quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Os jasmins da Lwena (15) A nossa diferença reside em que não podemos ter ideias diferentes.



E depois do consumatum est, quem pretender entrar em Luanda vindo dos Zangados, obrigatoriamente terá que mostrar o passe, o salvo-conduto, senão não entra. Ou pensam que estes tempos Tarrafais diferem dos anteriores?
Como vai o nosso vulcão dos casebres?! Está óptimo, bem alimentado, alienado, já se notam alguns médios tremores de terra, preludia que vai explodir.
E Angola retorna ao mergulho da escuridão dos tempos. A população, sem vontade própria, cai na escravidão sem vida, onde só existe morte. A única identidade que lhe sobra é a selvajaria.
E no final os participantes aprovaram uma série de documentos. E os resultados ultrapassaram todas as expectativas.
E o nosso PIB cresce e nós encolhemos.
Não impressiona muito verificar que a actual sem saída de Angola, em quarenta anos de delapidação por um único partido, seja outra colonização. Angola já não tem nenhuma hipótese, a não ser outra vez para colonizar?


- O cortejo feudal do caudal automóvel outonal, luxuário do descrédito actual, envergonha o solo habitual da pobreza mortal. As vestais auguram aos príncipes encantados que o rei dos canhões anunciará eleições. Serão flageladas nos anos medievos de 1132, 1133, 1134. Desflorestadas em 1135, 1136, 1137. Desacostumadas em 2009, 2010, 2011, 2012. Aguardadas pela Renascença, abandonadas pelo Barroco. A nossa diferença reside em que não podemos ter ideias diferentes. Quem não está preparado para governar abusa do censurar. Urge um bom realizador que grite: CÂMARA! ACÇÃO!
A geratriz das ideias expõe o fervor ideológico. Perde-se o senso moral, abandona-se o bom samaritano. O perigo da política sectária acirra e confronta os espíritos, anima a imersão de conflitos civis. Quando um dos lados está contra tudo e todos, o poder salta-lhe à vista. Os anarquistas omnipresentes lançam poeira nos olhos incautos.  
- Há alguém que consiga fugir da prisão preventiva das cidades? Que não se canse de fazer amor, sempre com a mesma mulher?
- Eleições, com biliões? Quando a bondade se vê e deseja…é escarcéu… os Órfãos e os do Politburo são guerreiros, a eleição será pautada à paulada, cacetada. Se os Órfãos ganharem, os Politburo amarram o jogo, vão virar o resultado. Aliançados com grandes negócios, não darão as costas a midas. Se os Politburo perderem – têm que ganhar – os militares estão lá para resolver, para decidir a contenda favorável aos Politburo. É assim que sobrevive uma nação guerreira com o seu líder eterno colocado nas nuvens. Com ar de mistério no mar desencontrado.
- A espada da barbárie de Urundi suspensa.
- Para cada quadrilha de malfeitores há sempre um herói. Como Bat Masterson e Wyatt Earp, o panteão da história lembra-os.
- Na história da caubóiada.
- Nas leis da História. Os heróis são necessários, entram em acção e repõem a legalidade.
O receio da cólera feria as mentes, congestionava as vias públicas. A cólera é pungente porque o poder não se sente. É sonho diurno. A lábia dos boca a boca interrompeu-se. Radiodifundia-se actualização do vibrião.
- Aguentem a cavalaria! Vai sair locução dos números epidémicos.
- Muda para a Rádio do Oráculo, a outra faz desconto.
- Já está! Deixem radiar.
Rádio Oráculo. Números da cólera…quarenta e dois mil infectados e mil e seiscentos mortos.
Mais informação com o nosso correspondente:
… Desencontro-me no desertus mirabilis. O barqueiro Caronte tem a situação controlada. Desviou um afluente do rio Estige que inunda o desertus mirabilis. As vítimas excedem-se. Os defuntos progridem com os vivos. Estes, para escaparem dos fluidos de Caronte, saltam pelas janelas do hospital, que parece o anjo da morte Mengele. O cheiro dos cadáveres é insuportável. Há mais de um mês que as autoridades locais guardam silêncio. A cólera espalha-se como uma invasão de gafanhotos. Quem divulgue informação do que se passa, as autoridades ameaçam com tribunal ad hoc. No momento em que vos falo, os Politburo montam-me guarda. Dizem que vão cursar-me tratamento de choque informativo. Que tempos coléricos estes. Ó da guarda! Digo adeus ao mundo.
- Mentor…
- Minha Lwena, a cólera encoleriza os cegos de espírito.
A estirada para Tule de Viana avançava, diminuía o percurso. A paisagem da juventude Jingola que enchia baldes com água para lavar carros e solidificar a fé comestível, não melhorava. Jovens dengosas auscultavam nos vidros dos carros e trocavam impressões sobre o preço da carne sexual. Alguns seguranças permaneciam encostados, apoiados nos pilares, enquanto outros jaziam sentados em improvisadas cadeiras.
De repente o ambiente intempesta-se. Dois desabridos seguranças manifestam dor da alma. Um narra para os colegas os últimos acontecimentos. Roga apoio, mas os colegas limitam-se a ouvi-lo, porque ao mínimo deslize perdem o emprego.
-… O director da empresa da vanguarda Politburo apresentou lamentos: Descobriu que algumas alvíssaras se evadiram dos cofres. Vai daí, nada mais fácil do que culpar os seguranças. O indistinto prosélito, qual mastodonte fóssil do Mioceno ordenou: «chamem a polícia Politburo». A polícia chegou, ele deu-lhes a quantia necessária para as investigações e actuaram de imediato. Cismaram para quatro seguranças, arrastaram-nos e divertiram-se muitas horas a cascar-lhes chapadas com catanas nas costas e nas faces. Num deles, os Politburo arrancaram-lhe as unhas dos dedos das mãos. Depois atiraram-nos para um albergue com os ossos tão amassados que alguém se lembrou de dizer: «essa pasta óssea dá para fazer pastilha elástica».
- Mentor… é doença mental?
- Hum, hum. Prometeram-lhes mundos e fundos, a felicidade eterna. No princípio é fácil abusar da boa fé das pessoas, com muitas promessas eleitorais que se perdem nos vendavais. Tiram-se muitos dividendos, mas com o tempo tudo se desmorona. É como a prisão perpétua.
Adiantei-me numa rua onde se escutava uma ode ao automóvel. Buzinas estrondeavam, trombeteavam coro metálico de harmonia com vozes humanas. Realmente parecia um imenso manicómio. Tantos loucos varridos à solta! Alguns punhos erguidos agitavam-se temíveis. A explicação saltava à vista: um enorme contentor abandonado na rua obstruía os sentidos do trânsito. Nenhum carro entrava ou saía. Satisfiz a minha curiosidade num automobilista:
- Esta rua está condicionada a parque de estacionamento de contentores?
- Não! O motorista abandonou o contentor às cinco da manhã, e continuou… zarpou para a bebedeira com o camião.
- E?...
- E como pertence a uma empresa de um Politburo, não podemos fazer nada… senão levamos nos cornos.
O casebre de Mentor não prestou a mínima atenção quando chegámos. Parecia que as chapas onduladas que cobriam o telhado sorriam com a nossa presença. Mais chapas zincadas rodeavam o casebre. Contra elas o lixo e a água do esgoto próximo remavam, rumavam para incerto destino. Mentor abriu a porta gótica e entrámos. Pegou numa vela, acendeu-a. As sombras dos objectos revelaram-se como fantasmas. Cuidei-me ao sentar-me numa cadeira tresmalhada. Tinha um calcanhar vulnerável. Precavi-me, firmei-a na parede com cuidado. Desconfiada, se a estrutura resistiria à pressão. Mentor sorri, apresenta explicações:
- Sabes, não dá para ter uma casa em condições. Só o mínimo indispensável, porque quando chegam os assaltantes e os predadores das demolições do Politburo, se não conseguem roubar nada, pegam-lhe fogo. Obrigamo-nos a viver no estilo gótico. Luz é impossível… à noite abundam aparições de alicates fantasmas que cortam os vultos dos imateriais cabos. Olha… temos que prestar atenção às velas, algumas parece que explodem.
O pequeno corredor no centro do casebre guardava sete vasos de hortelã. Pensei que era por causa dos gatunos. Em simultâneo olhei para eles e para Mentor que explicou:
- Como a hortelã é óptima para as doenças respiratórias, comprei vasos e neles a plantei. Cresceu rápida, ficou atraente. As folhas esverdeavam a liberdade das plantas. A meio da noite acordava com a respiração opressa que lembrava chiadeira de gatos. Levantava-me, ia a um dos vasos, colhia quantidade suficiente. Mastigava-a, engolia-a e pouco depois sentia-me melhor. A expectoração saía forçada pela tosse, os pulmões arejavam e a respiração normalizava. Tinha um pequeno jardim e notei que alguns pardais apareciam. Duma vez contei oito. O piar era muito barulhento mas agradável. Talvez protestassem porque não tinham comida. Revivia neles a salutar Natureza. Coloquei-lhes recipientes com arroz e água. Vieram regularmente, comiam, bebiam e iam. No passar dos dias noto que um pardal corria com os outros. Surpreendi-me… porque ele assenhoreou-se da comida e bebida. Quando outros pardais apareciam, ele voava como um míssil, e zás! Não queria compartilhar a sua propriedade privada.
Habituou-se à minha presença, sentia-se à vontade, mas sempre desconfiado. Reconhecia a área como um cão ou gato. A cadeira onde me sentava não escapava à vigia. Sentia-se ser de casa. Gostava de observar o crescimento da hortelã. Numa manhãzinha verifiquei constrangido que quase desaparecera, incluindo raízes. Não tardei a encontrar explicação. Os outros pardais, furiosos porque estavam proibidos de se alimentarem da comida do colega, vingaram-se na hortelã… como se eu fosse culpado. Enfureci-me, retirei-lhes o arroz e a água. Gritei-lhes: «aqui não há mais comida e bebida para ninguém». Fi-lo por vingança, decidido a nunca mais enfrentar ingratidão de asas.
O comensal reapareceu, viu que a comida desapareceu, piou estridente até se cansar. Imóvel, provavelmente pensava: «mas, que mal fiz?!». Repetiu-se por quatro dias, quando percebi com grande surpresa: Não era um, era uma pardaleja que acompanhava o seu pequenino que iniciava o manejo das asas. O bebé abria o bico à espera que lá caísse qualquer coisa. A mãe desesperada bicava areia e enfiava-lha pela goela. Mas o bebé não se calava, queria comida de verdade. Percebi… era chantagem. A mãe culpava-me da morte do filho pela fome. Senti-me varado, gritei-lhes: «chega, estou despassarado!»