar e beijar. Que mulher tão prestável, tão simples e humilde. Congratulei-me:
- Ana, muito obrigado pelo que acabas de fazer.
- Oh! Não precisas de me agradecer.
Lembrei-me que era sexta-feira. De súbito senti um grande impulso:
- Convido-te para irmos jantar fora.
- Oh George, isso é óptimo! Onde será esse enlace principesco? Espero que no fim tenhas algo muito substancial para me ofereceres.
Senti-lhe uma intensa cupidez. Contudo percebi a sua afirmação enigmática. Sugeri:
- Acho que no fim da Ilha é interessante. Tem protecção e podemos apreciar o mar a qualquer momento. Quanto à minha substância poderás apreciá-la quando bem o entenderes.
- Aguarda uns minutos, vou preparar-me.
Quase duas horas já tinham passado. Acho que não voltaria. O sono invadia-me. As mulheres para se prepararem, contam os cabelos que rodeiam a vagina para terem a certeza que não falta nenhum. Depois miram-se e remiram-se interminavelmente no espelho, a aguardar que a sua face se transforme, como num sonho irrealizável. Despertei com o barulho na porta. As pancadas eram cada vez mais fortes. Abri e ela entrou sem cerimónia. Exclamou:
- Parece-me que demorei muito, não é!?
São as expressões peculiares delas, estava encantadora. Não parecia a mesma pessoa. Com um vestido branco de noite comprido, e um longo decote que mostrava os seios, um pouco compridos, que terminavam nos mamilos bastante inchados. Receava que ao inclinar-se os seios saltariam, e ficariam desprotegidos. Os sapatos de salto alto eram exagerados, não sei se conseguiria andar. Os lábios, as unhas das mãos e dos pés estavam pintados de um vermelho muito agressivo. O cabelo estava sem tranças, curto e muito justo, alisado como se fosse um rapaz adolescente. Transportava um saco de mão vulgar. Comentei:
- A tua beleza surpreende-me.
- Ah, George estou bonita?
- Não me recordo de nenhuma noite, em que vi algo tão belo como tu.
O empregado sorridente apresenta-nos o cardápio. Ana pergunta-me o que quero comer. Digo-lhe que prefiro ser ela a escolher. Encomenda dois pratos de frutos do mar. Faltava a bebida para acompanhar, o empregado aguardava. Tive que intervir:
- Tem Dão Grão Vasco tinto?
- Temos.
- Traga duas garrafas.
- Das pequenas ou das grandes?
- Das grandes.
Dão Grão Vasco… os vinhos do Dão são considerados os melhores do mundo. Tornei-me um apreciador incondicional depois de um português amigo ter-me confidenciado, que sem o bom vinho tinto, os portugueses já teriam perecido. Depois do repasto, Ana faz-me um convite:
- Vamos ficar ali nas pedras, muito juntinhos a ouvir as ondas do mar.