quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Rua das Sirenes Press. nunca conseguiu beneficiar nada da independência


Enquanto vivermos, dependermos da teimosia que a liberdade e a democracia se conquistam por decretos-lei, jamais seremos livres e a democracia nem de binóculos se avistará.
A tia São
Este triste acontecimento passou-se há alguns meses, como tudo o mais que acontece neste país nas sondas petrolíferas plantadas, não é fácil de narrar, mas obrigo-me a fazê-lo. No fundo é a minha missão, não é?, mas é, acredite meu leitor amigo, que é com imensa tristeza no meu coração que o faço. A tia São normalizava a sua vida de dependente, porque nunca conseguiu beneficiar nada da independência, na lavagem de roupa numa senhora angolana, e o pouco que ganhava era para quando chegasse em casa os seus filhos, de acordo com as normas em vigor pelo Minoritário, a despojassem do seu parco vencimento da escravatura com novas leis, e assim a miséria continuava, muito certa. Até que alguém, um vizinho, lhe garantiu que umas pastilhas para matar ratos, tomadas tipo vitaminas faziam quase milagres no corpo. Ela, como uma boa crente das igrejas diabólicas, quadrilhas religiosas, acreditou e logo começo a tomar o milagroso remédio. E de tantas doses tomar acabou por cegar. A tia São chora, chora muito, mete pena. Ai esta Angola dos donos únicos do petróleo que desprezam o seu povo, que cada vez mais parecem-se como ratos. A tia São está irremediavelmente cega, como o Poder cego que nos desgoverna.
O reduto fortificado
E os indianos já estão toda a manhã a reforçar o portão de ferro do seu apartamento e gradeamentos das varandas, porque adivinham maka grossa com o FIASCO eleitoral. Como se isso lhes valesse de alguma coisa. O minoritário está perdido e para sobrevivência…
O Pilar
27 de Julho, pelas 16 horas. O técnico chinês confecciona a armadura em madeira com as dimensões aproximadas de 30cm x 10cm x 2,5 metros para depois vestir a estrutura de ferro que findará num pilar. O chinês martela pregos até nunca mais acabar e serra, serra, para que o trabalho não falhe. Já com tudo a postos chegam três mwangolés que cozinham o betão e depois o vão despejando até encherem por completo o “poço” do pilar. O trabalho já ia muito adiantado mas eis que surge um imprevisto. A estrutura de madeira do técnico chinês, tal como uma ponte-cais foi-se, e o pilar desabou. É no Hotel Katyavala do general Led, nas traseiras da Pomobel, próximo do Largo Zé Pirão, Luanda.
As sirenes
Sete horas de todas as manhãs, as sirenes anunciam mais uma terrível manhã, de também mais um dia catastrófico do amanhã. Passam as sirenes da escolta da opressão, outra vez como os canhões da desolação. Por aqui nada se alterou, muito pelo contrário, tudo piorou. As igrejas da maiuia apoiam o voto no minoritário, para que continuemos subjugados, acorrentados ao poder dinossáurio.
A moto rápida
02 de Julho, treze horas. Aqui na bwala aguardava por um amigo, ele aproximava-se de mim, já estava a cerca de vinte metros, quando surge uma moto rápida com dois ocupantes e zás, sacam-lhe a carteira e o telemóvel. Toda a gente a ver, incluindo eu, mas quem é que se mete lá? Já não se pode sair de casa?!
Gatunos! Gatunos!
11 de Julho 2012. As meninas assim que acabaram de sair da escola correram, correram a gritar: «Gatunos! Gatunos!» Não, isto não é no Cacuaco ou noutro bairro dos habituais assaltos, é mesmo numa zona muito nobre., ali para os lados do Zé Pirão. Uma mais-velha abanou a cabeça e: «Isto está a ficar duma maneira!»
Mais uma nova-rica
13 de Julho 2012.  A mwangolé nova-rica alugou um apartamento num quinto andar, desses do tipo águas-furtadas. Aparenta ter entre vinte e cinco a trinta anos. A indumentária ainda é de pobre e termina com um calção curto, improvisado, desses que antes eram umas calças. Até aqui, creio, nada de extraordinário. Foi quando ela já na fase final do carregar as imbambas começa a limpeza da casa, varre o lixo e muito naturalmente atira-o para o rés-do-chão. E depois um saco um tanto ou quanto volumoso também segue o mesmo caminho. Quarenta anos depois…. E esquecia-me: ao ligarem a água do reservatório, improvisado, caiu uma chuvada no apartamento do vizinho de baixo. Afinal os construtores mwangolés enganaram-se, ligaram o tubo da água aos tubos antigos, inutilizados. Agora, dizem, que vão fazer uma canalização exterior.
Foi levantar sete mil dólares
13 de Julho, Luanda. Segundo uma fonte digna de crédito que esta RSP passa a citar e que aguarda confirmação: «Um senhor da ANGOP mandaram-lhe ir no banco levantar sete mil dólares. Os bandidos estavam à espera dele, mataram-no e fugiram com o dinheiro.»
Os objectivos do milénio
E um dos principais objectivos do milénio foi conseguido. Com os biliões de dólares do petróleo, Angola finalmente declara ao Mundo que cumpriu todas as exigências deste milénio e dos que se seguem: em Luanda destaca-se uma corrida dos esfomeados aos contentores do lixo. Nunca este petróleo tantos e bastos esfomeados eliminou.
As crianças sem pátria
14 de Julho, Luanda. Aí por volta das vinte e uma horas estava o segurança no repasto dos desgraçados sem petróleo. Entretanto ausenta-se da sua sala de jantar. As crianças deserdadas e abandonadas pelos senhores da guerra do petróleo, esfomeadas do milénio, viram uma boa oportunidade. Pegaram rápidas, como é costume dos nossos corruptos, na comida e devoraram-na em poucos segundos como se fossem piranhas. O segurança retorna já no acto consumado e enraivecido, vida de miserável é assim até se mata por uma côdea de pão, deseja, grita que vai matá-las, o que pouco interessa pois nesta Angola o mais vulgar das vulgaridades é a matança indiscriminada de crianças. Mas os outros seguranças impedem-no, como a cavalaria num ataque contra poços de petróleo, dantes eram os índios, eram?, não, tudo continua na mesma, ou muito pior. Que tragédia esta mais-valia do petróleo.
Um tiro de pistola
06.45 horas, 15 de Julho, de mais um fatídico dia de Luanda. Ouviu-se um tiro de pistola. Mais alguém que foi assaltado e depois baleado mortalmente? As sanguessugas deste petróleo são o nosso fatal terror diário.
A fraude da água
No rumo da Nova Vida das centralidades. Vamos para quatro dias que continuamos na fraude da água. Não nos dão explicações. Já deixámos de ser gente. Será que a desviaram para a fábrica de cerveja CUCA? Mais um rótulo para este caos. Só loucos é que fazem coisas destas. Loucos perigosos à solta?
Bruta fogueira no terraço
Luanda, Avenida Comandante Valódia, Ex/ Combatentes, 19 de Julho, 11.10 horas, próximo do estabelecimento José Luís de Carvalho. Bruta fogueira no terraço. Só pode ser para cozinhar o almoço do dia. Já disse e repito: pouco falta para fugirmos dos prédios, pois a selvajaria está a tomar conta deles e da cidade (?). Quarenta anos de infindável Poder Popular.
Bancarrota nas kinguilas
Na implementação do projecto Nova Vida e Novas Centralidades, hoje de manhã no Zé Pirão as kinguilas foram varridas na totalidade por uma ventania de assaltantes. Ficaram limpinhas, sem um tostão.
O pelotão dos fiscais
Luanda, 23 de Julho, 15.55 horas. Um pelotão na composição de cinco fiscais todos trajados de negro, porquê?, do GPL – Governo da Província de Luanda, Ingombota, desembarcam de uma carrinha branca de caixa aberta,  tal e qual como tropas de assalto. Luanda é, e será sempre por vontade própria uma praça de armas, aliás como nas restantes províncias de Angola. Rápidos como tropas piratas do saque, porquê em Angola só se espoliam os honestos?, saqueiam os bens dos pobres vendedores de rua, e rápidos como vieram embarcam na sua viatura. Mas, azar deles, o trânsito está engarrafado, como o Governo, e ouvem os protestos da juventude que já lhes perdeu o medo, que lhes resiste heroicamente: «Gatunos! Gatunos! Isso que nos roubaram é o nosso ganha-pão!» Mas eis que surge uma senhora que se lhes junta e lhes grita de forma não habitual nestes comícios eleitorais da roubalheira, de mais uma fraude, quarenta anos de fraudes: «Depois das eleições vocês vão ver!!!»
Imagem: Aléxia Gamito